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	<title>Arquivos Audálio Dantas &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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	<title>Arquivos Audálio Dantas &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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		<title>Carolina Maria de Jesus e o Quarto de despejo persistem</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Mar 2022 18:53:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Lopes Gomez Das confissões mais íntimas de Carolina Maria de Jesus, surge Quarto de despejo. Mesmo com mais de 1 milhão de cópias vendidas &#8211; 10 mil só na primeira semana -, tendo ganhado traduções para 13 idiomas e sendo comercializado em mais de 40 países, o nome da autora não significava tanto, à &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/quarto-de-despejo-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Carolina Maria de Jesus e o Quarto de despejo persistem"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26714" aria-describedby="caption-attachment-26714" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-26714" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/QUARTODEDESPEJOWORDPRESS_VITORIA-800x420.jpg" alt="Montagem com a capa do livro Quarto de despejo: Diário de uma favelada. Ao centro, em frente a um fundo amarelo, vemos a capa azul clara. No topo, vemos grafismos em branco, que aparentam imitar a silhueta das casas de uma favela. Ao centro, vemos a palavra “QUARTO” e, abaixo, “de DESPEJO”, em branco, uma letra sem serifa, estilizada. Logo abaixo, vemos as palavras “Diário de uma favelada”, em branco. Abaixo, vemos as palavras “CAROLINA MARIA DE JESUS”, em caixa alta, em uma fonte serifada e branca. Na parte inferior central, vemos o logo da editora Ática e, logo abaixo, as palavras “editora ática”, em caixa baixa e em branco." width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/QUARTODEDESPEJOWORDPRESS_VITORIA-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/QUARTODEDESPEJOWORDPRESS_VITORIA-768x404.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/QUARTODEDESPEJOWORDPRESS_VITORIA.jpg 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26714" class="wp-caption-text">Quarto de despejo foi o livro debatido em Fevereiro pelo Clube do Livro do Persona; hoje, 14 de março, sua autora completaria 108 anos (Foto: Editoria Ática)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Lopes Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Das confissões mais íntimas de Carolina Maria de Jesus, surge </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mesmo com mais de 1 milhão de cópias vendidas &#8211; 10 mil só na primeira semana -, tendo ganhado traduções para 13 idiomas e sendo comercializado em mais de 40 países, o nome da autora não significava tanto, à época, quanto agora &#8211; que ainda é pouquíssimo, se comparado aos devidos créditos merecidos. Mulher negra, mãe solo, moradora da favela, antes de ter seus diários publicados, a luta do dia a dia de Carolina era por comida. </span><a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2021-10-08/carolina-maria-de-jesus-a-escritora-da-favela-que-virou-fenomeno-editorial.html"><span style="font-weight: 400;">Seus escritos</span></a><span style="font-weight: 400;"> sempre foram importantes para ela, mas nunca mais do que os filhos e o árduo trabalho diário, o único meio de alimentá-los.</span></p>
<p><span id="more-26694"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, na favela do Canindé, a poeta &#8211; como ela mesmo se intitulava &#8211; foi encontrada. A descoberta aconteceu corriqueiramente, quando o jornalista Audálio Dantas caçava uma reportagem no local, no final da década de 50. Ele buscava retratar o cotidiano e as pessoas que ocupavam aquele espaço, mas os relatos de Carolina, escritos em mais de 35 diários encontrados onde ela vivia, contavam a história do lugar e de seus habitantes melhor do que qualquer matéria jornalística faria. E assim foi: compilando e editando os cadernos da autora, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=g4iqwB1QUn8"><span style="font-weight: 400;">Dantas</span></a><span style="font-weight: 400;"> primeiro publicou trechos nos jornais </span><i><span style="font-weight: 400;">Folha de São Paulo</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">O Cruzeiro</span></i><span style="font-weight: 400;">; depois, a coletânea final foi lançada em 1960 como o livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_26695" aria-describedby="caption-attachment-26695" style="width: 680px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-26695" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/foto-audalio-dantas.jpg" alt="" width="680" height="470" /><figcaption id="caption-attachment-26695" class="wp-caption-text">Em 2022, o Instituto Moreira Salles organizou a exposição “Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os brasileiros”, dedicada à trajetória e produção literária da autora (Foto: Editora Malê)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na obra, Carolina Maria de Jesus retrata as vivências na favela, que, antes de ser </span><a href="https://treinamento24.com/library/lecture/read/373070-como-era-a-favela-do-caninde-em-1960"><span style="font-weight: 400;">desocupada</span></a><span style="font-weight: 400;">, ficava às margens do Rio Tietê, em São Paulo. Documentando o dia a dia, ela discorre sobre a fome, sobre as condições de moradia, saneamento básico e saúde, sobre as relações e dinâmicas interpessoais, preconceitos e violências, e sobre o estado de invisibilidade social a qual os favelados eram submetidos. Inclusive, apesar da autora deixar claro sua aversão pela vida que era obrigada a levar, ela emprega “favelados” não como uma injúria, mas descrevia os moradores da comunidade se reconhecendo entre eles.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como Audálio Dantas constatou, o livro é um documento digno de uma análise sociológica, mas mesmo um profissional da área não conseguiria entender a totalidade das palavras escritas por Carolina. “</span><i><span style="font-weight: 400;">É um documento que um sociólogo poderia fazer estudos profundos, interpretar, mas não teria condição de ir ao cerne do problema e ela teve, porque vivia a questão</span></i><span style="font-weight: 400;">”, </span><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-03/brasil-lembra-centenario-de-escritora-que-definiu-favela-como-quarto-de"><span style="font-weight: 400;">afirmou</span></a><span style="font-weight: 400;"> o jornalista na época. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante as 200 páginas do trabalho, a autora conta situações, misturando-as com sentimentos e percepções. Em um trecho, por exemplo, ela descreve a fome em cores. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Mesmo que as </span><span style="font-weight: 400;">condições de precariedade</span><span style="font-weight: 400;"> fossem conhecidas, Carolina, que </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/14/cultura/1521065374_369396.html"><span style="font-weight: 400;">as viveu</span></a><span style="font-weight: 400;">, as colocou no papel melhor do que qualquer escritor de ficção ou repórter conseguiria, simplesmente por entendê-las. “</span><i><span style="font-weight: 400;">A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago</span></i><span style="font-weight: 400;">”, ela escreve em outro momento.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visitas com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quanto estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo</span><span style="font-weight: 400;">”.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Por mais triste que seja, é a pessoalidade da poeta que torna </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo </span></i><span style="font-weight: 400;">potente, impactante e triste como é. Características essas que se estendem à Literatura de Carolina. Antes de rumar a São Paulo, em 1937, e à favela do Canindé, em 1947, </span><a href="https://ponte.org/carolina-maria-de-jesus-a-escritora-que-ainda-precisa-ser-conhecida-e-reconhecida/"><span style="font-weight: 400;">Maria de Jesus</span></a><span style="font-weight: 400;"> nasceu no interior de Minas Gerais, vinda de família simples, sofreu maus tratos na infância e frequentou a escola por menos de dois anos. O pouco tempo de estudo, porém, foi o suficiente para que ela desenvolvesse gosto pela leitura e pela escrita. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo que não haja provas concretas, é provável que a autora tenha sido autodidata. Semianalfabeta, os livros tiveram influência em sua vida, como ela mesmo destaca em trechos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i><span style="font-weight: 400;">: em mais de um momento, ela declara o desejo de comprá-los e lamenta que gaste o pouco dinheiro que ganha somente com alimentos. O papel importante da Literatura também é percebido na forma como ela escreve: misturado à redação com erros gramaticais e expressões próprias, </span><a href="https://ims.com.br/exposicao/carolina-maria-de-jesus-ims-paulista/"><span style="font-weight: 400;">Carolina</span></a><span style="font-weight: 400;"> emprega um vocabulário rebuscado, provavelmente espelhado de obras que consumia.</span></p>
<figure id="attachment_26696" aria-describedby="caption-attachment-26696" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-26696" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-800x518.jpeg" alt="Recorte de jornal antigo. O recorte de jornal, duas páginas abertas, mostra, do lado esquerdo, uma foto em preto e branco de Carolina Maria de Jesus escrevendo em um caderno. Ao lado dela, vemos o título “A fome fabrica uma escritora” e um bloco de texto. Na página da direita, vemos duas fotos em preto e branco, uma seguida da outra ao longo da página. A primeira mostra crianças brincando e um menino pulando de braços abertos. A segunda mostra crianças e mulheres adultas pegando alguma coisa do chão de grama, às margens de um rio." width="800" height="518" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-800x518.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-1024x663.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-768x497.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-1200x777.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina.jpeg 1280w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26696" class="wp-caption-text">“Será que Deus sabe que existe as favelas e que os favelados passam fome?” (Foto: O Cruzeiro)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo </span></i><span style="font-weight: 400;">narra o cotidiano completo da favela. Escritos ao mesmo tempo que a autora trabalhava como catadora de papel para sustentar a </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/04/netas-de-escritora-carolina-maria-de-jesus-dizem-viver-quarto-de-despejo-2.shtml"><span style="font-weight: 400;">família</span></a><span style="font-weight: 400;">, os diários ganhavam mais páginas completas quando sobrava tempo. Em trechos, ela descreve a penosa rotina: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Saí indisposta, com vontade de deitar. Mas, o pobre não repousa. Não tem o privilegio de gosar descanço</span></i><span style="font-weight: 400;">” e “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: Faz de conta que eu estou sonhando</span></i><span style="font-weight: 400;">” são alguns dos exemplos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E se a obra é sobre a favela, sob o olhar e as palavras de uma favelada, o vocabulário próprio de Carolina é fundamental para o entendimento do livro e da jornada de sua autora. Erros gramaticais, de concordância e pontuação, além do uso de expressões próprias, foram mantidas em todas as edições publicadas e destacam ainda mais para o dom de Maria de Jesus. As peculiaridades do texto de </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-fevereiro-de-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> o tornam cru: dos diários, íntimos e pessoais, ouvimos a versão dela sobre sua própria vida, impactante por si só.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Passei no Frigorífico, peguei uns ossos. As mulheres vasculham o lixo procurando carne para comer. E elas dizem que é para os cachorros.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até eu digo que é para os cachorros…</span><span style="font-weight: 400;">”.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da intimidade dos diários, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=qRjDmmWAFEo"><span style="font-weight: 400;">Carolina Maria de Jesus</span></a><span style="font-weight: 400;"> não escondia que tinha o sonho de publicá-los. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Tem hora que eu odeio o repórter Audalio Dantas. Se ele não prendesse o meu livro eu enviava os manuscritos para os Estados Unidos e já estava socegadaI</span></i><span style="font-weight: 400;">”, escreve. Inclusive, a poeta usava seu trabalho como sua arma, tanto para manter a esperança no presente, para o futuro, quanto para se portar frente aos outros moradores do Canindé. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu percebo que se este Diário for publicado vai maguar muita gente</span></i><span style="font-weight: 400;">”, ela declara, depois de citar nomes e descrever situações ao pé da letra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2021/09/01/obra-musical-de-carolina-maria-de-jesus-vem-a-tona-em-exposicao-sobre-a-escritora.ghtml"><span style="font-weight: 400;">voz da escritora</span></a><span style="font-weight: 400;">, porém, já chegou a ser desacreditada. Como disserta Maria Lúcia de Barros Mott, no artigo </span><i><span style="font-weight: 400;">Escritoras negras: resgatando a nossa história</span></i><span style="font-weight: 400;">, alguns críticos “</span><i><span style="font-weight: 400;">olhavam com reservas a obra de Carolina, negando inclusive a autoria de seus livros, atribuindo Quarto de despejo ao jornalista Audálio Dantas. E esta não é a primeira vez que o livro de uma escritora negra tem autoria atribuída ao apresentador da obra</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Os descréditos foram constantes, mas a obra, de início, foi sucesso de vendas Brasil à fora e chamou atenção do </span><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2021/08/4944037-casa-de-alvenaria-de-carolina-de-jesus-recupera-diario-da-escritora.html"><span style="font-weight: 400;">mercado literário</span></a><span style="font-weight: 400;"> nacional.</span></p>
<figure id="attachment_26697" aria-describedby="caption-attachment-26697" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26697" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-2.jpg" alt="" width="800" height="662" /><figcaption id="caption-attachment-26697" class="wp-caption-text">Carolina Maria de Jesus faleceu em Fevereiro de 1977, aos 62 anos, vítima de uma crise de insuficiência respiratória (Foto: Acervo UH/Folhapress)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O problema veio poucos anos depois. O </span><i><span style="font-weight: 400;">boom </span></i><span style="font-weight: 400;">arrecadou elogios e reconhecimentos para Carolina, suficientes, inclusive, para que ela realizasse o sonho de sair da favela do Canindé. Ela, os filhos José Carlos e João José e a filha Vera Eunice </span><a href="https://elle.com.br/cultura/carolina-de-jesus"><span style="font-weight: 400;">foram residir em Santana</span></a><span style="font-weight: 400;">, bairro de classe média em São Paulo. Porém, logo, Jesus, seus escritos e os assuntos sobre os quais escrevia foram esquecidos, condenados à indiferença, mais uma vez. Prova disso é o livro</span> <span style="font-weight: 400;">ser estudado e disseminado em países estrangeiros mais do que nacionalmente: </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo </span></i><span style="font-weight: 400;">virou </span><a href="https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/livro-de-carolina-maria-de-jesus-e-resgatado-em-vestibulares-da-ufrgs-e-unicamp-40-anos-apos-morte-de-escritora.ghtml"><span style="font-weight: 400;">leitura obrigatória em vestibulares</span></a><span style="font-weight: 400;">, pela primeira vez, só em 2017, 40 anos depois da morte da escritora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O desinteresse se estende à autora, mesmo depois de falecida. </span><a href="https://deliriumnerd.com/2019/09/04/diario-de-bitita-a-infancia-de-carolina-maria-de-jesus/"><i><span style="font-weight: 400;">Diário de Bitita</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, obra póstuma, foi publicado primeiro na França, em 1982, e somente quatro anos depois chegou ao Brasil. Esse </span><a href="https://personaunesp.com.br/as-mulheres-da-semana-de-22-artigo/"><span style="font-weight: 400;">apagamento</span></a><span style="font-weight: 400;">, porém, não foi &#8211; e não é &#8211; surpresa. Em meio ao governo de Juscelino Kubistchek, em que o avanço prometido não se estendia às populações marginalizadas, Carolina também denunciava os políticos e as instituições, assistencialistas e oportunistas, que pouco se mobilizavam para mudar as condições da favela e só visitam o local em época de eleições. “</span><i><span style="font-weight: 400;">O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora</span></i><span style="font-weight: 400;">”, ela defende.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Fico pensando: os norte-americanos são considerados os mais civilisados do mundo e ainda não me convenceram que preterir o preto é o mesmo que preterir o sol. O homem não pode lutar com os produtos da Natureza. Deus criou todas as raças na mesma epoca. Se criasse os negros depois os brancos, ai os brancos podia revoltar-se”.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Os diários de Maria Carolina de Jesus, além de oferecerem o cruel panorama da realidade da favela, também destacam a personalidade de sua autora. Em meio à luta diária por </span><a href="https://g1.globo.com/google/amp/sp/sao-paulo/noticia/2021/10/08/pessoas-buscam-ossos-de-carne-na-cacamba-de-descarte-do-mercadao-centro-de-sp.ghtml"><span style="font-weight: 400;">sobrevivência</span></a><span style="font-weight: 400;">, Carolina se mostrava extremamente perspicaz e contundente em suas percepções. As farpas aos políticos explicitavam isso, mas a poeta também criticava os próprios moradores locais, que, segundo ela, reforçavam a barbaridade, e os provocava para a necessidade de </span><a href="http://www.justificando.com/2018/02/21/livro-quarto-de-despejo-e-suas-questoes-juridicas/"><span style="font-weight: 400;">revolta</span></a><span style="font-weight: 400;">, ao invés de aceitarem as precariedades. Muito consciente e crítica da sociedade, ela também comentava sobre sua independência como mulher, em não ser casada por opção e conseguir criar e sustentar os filhos sozinha, e dissertava sobre questões de raça e classe.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma obra completa, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=t3dzlAr4euo"><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">mostra a realidade nua e crua, melhor do que qualquer reportagem faria. A narrativa forte, difícil e tocante é, também, surpreendente, principalmente pela naturalidade e verdade de sua autora. Merecidamente, Carolina Maria de Jesus foi reconhecida com o título de doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2021, uma homenagem póstuma. Antes disso, em vida, teve de se mudar de Santana para um sítio em Parelheiros, extrema zona sul de São Paulo, no que seus livros já não emplacavam mais. Hoje, 45 anos após a morte da escritora, o </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo </span></i><span style="font-weight: 400;">persiste: </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/cerca-de-8-da-populacao-brasileira-mora-em-favelas-diz-instituto-locomotiva/"><span style="font-weight: 400;">17,1 milhões</span></a><span style="font-weight: 400;"> de pessoas vivem em favelas, em todo o Brasil.</span></p>
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