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	<title>Arquivos Charlotte Gainsbourg &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Melancolia: 10 anos de colisão emocional</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Nov 2021 19:34:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Gatti A melancolia é um estado de morbidez em que a pessoa apresenta abatimento físico e emocional. Esse sentimento tão comum é capaz de afetar qualquer pessoa independente das condições em que esta se encontra. Com o pensamento na escatologia, a trama se aproveita dessa condição emocional abstrata objetificando-a em um gigante planeta azul &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/melancolia-10-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Melancolia: 10 anos de colisão emocional"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24126" aria-describedby="caption-attachment-24126" style="width: 757px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-24126" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-1-1-2.jpg" alt="Cena do filme Melancolia em que há uma mulher vestida de noiva à esquerda, uma criança de terno preto no centro e uma mulher de vestido cinza à direita. Os três estão em um gramado e ao fundo há uma mansão." width="757" height="426" /><figcaption id="caption-attachment-24126" class="wp-caption-text">Melancolia aborda em sua narrativa a objetificação das emoções (Foto: Zentropa Entertainments)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Gatti</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/12/26/melancolia-o-que-e-e-como-lidar-com-ela.htm"><span style="font-weight: 400;">melancolia</span></a><span style="font-weight: 400;"> é um estado de morbidez em que a pessoa apresenta abatimento físico e emocional. Esse sentimento tão comum é capaz de afetar qualquer pessoa independente das condições em que esta se encontra. Com o pensamento na </span><a href="https://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/a-diferenca-entre-a-escatologia-e-a-escatologia/"><span style="font-weight: 400;">escatologia,</span></a><span style="font-weight: 400;"> a trama se aproveita dessa condição emocional abstrata objetificando-a em um gigante planeta azul em rota de colisão com a Terra. A partir dessa premissa, a obra apresenta uma análise comportamental sobre duas irmãs e suas percepções com o fim da vida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa aproximação entre psicologia, morbidez e arte é muito comum na cinematografia do repulsivo diretor dinamarquês Lars Von Trier, que ficou conhecido por suas polêmicas. Seus filmes costumam representar mulheres em estado de vulnerabilidade e inferioridade aos homens, sendo retratado diversas vezes de forma asquerosa o abuso e a violência contra a figura feminina.</span></p>
<p><span id="more-24125"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A misoginia do diretor já rendeu muitos problemas e sérios relatos de assédio </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/bjork-relata-assedio-sexual-cometido-por-diretor-dinamarques.ghtml"><span style="font-weight: 400;">sexual</span></a><span style="font-weight: 400;">. Como se não fosse o suficiente, o criador do movimento </span><a href="https://www.institutodecinema.com.br/mais/conteudo/movimentos-do-cinema-o-que-foi-o-dogma-95"><span style="font-weight: 400;">Dogma 95</span></a><span style="font-weight: 400;"> já causou polêmica ao referenciar o nazismo com </span><a href="https://veja.abril.com.br/cultura/declaracao-nazista-de-lars-von-trier-choca-o-festival-de-cannes/"><span style="font-weight: 400;">declarações antissemitas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Os discursos sórdidos fizeram com que o Festival de </span><i><span style="font-weight: 400;">Cannes</span></i><span style="font-weight: 400;"> vetasse sua participação, no ano em que </span><i><span style="font-weight: 400;">Melancolia </span></i><span style="font-weight: 400;">foi lançado. Mesmo com essa situação horrível, Kirsten Dunst ganhou o Copa Volpi de Melhor Atriz, enquanto que o cineasta recebeu o título de </span><a href="http://g1.globo.com/festival-de-cannes/2011/noticia/2011/05/cannes-declara-von-trier-persona-non-grata-apos-citacao-nazista.html"><i><span style="font-weight: 400;">persona non grata</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> pela Academia.</span></p>
<figure id="attachment_24127" aria-describedby="caption-attachment-24127" style="width: 757px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-24127" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-2-1-2.jpg" alt="Cena do filme Melancolia que apresenta uma mulher branca, loira, vestida de noiva correndo. Há diversas raízes que a prendem pela perna, dificultando sua fuga. No fundo da imagem aparecem mais árvores com cipó." width="757" height="426" /><figcaption id="caption-attachment-24127" class="wp-caption-text">A frustração com o casamento transborda por meio do sentimento melancólico de Justine (Foto: Zentropa Entertainments)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa postura repugnante do diretor se reflete em seus filmes. </span><i><span style="font-weight: 400;">Melancolia</span></i><span style="font-weight: 400;">, no caso, que é dividido em capítulos, se inicia com um prólogo em </span><a href="https://www.8milimetros.com.br/super-slow-motion/"><i><span style="font-weight: 400;">super slow motion</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. A cena já apresenta a amplitude da devastação que será abordada no decorrer da obra. Com </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=m9PiX0pMQMg"><i><span style="font-weight: 400;">Tristão e Isolda</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> da ópera de Richard Wagner como trilha sonora, o longa trabalha a introdução de seu filme de forma dramática com Justine (Kirsten Dunst) vestida de noiva e presa a raízes e Claire (Charlotte Gainsbourg) desesperada com a colisão do planeta Melancolia com a Terra. O drama prepara o telespectador para as questões emocionais a respeito do medo da morte e a prisão ao casamento, que são abordadas por partes na película.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após o prólogo introdutório, começa a parte um do filme, nomeada como Justine. O primeiro ato de </span><i><span style="font-weight: 400;">Melancolia</span></i><span style="font-weight: 400;"> trata de uma mulher depressiva em seu casamento organizado pela sua irmã, Claire, que tenta contagiar a festa com sua felicidade. Durante o evento, a noiva não consegue se conter diante de sua frustração emocional, o que a distancia do convívio social. A cena demonstra o tratamento que pessoas no mesmo estado de Justine recebem da sociedade por meio do olhar de desprezo dos convidados. Outro </span><a href="https://www.planocritico.com/entenda-melhor-cores-e-filmes-simbologia-e-expressividade/"><span style="font-weight: 400;">simbolismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> apresentado na história de Justine são as amarras do casamento, representadas pelas raízes na introdução do longa. Toda essa situação, que torna a vida da personagem melancólica, se desenvolve bem lentamente, quase como se  a obra quisesse contaminar o telespectador com o estado emocional da protagonista, mas esse ritmo se altera conforme o foco da trama passa a ser Claire.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O segundo ato, chamado de Claire, dá um novo rumo para a história. Focado na outra irmã, a história ganha um rumo interessante ao mostrar como esta lida com a ameaça do planeta Melancolia colidir com a Terra. O estado emocional de Claire passa da alegria para uma ansiedade melancólica, enquanto que Justine, já conformada com o fim súbito, se mantém serena frente a situação. Esse jogo psicológico do roteiro, em que as protagonistas </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1NokYc8nn-k"><span style="font-weight: 400;">mudam de papéis</span></a><span style="font-weight: 400;">, projeta como as emoções são voláteis diante dos obstáculos enfrentados.</span></p>
<figure id="attachment_24128" aria-describedby="caption-attachment-24128" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-24128" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-3-10.jpg" alt="Cena do filme Melancolia exibe uma mulher branca de cabelos castanhos, que veste uma camiseta cinza, e um homem branco de cabelos castanhos, que veste um paletó, observando o céu com um olhar de preocupação. Ao lado direito da cena há um telescópio branco e ao fundo se exibe um jardim." width="1000" height="562" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-3-10.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-3-10-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-3-10-768x432.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24128" class="wp-caption-text">Mesmo com medições constantes, John afirma que os planetas não irão colidir (Foto: Zentropa Entertainments)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro personagem na trama é John (Kiefer Sutherland), marido de Claire. O cientista, frio e apático, apresenta-se sempre cético frente à órbita do planeta Melancolia cruzar com a da Terra. Esse movimento interplanetário, chamado de dança da morte, parece inconcebível para o homem convicto de seus cálculos. Por meio de suas certezas, ele tenta consolar a esposa, o que funciona até certo ponto, porém sua postura frívola acaba sendo ainda mais desestabilizante. Através do ceticismo de John, o filme se assemelha com outros do diretor, ao trabalhar a rigidez humana que se nega a enxergar o óbvio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes de contemplar a extinção humana com uma colisão espacial, a cinematografia do dinamarquês já havia trabalhado a questão da escatologia em</span> <a href="https://www.planocritico.com/critica-o-anticristo/"><i><span style="font-weight: 400;">Anticristo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o primeiro longa da Trilogia da Depressão, sucedido por </span><i><span style="font-weight: 400;">Melancolia</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2014/02/03/opinion/1391428140_828590.html"><i><span style="font-weight: 400;">Ninfomaníaca</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Os três filmes não apresentam uma narrativa contínua, mas seu conteúdo apresenta certas similaridades, como a relação dos personagens com a violência, o niilismo e a animalização humana. Com o ideal pessimista da trilogia, </span><i><span style="font-weight: 400;">Melancolia</span></i><span style="font-weight: 400;"> surge de </span><i><span style="font-weight: 400;">Anticristo</span></i><span style="font-weight: 400;"> como marco da saída do diretor da depressão. Desse modo, a segunda película apresenta todo o ideal deprimente do cineasta, mas sem ser perturbador assim como os demais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, na ausência do sentimento de agonia e desconforto tão comuns nos filmes, </span><i><span style="font-weight: 400;">Melancolia</span></i><span style="font-weight: 400;"> se arrisca pela antítese emocional das personagens para narrar sua história. A trilha sonora repleta de músicas clássicas, a fotografia de Manuel Alberto Claro e os efeitos visuais de Peter Hjorth contribuíram para elevar o sentimento dualístico abordado na obra. Mas apesar de todos esses êxitos na elaboração da peça audiovisual, a produção não atinge um nível profundamente psicológico esperado. O aspecto da exploração da mente humana já havia sido melhor trabalhado anteriormente em </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/idogvillei"><i><span style="font-weight: 400;">Dogville</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/dancando-no-escuro-20-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">Dançando no Escuro</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, mas o segundo filme da Trilogia da Depressão não vai além do jogo entre razão e emoção.</span></p>
<figure id="attachment_24129" aria-describedby="caption-attachment-24129" style="width: 710px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24129" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-4-6.jpg" alt="Tela do pintor John Everett Millais apresenta uma mulher branca, usando um vestido longo. O fundo e as laterais da imagem são repletas de vegetação e, ao centro, há um lago em que a jovem está afundando." width="710" height="399" /><figcaption id="caption-attachment-24129" class="wp-caption-text">A tela Ophelia, de John Everett Millais, foi a inspiração para o pôster de divulgação de Melancolia (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas apesar de não apresentar grande profundidade de simbolismos psicológicos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Melancolia</span></i><span style="font-weight: 400;"> constrói uma narrativa coesa repleta de similaridades com outras obras. A começar pelo prólogo dramático em </span><i><span style="font-weight: 400;">super slow motion</span></i><span style="font-weight: 400;"> com uma colisão de planetas guiado pelas notas vibrantes de </span><i><span style="font-weight: 400;">Tristão e Isolda</span></i><span style="font-weight: 400;">, que apresentam grande similaridade com as características de filmagem utilizadas por Stanley Kubrick em </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/2001-uma-odisseia-no-espaco-45-anos"><i><span style="font-weight: 400;">2001: Uma Odisseia no Espaço</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Outro ponto é a similaridade na construção da personalidade Justine com Ofélia de </span><a href="https://resenhandosonhos.com/hamlet-william-shakespeare/"><i><span style="font-weight: 400;">Hamlet</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Ambas as personagens flertam com o niilismo e com a atração pela morte, sendo esse o motivo da calmaria da protagonista de </span><i><span style="font-weight: 400;">Melancolia</span></i><span style="font-weight: 400;"> com a aproximação do planeta desconhecido. Esse alinhamento cósmico, chamado de dança da morte, se aproxima também do conceito apresentado em </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-o-setimo-selo/"><i><span style="font-weight: 400;">O Sétimo Selo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Na película de Ingmar Bergman, em que a morte joga xadrez com um soldado das cruzadas que busca viver, o fim inevitável do ser humano recebe o mesmo nome que o cruzamento das órbitas da obra do dinamarquês. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa aproximação com a Arte é muito presente nas produções de Von Trier, que sempre conciliou o lado artístico com a morbidez de seus </span><a href="http://jornalismojunior.com.br/o-estranho-mundo-de-lars-von-trier/"><span style="font-weight: 400;">filmes</span></a><span style="font-weight: 400;">, repletos de violência extrema, sexo explicito e mutilação. Mas, apesar dos êxitos, é importante não separar o artista da obra, como no caso no caso do diretor, que sempre refletiu seu lado sórdido em seus trabalhos. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Melancolia</span></i><span style="font-weight: 400;">, mais especificamente, não há cenas chocantes como essas. O rito de passagem que ele criou como saída da depressão fez com que um longa tão pessimista fosse, ao mesmo tempo, um de seus trabalhos mais artísticos, com a fotografia de Manuel Alberto Claro impecável e uma trilha sonora comovente. A tragédia já anunciada no prólogo permite ao menos a contemplação da imensidão azul do planeta Melancolia.</span></p>
<figure id="attachment_24130" aria-describedby="caption-attachment-24130" style="width: 638px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24130" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-5-5.jpg" alt="Cena do filme Melancolia em que há duas mulheres e uma criança distantes, sentados dentro de uma cabana de gravetos montada em um gramado. Ao fundo da imagem há um planeta azul em rota de colisão com a Terra." width="638" height="359" /><figcaption id="caption-attachment-24130" class="wp-caption-text">A dança da morte leva Melancolia ao seu fatídico fim (Foto: Zentropa Entertainments)</figcaption></figure>
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