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	<title>Arquivos Brandon Perea &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Não! Não Olhe! e o terror do desconhecido (que achamos que conhecemos)</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Jan 2023 20:02:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Guilherme Veiga Nos mais de 120 anos do Cinema, é natural que, uma hora ou outra, ideias se esgotem, seja pela saturação ou pelas fórmulas estabelecidas. É a partir daí que os gêneros nascem, com o intuito de guardar em caixas histórias que têm algo em comum. Filmes de ação, geralmente, são construídos sob a &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/nao-nao-olhe-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Não! Não Olhe! e o terror do desconhecido (que achamos que conhecemos)"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29604" aria-describedby="caption-attachment-29604" style="width: 1913px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-29604 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-1.jpg" alt="Cena de Não! Não Olhe! Nela, vemos o personagem interpretado por Steven Yeun. Ele é um homem asiático de cabelos pretos. Ele veste um terno vermelho com detalhes bordados, uma camisa branca e uma gravata minimalista preta. Em sua bochecha,no lado esquerdo há um microfone. Ele olha para cima. Ao fundo, um chão de terra, típico de deserto americano. No lado esquerdo da imagem, é possível ver a extremidade de um tanque de acrílico." width="1913" height="867" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-1.jpg 1913w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-1-800x363.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-1-1024x464.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-1-768x348.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-1-1536x696.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-1-1200x544.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29604" class="wp-caption-text">Jordan Peele começou sua carreira com esquetes de Comédia e, sempre que possível, traz esses elementos para suas obras (Foto: Universal Studios)</figcaption></figure>
<p><b>Guilherme Veiga</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos mais de </span><a href="http://m.estadao.com.br/tudo-sobre/120-anos-do-cinema"><span style="font-weight: 400;">120 anos do Cinema</span></a><span style="font-weight: 400;">, é natural que, uma hora ou outra, ideias se esgotem, seja pela saturação ou pelas fórmulas estabelecidas. É a partir daí que os gêneros nascem, com o intuito de guardar em caixas histórias que têm algo em comum. Filmes de ação, geralmente, são construídos sob a sombra dos brucutus com armas nas mãos, contra tudo e contra todos; romances, em sua maioria, são melodramáticos; biografias, quase sempre, endeusam os biografados; aventuras abusam da jornada do herói, e por aí vai. Em uma Arte tão vasta, o difícil é sair da homogeneidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez o gênero que encontre mais dificuldade para escapar do ‘mais do mesmo’ seja o de </span><i><span style="font-weight: 400;">sci-fi</span></i><span style="font-weight: 400;"> com extraterrestres. Muito porque, antes mesmo dele chegar de vez no Cinema, o tema já estava amplamente estabelecido na cultura popular, principalmente a norte-americana. Quando chegou às telas, o subgênero já vinha como um ponto fora da curva, a exemplo de </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/icontatos-imediatos-do-terceiro-graui"><i><span style="font-weight: 400;">Contatos Imediatos do Terceiro Grau</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1977), </span><a href="https://cinemaemcena.com.br/critica/filme/6896/marte-ataca"><i><span style="font-weight: 400;">Marte Ataca!</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1996)</span><i><span style="font-weight: 400;">, Alien: O Oitavo Passageiro </span></i><span style="font-weight: 400;">(1979), </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-et/"><i><span style="font-weight: 400;">E.T. O Extraterrestre</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1982), </span><i><span style="font-weight: 400;">Sinais </span></i><span style="font-weight: 400;">(2002) ou, até mesmo, o recente </span><i><span style="font-weight: 400;">Distrito 9 </span></i><span style="font-weight: 400;">(2009). Essa seara que, graças a originalidade, criou seu próprio conceito, merecia ser retrabalhada por uma das mentes mais originais da atualidade, e é isso que Jordan Peele busca com </span><i><span style="font-weight: 400;">Nope</span></i><span style="font-weight: 400;">, ou, aqui no Brasil, </span><i><span style="font-weight: 400;">Não! Não Olhe!.</span></i></p>
<p><span id="more-29603"></span></p>
<figure id="attachment_29605" aria-describedby="caption-attachment-29605" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-29605 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-2.jpg" alt="Cena de Não! Não Olhe! Nela temos o personagem principal OJ, interpretado pelo ator Daniel Kaluuya. Ele é um homem negro, veste uma camisa cinza e um boné na cor verde com um detalhe bordado na frente. Ele segura uma luva nas cores preto e amarelo com a boca. Ao fundo, um pouco de vegetação rasteira e uma cadeia de montanhas" width="1920" height="872" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-2.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-2-800x363.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-2-1024x465.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-2-768x349.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-2-1536x698.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-2-1200x545.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29605" class="wp-caption-text">Em sua segunda colaboração, Daniel Kaluuya já virou um queridinho do diretor (Foto: Universal Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A história gira em torno de um rancho que cria cavalos para serem usados na indústria do entretenimento, seja em filmes, clipes ou peças publicitárias. Após a morte do patriarca da família, depois de ser atingido por uma moeda que, misteriosamente, é arremessada do céu, seus filhos descobrem que aquele entorno do deserto rural californiano é habitado por um </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-62246921"><span style="font-weight: 400;">OVNI</span></a><span style="font-weight: 400;">. Trata-se de uma premissa bem </span><i><span style="font-weight: 400;">blockbuster </span></i><span style="font-weight: 400;">spielbergiana, quase que um encontro entre Peele e Steven Spielberg, e de fato esse talvez seja o filme mais comercialmente aclamado da curta filmografia do diretor. Porém, com o cineasta sendo um dos mais famosos expoentes do simbolismo e da crítica social, </span><i><span style="font-weight: 400;">Nope </span></i><span style="font-weight: 400;">é muito mais do que isso.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Carregado de símbolos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Não! Não Olhe! </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma crítica à indústria, estando ele inserido nela. O diretor e roteirista abusa da </span><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/midia-e-poder-na-sociedade-do-espetaculo/"><span style="font-weight: 400;">sociedade do espetáculo</span></a><span style="font-weight: 400;"> para além daquela base teórica, pois aqui, de certa forma, quebra a quarta parede para analisá-la dos dois lados, e mesmo indo para o lado dos </span><i><span style="font-weight: 400;">blockbusters</span></i><span style="font-weight: 400;">, também rompe com eles. Esse tipo de narrativa (mal) acostumou o espectador a ter todas as respostas, mas o filme não está nem um pouco preocupado em ser explicativo. Isso faz com que a obra seja a mais divisiva de Peele, visto que funciona de forma muito coesa como conjunto de simbolismos, mas não consegue os amarrar à trama, algo que </span><a href="https://personaunesp.com.br/corra-filme-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Corra!</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2017) conseguiu. Dessa forma, a experiência, para ser melhor aproveitada, precisa sair das telas, numa espécie de paranoia conspiratória típica da temática.</span></p>
<figure id="attachment_29609" aria-describedby="caption-attachment-29609" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-29609 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-3.jpg" alt="Cena do filme Não! Não Olhe! Nela vemos duas mãos. A do lado direito da imagem, é a de um chimpanzé e está toda ensanguentada. Do lado esquerdo, uma mão infantil. As duas estão fechadas, no intuito de se comprimentarem. Elas estão embaixo de uma mesa e a mão do macaco está passando por uma toalha de mesa na cor amarela" width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-3.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-3-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-3-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29609" class="wp-caption-text">Para tecer suas críticas, Nope usa de exemplos reais da cultura americana (Foto: Universal Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É em </span><i><span style="font-weight: 400;">Nope</span></i><span style="font-weight: 400;"> que, nesse extenso amálgama de conceitos, Jordan Peele mais brinca e está livre, ao destrinchar essas interpretações em várias vertentes. Isso é um prato cheio para o mercado de </span><a href="https://www.youtube.com/results?search_query=nope+final+explicado"><span style="font-weight: 400;">finais explicados</span></a><span style="font-weight: 400;"> do </span><i><span style="font-weight: 400;">YouTube</span></i><span style="font-weight: 400;"> e faz com que o debate seja tão vasto como o universo inexplorado. Por essa razão, cada um que assiste o longa pode tirar suas próprias conclusões, em um cenário de diálogo cada vez mais escasso em uma Hollywood enlatada, fazendo com que tal conjuntura seja extremamente benéfica para o próprio Cinema.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, as várias interpretações apontam para um mesmo céu: o entretenimento é a nova forma de opressão de minorias, o que faz com que essa violência vire um produto da sociedade capitalista, mas Peele não deixa de inserir a crítica racial na trama. Assim como </span><a href="https://personaunesp.com.br/us-jordan-peele-critica-2019/"><i><span style="font-weight: 400;">Us</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(</span><i><span style="font-weight: 400;">Nós, </span></i><span style="font-weight: 400;">2019), a obra também se inicia com uma passagem bíblica; dessa vez, Naum 3:6: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu jogarei imundice sobre você, a tratarei com desprezo e te tornarei um espetáculo</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Impossível não notar que a frase é essencialmente um resumo de Hollywood e da indústria do entretenimento &#8211; basta lembrar a relação de </span><span style="text-decoration: underline;"><a href="https://f5.folha.uol.com.br/celebridades/2017/02/dez-anos-do-colapso-de-britney-spears-relembre-os-momentos-mais-polemicos.shtml"><span style="font-weight: 400;">Britney Spears</span></a></span><span style="font-weight: 400;"> com os </span><i><span style="font-weight: 400;">paparazzis</span></i><span style="font-weight: 400;">, ou como os magnatas do Cinema trataram </span><a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2021-06-27/a-ascensao-queda-e-ressurreicao-de-brendan-fraser-o-heroi-de-hollywood-dos-anos-90.html"><span style="font-weight: 400;">Brendan Fraser</span></a><span style="font-weight: 400;"> -, além de ser, basicamente, todo o </span><i><span style="font-weight: 400;">plot </span></i><span style="font-weight: 400;">da obra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na cena do massacre do </span><a href="https://pipocasclub.com.br/2022/08/24/nao-nao-olhe-o-ataque-de-gordy-e-baseado-em-uma-historia-real/"><span style="font-weight: 400;">chimpanzé Gordy</span></a><span style="font-weight: 400;">, toda a situação é esquecida pelo jovem ator do seriado noventista a partir do momento em que, sobrenaturalmente, o sapato para em pé, evidenciando como ficamos cegos para a barbárie que é a sociedade quando estamos comandados pelo instinto da curiosidade. Negamos o quão brutal foi uma tragédia a partir do momento que procuramos imagens dela. As próprias aparências do ‘OVNI’ retornam a essas formas de repressão. Primeiramente, ele lembra um chapéu de </span><i><span style="font-weight: 400;">cowboy</span></i><span style="font-weight: 400;">, que oprimiu o povo nativo daquela região e, em seguida, seu aparelho digestivo remete justamente a uma câmera de cinema.</span></p>
<figure id="attachment_29606" aria-describedby="caption-attachment-29606" style="width: 1801px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29606 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-4.jpg" alt="Cena do filme Não! Não Olhe! Nela, vemos a personagem Emerald, interpretada por Keke Palmer. Ela é uma mulher negra, de cabelos médios cacheados. Ela veste uma camiseta verde e está em cima de uma moto. Em seu pescoço, uma faixa amarela com os dizeres “CRIME SCENE DO NOT CROSS”. A moto está deslizando de lado e faz uma poeira no chão de terra. Ao fundo, cenário de velho oeste, de um parque infantil " width="1801" height="839" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-4.jpg 1801w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-4-800x373.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-4-1024x477.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-4-768x358.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-4-1536x716.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-4-1200x559.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29606" class="wp-caption-text">Amante do Cinema e da cultura nerd, Jordan Peele abusa de referências que vão desde Escorpião Rei até Akira (Foto: Universal Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas não pense que Jordan Peele é hipócrita em sua crítica. Pelo contrário: ele usa a obra como um todo para fazer um </span><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/midia-e-poder-na-sociedade-do-espetaculo/"><i><span style="font-weight: 400;">mea culpa</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> do filme. </span><i><span style="font-weight: 400;">Nope</span></i><span style="font-weight: 400;"> é dividido em cinco capítulos: </span><i><span style="font-weight: 400;">Ghost</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span><i><span style="font-weight: 400;"> Clover</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span><i><span style="font-weight: 400;"> Gordy</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Lucky</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Jean Jacket</span></i><span style="font-weight: 400;">. Três deles são os nomes dos cavalos oferecidos à ameaça, seguido pelo nome do chimpanzé morto após o surto; o último é o apelido que os personagens dão ao monstro, ou seja, cinco produtos que foram comidos e cuspidos por algum predador, seja ele literal ou metafórico. A questão é que todas essas cinco divisões são feitas nos mesmos moldes que o letreiro inicial do longa, colocando ele mesmo como esse primeiro produto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Porém, a obra é muito mais que suas discussões, considerando que ela não viria tão forte se não fosse bem estruturada. O grande chamariz é o roteiro de Jordan Peele. Além de ambientar o subtexto de forma muito coesa, ele é certeiro ao </span><a href="https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2022/08/21/nao-nao-olhe-novo-filme-de-jordan-peele-subverte-classicos-do-cinema-americano-e-traz-elementos-da-historia-negra.ghtml"><span style="font-weight: 400;">subverter</span></a><span style="font-weight: 400;"> o gênero. O </span><i><span style="font-weight: 400;">plot twist</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; que gira em torno da nave espacial não ter nenhum </span><i><span style="font-weight: 400;">alien,</span></i><span style="font-weight: 400;"> mas, ela sim, ser o próprio </span><i><span style="font-weight: 400;">alien &#8211;</span></i><span style="font-weight: 400;">, além de ser inteligente por quebrar a expectativa apontando para um ponto micro e desconhecido quando, na verdade, ela já está no macro e não a percebemos (pois fomos condicionados a pensar do jeito que o filme quer que pensemos), coloca a obra em um pedestal único quando se fala nessa seara de histórias. O mais surpreendente é que todos esses pontos são tocados através de um roteiro simples, mas extremamente bem pensado.</span></p>
<figure id="attachment_29608" aria-describedby="caption-attachment-29608" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29608 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-5-scaled.jpg" alt="Cena do filme Não! Não Olhe! Nela, temos o personagem interpretado por Michael Wincott. Ele é um homem branco, de meia idade, com barba e cabelos grisalhos. Em sua frente, há uma câmera analógica na cor preta. Ele segura um walkie-talkie na altura da boca. Ele está sobre uma tenda no deserto americano." width="2560" height="1143" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-5-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-5-800x357.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-5-1024x457.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-5-768x343.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-5-1536x686.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-5-2048x914.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-5-1200x536.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29608" class="wp-caption-text">Com muita metalinguagem, Nope também é um filme sobre fazer filmes (Foto: Universal Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Tal escrita só poderia ser regida da forma certa com uma boa direção. Aqui, a decisão de Peele de só ter em sua filmografia filmes nos quais ele também escreve se prova, apesar de conservadora, extremamente acertada. Ele sabe conduzir cenas de suspense como ninguém e, na ambientação, até o marasmo do céu se torna assustador nas mãos dele, cujos aspectos técnicos convergem na criação de mundo. O </span><i><span style="font-weight: 400;">design</span></i><span style="font-weight: 400;"> de som de </span><a href="https://open.spotify.com/artist/6LtPIflWxgyOxlKciQDgB4"><span style="font-weight: 400;">Johnnie Burn</span></a><span style="font-weight: 400;"> é impecável e consegue amplificar a ameaça do monstro sem abusar de rugidos, somente com o silêncio e o som do vento. Já a fotografia de </span><span style="text-decoration: underline;"><a href="https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2022/08/21/nao-nao-olhe-novo-filme-de-jordan-peele-subverte-classicos-do-cinema-americano-e-traz-elementos-da-historia-negra.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Hoyte van Hoytema</span></a></span><span style="font-weight: 400;">, aliada com o </span><i><span style="font-weight: 400;">design</span></i><span style="font-weight: 400;"> de produção de Ruth De Jong e o figurino de Alex Bovaird, criam uma atmosfera única e colorida, que às vezes parece até fantástica para o monocromático deserto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O elenco também faz jus ao texto. Ele foi tão bem desenvolvido que apenas cinco personagens conseguem carregar as duas horas do longa sem cansar. Daniel Kaluuya e Steven Yeun repetem a parceria com Peele, o primeiro pelo excelente </span><i><span style="font-weight: 400;">Corra! </span></i><span style="font-weight: 400;">(2017) </span><span style="font-weight: 400;">e o segundo pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">remake </span></i><span style="font-weight: 400;">de </span><a href="https://cinepop.com.br/alem-da-imaginacao-do-pior-ao-melhor-ranqueamos-a-1a-temporada-da-serie-264700/"><i><span style="font-weight: 400;">Além da Imaginação</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2019). Kaluuya mais uma vez entrega uma atuação primorosa, que vai crescendo com o passar do filme, e Yeun entende que seu papel é bagunçar a trama e faz isso de forma muito consciente. Mas quem rouba a cena é Keke Palmer (</span><i><span style="font-weight: 400;">Lightyear</span></i><span style="font-weight: 400;">) com a expansiva e comunicativa Emerald, que chama todos os holofotes para si e dá conta do recado. São adicionados a eles, também, Brandon Perea (</span><a href="https://ligadoemserie.com.br/2016/12/critica-por-que-the-oa-foi-uma-das-melhores-series-do-ano/"><i><span style="font-weight: 400;">The OA</span></i></a><span style="font-weight: 400;">), que funciona como um alívio cômico muito pontual, e Michael Wincott (</span><a href="https://spdm.org.br/noticias/dica-cultural/o-escafandro-e-a-borboleta-a-historia-real-da-sindrome-do-encarceramento/"><i><span style="font-weight: 400;">O Escafandro e a Borboleta</span></i></a><span style="font-weight: 400;">), com sua presença em cena inconfundível.</span></p>
<figure id="attachment_29607" aria-describedby="caption-attachment-29607" style="width: 1400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29607 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-6.jpg" alt="Cena do filme Não! Não Olhe! Nela, temos o alienígena Jean Jacket em destaque. Ele tem o formato clássico de uma nave espacial, que se trata de uma espécie de círculo gigante e cinza com um círculo menor na parte de baixo, o que seria sua boca. Ele está perseguindo OJ, que está sobre um cavalo com um moletom laranja. OJ está pequeno devido ao tamanho do alien. No deserto, há cercas pretas dos lados direito e esquerdo. Também há vários bonecos de posto parcialmente inflados, nas cores vermelho, rosa, verde, amarelo e azul." width="1400" height="689" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-6.jpg 1400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-6-800x394.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-6-1024x504.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-6-768x378.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Nope-Imagem-6-1200x591.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29607" class="wp-caption-text">Chegando nas premiações mais enfraquecido que os últimos projetos do diretor, o filme vem correndo por fora com indicações ao People’s Choice Awards, Los Angeles Film Critics e New York Film Critics; esse último, com vitória de Keke Palmer como Melhor Atriz Coadjuvante (Foto: Universal Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Extremamente bem pensado, inteligente, audacioso e subversivo, </span><span style="text-decoration: underline;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=In8fuzj3gck&amp;ab_channel=UniversalPictures"><i><span style="font-weight: 400;">Não! Não Olhe!</span></i></a></span> <span style="font-weight: 400;">é a empreitada mais original do Terror, no ano em que o gênero se provou com muita originalidade. A obra sabe trabalhar com o desconhecido no momento em que ela evidencia que tal desconhecido vai muito além do que conhecemos. Jordan Peele entende o papel do Cinema ao fazer com que a experiência cinematográfica ultrapasse as telas, sem a presunção e pedância de um ‘filme para refletir’, pois coloca o espectador para pensar &#8211; e essa talvez seja a parte mais empolgante da jornada &#8211; sem abrir mão da diversão que é assistir ao longa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez </span><i><span style="font-weight: 400;">Nope </span></i><span style="font-weight: 400;">não seja tão grandioso quanto os projetos anteriores de seu idealizador e isso também vale discussões, mas não por seus deméritos, e sim pelo diretor ser um viciado em acertar. Num futuro, ele pode cair na própria crítica e ser consumido e cuspido pela indústria, mas esquecido? Jamais. Pois essa pequena e significativa constelação da qual Peele construiu sua história nas telas sempre irá brilhar no Cinema.</span></p>
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