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	<title>Arquivos Christian Petzold &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Mirrors No. 3, Foi Apenas um Acidente e o inescapável lado humano</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Nov 2025 13:00:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Guilherme Moraes A 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo dá palco a diversas histórias ao redor do globo, muitas vezes das quais nunca ouviríamos falar se não fossem esses filmes. Cada local tem sua própria cultura e singularidade, e, na maioria das vezes suas obras se diferenciam muito. Porém, há momentos em que &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-mirrors-no-3-e-foi-apenas-um-acidente/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Mirrors No. 3, Foi Apenas um Acidente e o inescapável lado humano"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36273" aria-describedby="caption-attachment-36273" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-36273" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirroirs-no-3.-e-Its-Just-an-Accident-800x390.png" alt="À esquerda: Cena de Mirrors No. 3. Uma mulher de cabelo cacheado, veste um moletom roxo, olha para o lado esquerdo de um campo verde, segurando uma bicicleta. À direita: Cena de Foi Apenas um Acidente. Em uma paisagem desértica, um homem de camiseta azul está em pé, enquanto um homem de camisa branca e uma mulher vestida de noiva estão sentados na parte traseira aberta de uma caminhonete branca." width="800" height="390" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirroirs-no-3.-e-Its-Just-an-Accident-800x390.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirroirs-no-3.-e-Its-Just-an-Accident-1024x500.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirroirs-no-3.-e-Its-Just-an-Accident-768x375.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirroirs-no-3.-e-Its-Just-an-Accident-1536x750.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirroirs-no-3.-e-Its-Just-an-Accident-1200x586.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirroirs-no-3.-e-Its-Just-an-Accident.png 2000w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36273" class="wp-caption-text">Foi Apenas um Acidente fez parte das seções Homenagem e Apresentação Especial (Foto: Schramm Film Koerner Weber Kaiser e Jafar Panahi Productions)</figcaption></figure>
<p><b>Guilherme Moraes</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;"> dá palco a diversas histórias ao redor do globo, muitas vezes das quais nunca ouviríamos falar se não fossem esses filmes. Cada local tem sua própria cultura e singularidade, e, na maioria das vezes suas obras se diferenciam muito. Porém, há momentos em que elas se interligam de maneiras inimagináveis. </span><i><span style="font-weight: 400;">Mirrors No. 3</span></i><span style="font-weight: 400;">, dirigido por Christian Petzold, é um longa alemão sobre pessoas superando o luto. Por outro lado, </span><i><span style="font-weight: 400;">Foi Apenas um Acidente</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Jafar Panahi, tem como foco principal um grupo de ex-prisioneiros políticos iranianos que encontram, possivelmente, o seu antigo torturador. Apesar das temáticas diametralmente distintas, ambas se aproximam por sentimentos basilares do ser humano: a dor e o trauma.</span></p>
<p><span id="more-36272"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Mirrors No. 3</span></i><span style="font-weight: 400;">, Laura (</span><a href="https://personaunesp.com.br/afire-critica/"><span style="font-weight: 400;">Paula Beer</span></a><span style="font-weight: 400;">) está perdida no mundo, infeliz, sem saber o porquê. Durante uma viagem com seu namorado, eles sofrem um acidente que culmina na morte dele. A ajuda vem de uma mulher chamada Betty (Barbara Auer), que mora nas redondezas de onde ocorreu o fato. Logo de cara, ocorre uma conexão entre as duas que é mediada pelo olhar, como se elas já se conhecessem. A partir do ocorrido, a protagonista começa a ficar sob os cuidados da família de Betty, entretanto, conforme a trama avança, às atitudes deles ficam cada vez mais estranhas e suspeitas. Ao final, nos é revelado que Laura estava sendo tratada como uma substituta da caçula da família que já tinha falecido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já em </span><i><span style="font-weight: 400;">Foi Apenas um Acidente</span></i><span style="font-weight: 400;">, Vahid (Vahid Mobasseri) sequestra Eghbal (</span><span style="font-weight: 400;">Ebrahim Azizi)</span><span style="font-weight: 400;">, um homem que ele acredita ser a pessoa que o torturava enquanto estava preso. Contudo, sem a certeza de que estava com a pessoa certa, ele decide ir atrás de outros antigos prisioneiros para confirmar. Assim, se forma um grupo com Shiva (Mariam Afshari), uma fotógrafa; Hamid (Mohamad Ali Elyasmehr), um homem com uma personalidade impulsiva; Golrokh (Hadis Pakbaten), uma noiva que coloca o seu casamento em espera para resolver essa pendência e Ali (Majid Panahi), o noivo que acompanha a sua mulher nessa empreitada. Depois de sofrer diversas humilhações, Eghbal confessa que realmente era o homem que torturava todos eles, e assim, Vahid e Shiva permitem que ele viva, pois já não queriam mais deixar o passado consumí-los. </span><a href="https://mostra.org/jornal-da-mostra/homenageado-na-49-mostra-jafar-panahi-apresenta-seu-novo-filme-e-participa-de-conversas-com-o-publico"><span style="font-weight: 400;">Jafar Panahi</span></a><span style="font-weight: 400;"> encerra a obra com um plano de Vahid de costas, ouvindo passadas metálicas, característica marcante de Eghbal, deixando a pergunta: ele voltou para perpetuar o ciclo de violência?</span></p>
<figure id="attachment_36275" aria-describedby="caption-attachment-36275" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-36275" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirrors-no-3-800x390.jpg" alt="Cena de Mirrors No.3. Uma mulher de cabelo cacheado e suéter claro está no banco de passageiro de um carro conversível vermelho, olhando para trás, na direção de uma pessoa cujas costas e cabelo preso estão em primeiro plano. Um homem com cabelo cacheado está sentado no banco do motorista ao lado dela." width="800" height="390" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirrors-no-3-800x390.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirrors-no-3-1024x500.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirrors-no-3-768x375.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirrors-no-3-1536x750.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirrors-no-3-1200x586.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirrors-no-3.jpg 2000w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36275" class="wp-caption-text">Mirrors No. 3 fez parte da seção Perspectiva Internacional (Foto: Schramm Film Koerner Weber Kaise)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O que conecta essas duas tramas é o trauma. Seja pela guerra, para o iraniano, ou a perda de um ente querido, para o alemão. Todavia, a grande questão é como cada um vai lidar com essas angústias e o que isso vai significar para o encerramento de cada personagem. Em </span><a href="https://mostra.org/filmes/mirrors-no-3"><i><span style="font-weight: 400;">Mirroirs No. 3</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (no original), Betty, Richard (Matthias Brandt) e Max (Enno Trebs) – respectivamente, marido e filho de Betty – tentam superar a partir do amor e carinho com Laura. Ainda que Petzold mostre como essa relação era doentia e não poderia perdurar, a protagonista finaliza sua jornada mais completa e feliz, enquanto a família conseguiu se reconciliar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por outro lado, </span><i><span style="font-weight: 400;">It Was Just an Accident </span></i><span style="font-weight: 400;">(título original) coloca o seu quinteto em situações bizarras e condenáveis. O filme se assemelha a </span><a href="https://personaunesp.com.br/anora-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Anora</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2024) com sua pegada cômica, de forma que esconde as aflições e os abusos dos personagens e potencializa o final, em que tudo é extravasado. As dores que eles sentem são respondidas na mesma moeda e isso gera um impacto contrário do que acontece com os de </span><i><span style="font-weight: 400;">Mirrors No. 3</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No iraniano, o desfecho é aberto e interpretativo. O próprio Panahi falou depois da exibição da fita na Mostra, que o som metálico poderia ser real ou imaginário, porém, qualquer uma das duas hipóteses não leva para um caminho feliz. Se o que Vahid ouviu for real, seu algoz retornou para perpetuar o ciclo de violência, caso esteja em sua cabeça, demonstra que o protagonista não conseguiu superar o trauma. É o embate entre amor e ódio que define o destino dos personagens nas duas obras.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe title="It Was Just An Accident - Official Trailer" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/Y7X9sSZ0nYw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda que os dois longas tenham temáticas e objetivos distintos, ambos se encontram pelo lado humano. Durante a 49° Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, </span><a href="https://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2014/04/10/preso-no-ira-diretor-ja-contrabandeou-filme-em-pen-drive-escondido-em-bolo.htm"><span style="font-weight: 400;">Panahi</span></a><span style="font-weight: 400;"> participou de discussões relacionadas à sua filmografia, o longa, à sua história e o que ele pensa do Cinema no geral, e o diretor comentou sobre como todos os tipos de filmes estão ligados à humanidade. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Quando olhamos para qualquer tema no cinema social, ele tem tudo o que tem no cinema político, e tem temas como a humanidade também</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O cineasta foi homenageado e recebeu o Prêmio Humanidade durante o evento, pela sua história e paixão pelo Cinema. Entretanto, essa sua fala pode dizer mais sobre o motivo dele ser merecedor, não de um prêmio, e sim de carinho, atenção e admiração que ele recebeu. Apesar da perseguição que sofreu do governo iraniano por sua Arte, ele ainda enxerga algo positivo no mundo. É irônico como isso se revela na trama, pela comicidade, e é ainda mais curioso, como essa obra triste é mais bem humorada do que o carinhoso filme de Petzold. Seja para o político-social </span><a href="https://www.instagram.com/reels/DQSeErKFYR0/"><i><span style="font-weight: 400;">Foi Apenas um Acidente</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, ou para o traumático </span><i><span style="font-weight: 400;">Mirrors No. 3</span></i><span style="font-weight: 400;">, sempre haverá uma conexão no Cinema: o lado humano, inescapável.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="MIROIRS NO. 3 Clip | TIFF 2025" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/qngYk2K8HIw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Latente, Afire estremece e queima</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Oct 2023 21:37:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori ‘‘O amor da juventude, a  juventude do amor desaparecerá e passará quanto antes.’’ – John Hay Período em que a suspensão da realidade diária cede lugar à educação sentimental, ao titubear emocional, ao erro e à tentativa: o verão é uma quietude na qual a procrastinação dá espaço a descobertas sensíveis. É uma &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/afire-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Latente, Afire estremece e queima"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31721" aria-describedby="caption-attachment-31721" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31721" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/images-original-800x600.png" alt="" width="800" height="600" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/images-original-800x600.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/images-original-1024x768.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/images-original-768x576.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/images-original-1536x1152.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/images-original-2048x1536.png 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/images-original-1200x900.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31721" class="wp-caption-text">Afire foi o vencedor do Urso de Prata do Grande Prémio do Júri no Festival Internacional Cinema de Berlim de 2023 e estreou no Brasil na 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Piffl Medien)</figcaption></figure>
<p style="text-align: left;"><b>Enzo Caramori</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">‘‘O amor da juventude, a  juventude do amor</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">desaparecerá e passará quanto antes.’’</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">– John Hay</span></i></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Período em que a suspensão da realidade diária cede lugar à educação sentimental, ao titubear emocional, ao erro e à tentativa: o verão é uma quietude na qual a procrastinação dá espaço a descobertas sensíveis. É uma das temporadas dos filmes de Éric Rohmer, cujos propósitos de suas relações ficcionais são, de qualquer maneira, a afetação, seja por leituras tediosas de Balzac, gestos sutis de sedução e o mormaço claro do sol francês. Mesmo que dispondo de um olhar que se dedica às delicadezas da estação, o drama </span><a href="https://47.mostra.org/filmes/afire-47a"><i><span style="font-weight: 400;">Afire</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2023), presente na </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/perspectiva-internacional/"><span style="font-weight: 400;">Perspectiva Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> da 47ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, não almeja o lugar da beleza e da delicadeza rohmeriana – na qual se inspira –, mas enfoca justamente nas feridas subjetivas de suas personagens, colhendo, do tédio, o sentimento melancólico de alheamento. </span></p>
<p><span id="more-31720"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O segundo capítulo da </span><a href="https://www.cinematheque-passion.mo/pt/movie/55"><span style="font-weight: 400;">Trilogia Elemental</span></a><span style="font-weight: 400;"> do diretor Christian Petzold constrói-se em uma fábula febril, cuja paisagem bucólica e ao mesmo tempo praiana do Mar Báltico alemão é o fundo da construção de atritos e emoções sutis entre um trio central de personagens. A tentativa de isolamento dos amigos Leon (Thomas Schubert) e Félix (Langston Uibel), um escritor e outro fotógrafo, para a realização de seus respectivos projetos, poderia, em um arco narrativo do gênero de filmes de verão, ser iluminada com a presença inesperada e misteriosa de Nadja, interpretada por Paula Beer, presente no trabalho anterior de Petzold, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/12/christian-petzold-dirige-com-mais-calor-undine-versao-de-mito-alemao.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Undine</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2020).</span> <span style="font-weight: 400;">Contudo, tanto pela ameaça silenciosa e iminente de queimadas naturais na região seca onde refugiam-se, na casa do fotógrafo, quanto pela centralização da perspectiva pessoal do escritor, um personagem em crise com sua escrita e seu ego conflitante, </span><i><span style="font-weight: 400;">Afire </span></i><span style="font-weight: 400;">torna o que poderia ser um fator idílico em algo delicado, incômodo e taciturno.</span></p>
<figure id="attachment_31723" aria-describedby="caption-attachment-31723" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-31723 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-2-1600x900-c-default-800x450.jpeg" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-2-1600x900-c-default-800x450.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-2-1600x900-c-default-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-2-1600x900-c-default-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-2-1600x900-c-default-1536x864.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-2-1600x900-c-default-1200x675.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-2-1600x900-c-default.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31723" class="wp-caption-text">O realizador Harun Farocki colaborou com Petzold nos roteiros de sua trilogia Amor em Tempos de Sistemas Opressivos (Foto: Piffl Medien)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao colocar sobre primeiro plano o complexo narcisismo e frustração do protagonista Leon perante si e seus amigos, a direção de Petzold não faz estremecer somente o espectador frente a diálogos minuciosamente construídos – sarcásticos e com um gosto quase </span><a href="https://kdhx.org/articles/film-reviews/3176-afire-masterfully-depicts-a-taciturn,-insecure-writer#:~:text=In%20press%20notes,by%20Nadja%E2%80%99s%20honesty%20."><span style="font-weight: 400;">tchekhoviano</span></a><span style="font-weight: 400;"> – que enveredam o espectador nos flertes, farpas e ciúmes do trio. Mas também a própria expressão dos personagens quando pouco dizem e que faz prevalecer o que deixam de falar uns aos outros: algo sempre visível em suas fisicalidades, contrastante, em momentos de tensão, com a leveza do ambiente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A vivência na casa os situa em uma intimidade não construída pela afinidade ou pelas semelhanças, mas justamente por um contato estabelecido por devida distância. Em uma dança de olhares, os personagens observam-se mutua e silenciosamente pela janela de seus quartos ou se escutam entre as paredes finas dos cômodos, que deixam escapar seus gemidos à noite. Esse caráter voyeurístico parece corroer Léon interiormente, que vê o verão escapar entre seus dedos, já que o perde entre extensos cochilos, maços de cigarros e o denso </span><a href="https://mubi.com/pt/notebook/posts/burning-down-the-house-christian-petzold-on-afire#:~:text=NOTEBOOK%3A%20Shame%20is%20the%20perfect%20word.%20It%E2%80%99s%20also%20a%20much%2Ddiscussed%20emotion%20in%20literature%20and%20literary%20studies.%20%C2%A0"><span style="font-weight: 400;">desespero</span></a><span style="font-weight: 400;"> de, acima de tudo, não se fazer nada.</span></p>
<figure id="attachment_31722" aria-describedby="caption-attachment-31722" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-31722 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/afire-roter-himmel-christian-petzold-2023-v0-toeafk70b0lb1-800x431.webp" alt="" width="800" height="431" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/afire-roter-himmel-christian-petzold-2023-v0-toeafk70b0lb1-800x431.webp 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/afire-roter-himmel-christian-petzold-2023-v0-toeafk70b0lb1-1024x552.webp 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/afire-roter-himmel-christian-petzold-2023-v0-toeafk70b0lb1-768x414.webp 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/afire-roter-himmel-christian-petzold-2023-v0-toeafk70b0lb1-1536x828.webp 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/afire-roter-himmel-christian-petzold-2023-v0-toeafk70b0lb1-1200x647.webp 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/afire-roter-himmel-christian-petzold-2023-v0-toeafk70b0lb1.webp 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31722" class="wp-caption-text">As duas locações de Afire, uma nas florestas de Brandemburgo e a outra próxima ao Mar Báltico, justificam os contrastes dos espaços, dando um ar irreal ao filme (Foto: Piffl Medien)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda que </span><i><span style="font-weight: 400;">Rotter Himel</span></i><span style="font-weight: 400;"> – título original do filme, que se traduz ‘‘paraíso vermelho’’ –, pareça transportar as tensões sociais e emoções reprimidas na urdidura de silêncios de </span><i><span style="font-weight: 400;">Deserto Vermelho, </span></i><span style="font-weight: 400;">dirigido por Michelangelo Antonioni, </span><a href="https://47.mostra.org/jornal-da-mostra/exposicao-antonioni"><span style="font-weight: 400;">homenageado</span></a><span style="font-weight: 400;"> pela 47ª Mostra, o longa e o Cinema de Petzold é marcado por um retrato sutil das transformações e dos sujeitos sociais da sociedade alemã. Talvez o maior traço disso seja a construção do ritmo de ações do protagonista se situar entre o alarmante sentimento de ser produtivo contra o abraçar do devaneio, que faz de sua vivência na casa mais uma performance, na qual, frente aos outros, finge estar escrevendo, do que um abraço a um aspecto inventivo do ócio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A praia é a paisagem possível – a uma sociedade assolada pelo pós-guerra, pela cisão política e pela lógica de honra do trabalho – de se ter um corpo, fazer sexo, se recriar e inventar fora da norma de produção. Mas, como abordado de diferentes maneiras por seus predecessores Harun Farocki e Rainer Werner Fassbinder, o trabalho é o concessor de uma identidade capaz de evanescer com o estalar dos dedos, o que faz Schubert não somente encenar o protagonista, mas, também, performar o trabalho que atende a Leon um único objetivo: sua </span><a href="https://mubi.com/pt/notebook/posts/burning-down-the-house-christian-petzold-on-afire#:~:text=PETZOLD%3A%20Yes%2C%20that%E2%80%99s,a%20unique%20selling%20point."><span style="font-weight: 400;">vergonha</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a representação de si frente a um mundo onde outros não necessariamente trabalham, mas ocupam seus espíritos consigo mesmos. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Afire</span></i><span style="font-weight: 400;"> toma uma leitura mais singela e moderna de melodramas e novelas para referir-se, a partir do pessoal, a </span><a href="https://piaui.folha.uol.com.br/em-transito-um-olhar-sobre-o-monstro-que-habita-varios-tempos-historicos/"><span style="font-weight: 400;">traumas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e crises sociais, e mostrar, mesmo com determinada distância, que talvez se precise das ondas – ou do fogo –, para se desfazer de si. </span><span style="font-weight: 400;">Quase que como um</span> <a href="https://blogdacotovia.blogspot.com/2016/04/seis-contos-morais-de-eric-rohmer.html"><span style="font-weight: 400;">conto moral</span></a> <span style="font-weight: 400;">de Petzold, o desprendimento das resistências individuais parece ser o caminho ideal para o aflorar criativo de Leon, além de um deslumbramento com a paisagem que, em filmes como </span><a href="https://mubi.com/pt/br/films/bergman-island-2021"><i><span style="font-weight: 400;">A Ilha de Bergman</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2021)</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">de Mia Hansen Løve, e </span><a href="https://criticos.com.br/?p=6282"><i><span style="font-weight: 400;">Acima das Nuvens</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2014)</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">de Olivier Assayas, toma a beleza do espaço e a conexão com os elementos terrenos – a sensualidade, as sensações e os sentidos – como o desbloqueio de suas dificuldades. </span></p>
<figure id="attachment_31724" aria-describedby="caption-attachment-31724" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31724" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-3-1600x900-c-default-800x450.jpeg" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-3-1600x900-c-default-800x450.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-3-1600x900-c-default-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-3-1600x900-c-default-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-3-1600x900-c-default-1536x864.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-3-1600x900-c-default-1200x675.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-3-1600x900-c-default.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31724" class="wp-caption-text">A Literatura está sempre presente nos filmes de Christian Petzold e, em Afire, destaca-se o poema The Azra, de Heinrich Heine (Foto: Piffl Medien)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">No filme, a </span><a href="https://mubi.com/pt/notebook/posts/hard-cover-christian-petzold-reader-director"><span style="font-weight: 400;">Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> não deixa de</span> <span style="font-weight: 400;">cumprir sua função estética como um eixo de referência entre o diretor e sua criação, mas também narrativa. Personagens escritores podem, curiosamente, servir de metáforas ou alegorias a seus autores, mas nesse contexto, o ofício parece capturar o sentimento de recusa ao outro. Para além de um arcabouço do qual o protagonista justifica seus escapes às atividades cotidianas e conjuntas dos dias ensolarados, a desculpa da escrita é a concha para qual se volta quando se encontra em desalinho e alienado do corriqueiro, lidando com a introspecção e a insegurança de seu texto. Aqui, a escrita é uma covardia e uma forma de comunicação na qual se materializa essa constante conexão e desconexão do mundo que o cerca, tanto por grosserias materializadas em maus-entendidos que nebulam jantares ainda ensolarados quanto pelo embaraço íntimo </span><span style="font-weight: 400;">de uma paixão incerta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Afire, </span></i><span style="font-weight: 400;">a apatia do personagem predomina e, diferentemente dessa consonância com a natureza e o ambiente que acarreta ao pico criativo, é a partir do fogo e das cinzas – que chegam a parecer dentes-de-leão ao céu – que o </span><a href="https://lithub.com/can-writers-have-fun-afire-is-a-character-study-of-a-self-absorbed-novelist/"><span style="font-weight: 400;">escritor</span></a><span style="font-weight: 400;"> encontra-se em seu texto. Um fogo que não somente é um componente de uma fábula contemporânea que coloca uma catástrofe natural, que enfurece ao longo que o filme passa, à espreita e ao fundo dos planos e diálogos, mas sim um presságio que espelha a experiência psicológica e o colapso de seus personagens.</span></p>
<figure id="attachment_31725" aria-describedby="caption-attachment-31725" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31725" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-6-1-1600x900-c-default-800x450.jpeg" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-6-1-1600x900-c-default-800x450.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-6-1-1600x900-c-default-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-6-1-1600x900-c-default-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-6-1-1600x900-c-default-1536x864.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-6-1-1600x900-c-default-1200x675.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-6-1-1600x900-c-default.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31725" class="wp-caption-text">A leveza da atuação de Paula Beer justifica-se por seu histórico na dança, premeditado na escalação da atriz em Undine (Foto: Piffl Medien)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se de alguma forma Petzold persiste, como em </span><i><span style="font-weight: 400;">Undine, </span></i><span style="font-weight: 400;">a </span><a href="https://icsfilm.org/uncategorized/myth-within-modernity-christian-petzolds-undine/"><span style="font-weight: 400;">reconstruir mitos</span></a><span style="font-weight: 400;">, o faz dando a um imaginário específico de filmes alemães, um Cinema veranil, cuja claridade adentra pela </span><a href="https://www.theguardian.com/film/2023/aug/27/afire-review-slow-burning-german-drama-about-a-self-absorbed-writer"><span style="font-weight: 400;">queima lenta</span></a><span style="font-weight: 400;"> de tensões e pela repetição quase métrica das emoções de seus personagens. Mesmo não atravessados pelo estremecimento emocional do protagonista, são envolvidos por uma inércia que faz as mudanças serem sutis e quase imperceptíveis. Não há rupturas, mas sim uma profundidade que vai se acessando com as ações e interações com os motivos centrais da obra que, centrado no mundo egoico de Leon, se fazem ainda mais ocultos e imperceptíveis sob sua cegueira às relações sociais e emocionais que o cercam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que é verossímil e se faz real é a capacidade do amor e da paixão, sentimentos abissais que torcem seus personagens para dentro e fora de si. O tremor desse indivíduo enveredado em um sua paixão e sua vergonha é um cenário que não precisa ser representados em sua literalidade, pois já é ilustrado pelo olhar abissal frente a uma catástrofe natural e sensível, desesperados para agarrarem-se ao que está a iminência de se perder, frente ao </span><a href="https://artreview.com/afire-christian-petzold-review-summer-film-eric-rohmer/"><span style="font-weight: 400;">fogo</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Afire</span></i><span style="font-weight: 400;"> se estabelece mais no sentimento de não representar em sua totalidade, dada suas lentes individualistas que prendem Leon a si mesmo e que, ainda que suas patologias criativas sejam superadas, remanesce como sendo o protagonista de uma </span><a href="https://www.documentjournal.com/2023/07/afire-film-christian-petzold-paula-beer-german-cinema-cuba-libre-ghosts-barbara/"><span style="font-weight: 400;">crônica</span></a><span style="font-weight: 400;"> sobre perda. O sentimento final de culpa não apenas instaura um gosto estranho de melancolia, como de algo que não pode ser dito e que se encerra em sua perspectiva, mas também da realidade da representação. Trêmulo, em uma chama baixa próxima a se apagar, o tempo de descobertas se afoga no sentimento da inércia de alguém que fica ao fundo e observa o verão se desenrolar, enquanto restam só escritos do que poderia, em algum momento, ter sido.</span></p>
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