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	<title>Arquivos Ascensão &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>O sonho da Ascensão é uma farsa</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Mar 2022 16:39:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enrico Souto “Trabalhe duro, e todos os seus sonhos se realizarão”. Esse é um tipo de fala muito familiar para nós, que vivemos imersos em um sociedade capitalista que preza por liberdade acima de tudo – inclusive, de nossa própria humanidade. E, afinal, se mesmo Bong Joon-Ho se surpreendeu em como pessoas do mundo inteiro &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/ascensao-documentario-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O sonho da Ascensão é uma farsa"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26943" aria-describedby="caption-attachment-26943" style="width: 3840px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-26943" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-1.webp" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Nela, vemos uma garota asiática, sentada de frente para o seu celular, que fica preso sobre um tripé com uma iluminação de luz branca em formato de anel. Ela fala algo enquanto olha para o aparelho e levanta com a mão esquerda um tênis branco na altura de seu rosto." width="3840" height="2160" /><figcaption id="caption-attachment-26943" class="wp-caption-text">Indicado a Melhor Documentário no Oscar 2022, Ascension está entre três dos cinco filmes selecionados para a categoria este ano que são dirigidos por mulheres (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure>
<p><b>Enrico Souto</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Trabalhe duro, e todos os seus sonhos se realizarão”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Esse é um tipo de fala muito familiar para nós, que vivemos imersos em um sociedade capitalista que preza por liberdade acima de tudo – inclusive, de nossa </span><a href="https://latinoamerica21.com/br/entre-o-sonho-americano-e-o-purgatorio/"><span style="font-weight: 400;">própria humanidade</span></a><span style="font-weight: 400;">. E, afinal, se mesmo </span><a href="https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/596211-quanto-mais-extremo-o-capitalismo-mais-extrema-e-a-desigualdade-afirma-diretor-do-filme-parasita"><span style="font-weight: 400;">Bong Joon-Ho</span></a><span style="font-weight: 400;"> se surpreendeu em como pessoas do mundo inteiro se identificaram com o seu (mais localizado possível) </span><a href="https://personaunesp.com.br/parasita-critica/"><span style="font-weight: 400;">retrato</span></a><span style="font-weight: 400;"> do capitalismo tardio sul-coreano, nossas vivências dentro desse sistema começam a se costurar, transcendendo territórios e aproximando-se de uma experiência universal. Entretanto, essa frase em específico é retirada de uma propaganda de rua do governo chinês. E a China não é capitalista.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A atual conjuntura econômica chinesa é complexa e um fenômeno único na história. Vivendo hoje um “</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=o5sXPAUmeKg"><span style="font-weight: 400;">socialismo de mercado</span></a><span style="font-weight: 400;">”, essa </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=eJpqTO-PaY0"><span style="font-weight: 400;">alternativa</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao socialismo tradicional surge quando a China, para evitar sofrer boicotes, embargos e barrar seu desenvolvimento produtivo, se viu na necessidade de fundir-se à lógica mundial de comércio capitalista, em concomitante à outras formas coletivas de propriedade. Contudo, o que parecia uma </span><a href="https://revistas.face.ufmg.br/index.php/novaeconomia/article/view/5544"><span style="font-weight: 400;">relação mutualística</span></a><span style="font-weight: 400;"> logo revela-se um violento parasitismo, que passa a contaminar cada aspecto de sua sociedade. E, à vista disso, os efeitos desse fenômeno são percebidos com muita sensibilidade por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=lHLGfZjm4vM"><span style="font-weight: 400;">Jessica Kingdon</span></a><span style="font-weight: 400;"> em </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/melhor-documentario/"><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, sua estreia como diretora de longa-metragens, que consta entre os indicados a Melhor Documentário do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2022</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span id="more-26942"></span></p>
<figure id="attachment_26944" aria-describedby="caption-attachment-26944" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-26944" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10.jpg" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Nela, vemos uma operária chinesa, vestindo uma jaqueta azul e vermelha, com o cotovelo e a mão apoiados sobre uma bacia cinza. Ela segura uma garrafa de plástico transparente em uma das mãos, e a posiciona de forma que dê a impressão de que ela está dirigindo o objeto até a sua boca. Na bacia, se encontram inúmeras garrafas iguais às que ela segura." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26944" class="wp-caption-text">Gravado por 52 locações chinesas ao todo, Ascension foi comercializado no Brasil pelo serviço de streaming Paramount+ (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme gira em torno da doutrina do “</span><a href="https://chinavistos.com.br/sonho-chines/"><span style="font-weight: 400;">sonho chinês</span></a><span style="font-weight: 400;">” – que pouco se conecta essencialmente com o que conhecemos como “sonho americano”. Esse conceito foi apresentado por Xi Jinping, presidente do país, em 2012 e, desde então, tem sido posto como projeto político nacional. Baseando-se em condutas da China Antiga, seu maior objetivo é finalmente </span><a href="https://pcdob.org.br/noticias/socialismo-na-nova-era-garantia-da-realizacao-do-sonho-chines/"><span style="font-weight: 400;">expurgar os traumas</span></a><span style="font-weight: 400;"> do país – com um longo passado de colonização e </span><a href="https://www.terra.com.br/noticias/educacao/historia/japao-contra-china-o-massacre-de-nanquim,8008affdfb1ea310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html"><span style="font-weight: 400;">dominação externa</span></a><span style="font-weight: 400;"> –, superar suas crises, ultrapassar a hegemonia capitalista e estabelecer-se como a maior potência econômica e tecnológica da civilização moderna.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao contrário dos fundamentos de liberdade e crescimento individual pregados no ocidente, o sonho chinês, além de basear-se em um forte sentimento nacionalista e em rígidas normas sociais, coloca-se como um processo coletivo em seu cerne. </span><i><span style="font-weight: 400;">“O sonho chinês é, acima de tudo, o sonho do povo. Nós devemos realizá-lo dependendo proximamente das pessoas”</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="http://portuguese.people.com.cn/n3/2019/0930/c309806-9619647.html"><span style="font-weight: 400;">são as palavras</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Xi Jinping. Porém, a obra de Kingdon demonstra como, conforme o país se entrelaçou com a economia mundial, a busca pelo “rejuvenescimento da nação chinesa” confirma-se corrompida. De </span><a href="https://www.consumidormoderno.com.br/2019/07/23/made-in-china-como-virou-a-industria-do-mundo/"><span style="font-weight: 400;">fábrica do mundo</span></a><span style="font-weight: 400;"> a </span><a href="https://www.indexlaw.org/index.php/revistadtmat/article/view/1240"><span style="font-weight: 400;">sociedade de consumo</span></a><span style="font-weight: 400;">, a estrutura socioeconômica inerentemente contraditória da China faz com que os cenários expostos pelo longa sejam assustadoramente reconhecíveis a nós.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da contextualização geral feita aqui, não é necessária nenhuma dessas informações para absorver a </span><a href="https://www.theguardian.com/film/2022/jan/10/ascension-review-chinas-bizarre-descent-into-capitalist-excess"><span style="font-weight: 400;">mensagem de </span><i><span style="font-weight: 400;">Ascensão</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – como foi traduzido para cá. Diferente do que pode ter parecido até agora, o documentário não tem cunho teórico, muito menos informativo. A partir de uma estética limpa e minimalista, Kingdon dispensa explicações metódicas e narrações expositivas, decidindo focar somente na observação silenciosa das pessoas e de como aquelas condições afetam tanto sua rotina quanto sua relação com os outros e com sua própria subjetividade.</span></p>
<figure id="attachment_26945" aria-describedby="caption-attachment-26945" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-26945" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13.jpg" alt="Fotografia retangular e colorida. Nela, vemos um grupo de três pessoas que se apoiam sobre uma parede. Sobre ela, está colado um outdoor com uma propaganda chinesa. A imagem que entra em foco na peça publicitária é a de uma boneca japonesa, que veste um kimono vermelho estampado com flores, e os dizeres são todos escritos em ideogramas chineses. Porém, o que chama a atenção são grandes rasgos que se apresentam sobre parte do pôster." width="1200" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13-768x432.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26945" class="wp-caption-text">As propagandas do governo, que disseminam a palavra do sonho chinês, costumam se apropriar a arte tradicional do país, evocando o nacionalismo da população; na imagem, três pessoas à frente de um pôster do sonho chinês adulterado (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Jessica Kingdon já havia explorado as circunstâncias humanitárias da China no premiado documentário de curta-metragem </span><a href="https://vimeo.com/265913637"><i><span style="font-weight: 400;">Commodity City</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que examina a vida de comerciantes do </span><a href="https://destinochina.com/atacado-no-mercado-de-yiwu-na-china/"><span style="font-weight: 400;">Mercado de Yuwi</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas decide expandir seus horizontes e investigar um panorama mais amplo. De descendência judaica e chinesa, a cineasta americana, sem nunca necessitar de verbalizações, não esconde o quão pessoais estes registros são para ela. Seu primeiro longa é nomeado a partir de um poema do seu próprio avô, Zheng Ze, escrito no ápice do </span><a href="https://iscap.pt/cei/e-rei/n9vol1/artigos/Lanfeng%20Zhou_O%20S%C3%A9culo%20de%20Humilha%C3%A7%C3%A3o%20e%20a%20sua%20influ%C3%AAncia%20na%20constru%C3%A7%C3%A3o%20da%20identidade%20nacional%20na%20China.pdf"><span style="font-weight: 400;">Século da humilhação</span></a><span style="font-weight: 400;">, em 1912 – um período de grande crise na história da China, logo antes da Primeira Guerra Mundial. Kingdon, então, se apossa das inquietudes de seu avô e ressignifica aqueles versos para tentar compreender a realidade de hoje.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Minha espada em mãos, eu ascendo até a torre.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu olho para longe, esperando aliviar minhas aflições.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A torre é alta demais para escalar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em vez disso, meus problemas só aumentam.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Após esse enxerto, logo nos transportamos para dentro do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WeIsyqRLjXI"><span style="font-weight: 400;">sensível olhar</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Kingdon. Acompanhamos uma comoção em um centro comercial chinês, onde os recrutadores das fábricas, com seus megafones, gritam a plenos pulmões ofertas de trabalho à multidão aflita. Os direitos mais básicos, como um ambiente ventilado ou cadeiras para se sentar, são anunciados como benefícios exclusivos e imperdíveis, enquanto a falta de rigor sanitário é considerada um atrativo para uma população que não consegue acesso sequer a exames médicos. Tudo isso por um salário pífio e irrisório, o que não impede que as ruas continuem abarrotadas.</span></p>
<p><figure id="attachment_26946" aria-describedby="caption-attachment-26946" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26946" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-4-1.webp" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Vemos, de cima, em uma visão panorâmica, a imagem de uma extensa piscina que ocupa o terraço de um prédio luxuoso. Além disso, três funcionários vestindo ternos andam sobre a ponta do terraço, aparentemente concluindo uma manutenção na piscina, sem nenhum tipo de equipamento de segurança." width="1200" height="675" /><figcaption id="caption-attachment-26946" class="wp-caption-text">“Para mim, [fazer o filme] foi muito sobre entender o capitalismo em um contexto diferente, fora dos Estados Unidos, em um país que ainda nomeia-se comunista”, disse Jessica Kingdon, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=hhSyuhHroW0">em entrevista</a> ao GoldDerby (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Nesse início, a câmera posiciona-se afastada, separada daquele corpo social e fluxo urbano. A perspectiva vêm de cima e exprime-se através de um olhar invasivo, que se embrenha sobre o cotidiano dessas pessoas sem que elas nem percebam. Mesmo com o distanciamento, a sensação é de abjeção, como se o simples ato de observar fosse rude ou até imoral. Com isso, Kingdon – que também assina a cinematografia – assume o mesmo lugar de nós, </span><a href="https://pantheon.ufrj.br/handle/11422/2501"><span style="font-weight: 400;">espectadores ocidentais</span></a><span style="font-weight: 400;">: o de estrangeira. Ainda que seja parte de sua ancestralidade, a cineasta entende sua posição como leiga e se prontifica a mergulhar no âmago da humanidade daquele povo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, então, ao invés do que a introdução incita, somos levados a uma jornada interna e confidente a esse universo lúgubre. Cruzamos por diversos fragmentos da vida chinesa e, toda vez que pulamos de um cenário a outro, essa consciência de uma aproximação comedida volta a aparecer, dando ao filme um </span><a href="https://repositorio.bc.ufg.br/bitstream/ri/4205/5/TCCG%20-%20Jornalismo%20-%20Marielle%20Alves.pdf"><span style="font-weight: 400;">caráter lúdico</span></a><span style="font-weight: 400;"> de curiosidade e constante descoberta, sempre acompanhado de um incômodo frio na espinha. A fotografia é hipnotizante, utilizando-se do contraste entre enquadramentos abertos e fechados para criar uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=8QwIXfNACK0"><span style="font-weight: 400;">corrente surreal de imagens</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i><span style="font-weight: 400;"> não precisa dizer nada, não só porque toda a sua carga de significado se apresenta dentro da sua rica linguagem cinematográfica, mas também pois sua narrativa depende de uma bagagem de signos que somente a enunciação jamais abarcaria. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim sendo, os trabalhadores das fábricas chinesas são os primeiros contingentes a serem abordados. Se a promessa de urbanização e modernização chinesa foi cumprida, isso não impediu que o mercado de exportação do país continuasse explorando a população local mais vulnerável, a partir de uma </span><a href="https://www.engeplus.com.br/noticia/economia/2017/por-que-os-produtos-da-china-sao-mais-baratos"><span style="font-weight: 400;">mão-de-obra barata</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sucateada, implementada em condições insalubres e indignas. Presenciamos as trabalhadoras debruçadas sobre diferentes linhas de montagem, ocupando funções automatizadas, </span><a href="https://jacobin.com.br/2022/01/para-marx-a-alienacao-era-central-para-a-compreensao-do-capitalismo/"><span style="font-weight: 400;">alheios do processo</span></a><span style="font-weight: 400;"> de formação daqueles produtos e, consequentemente, do valor legítimo de seu trabalho – ao mesmo tempo que nunca verão os frutos dessa labuta.</span></p>
<figure id="attachment_26947" aria-describedby="caption-attachment-26947" style="width: 1800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26947" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6.jpg" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Nela, vemos uma mulher de costas, segurando seu celular em uma das mãos, e a cabeça de uma boneca realista em tamanho real, posta sobre uma torre de apoio, na outra. Nas duas mãos ela veste luvas de proteção brancas. Sobre a mesma mesa onde se apoia a cabeça, vemos espalhadas diversas outras partes da boneca, como pernas, braços e torsos." width="1800" height="1013" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6.jpg 1800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26947" class="wp-caption-text">Essa abordagem observacional e sutil também possibilitou que o filme transmitisse sua mensagem de forma mais sofisticada e menos tendenciosa, dando abertura para interpretações alternativas do público, mas sem deixar de se posicionar da sua maneira (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É desse modo que os paradoxos inerentes ao socialismo chinês tomam forma na nossa frente. Aliando-se à </span><a href="https://www.uol/noticias/especiais/retrospectiva-nyt-china.htm#china-abraca-a-globalizacao"><span style="font-weight: 400;">globalização</span></a><span style="font-weight: 400;">, no esforço por alçar autonomia política e econômica, ironicamente a China se vê mais uma vez refém do imperialismo ocidental. Da produção de camisetas que estampam o </span><i><span style="font-weight: 400;">slogan</span></i><span style="font-weight: 400;"> do </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/inteligencia-de-trump-china-e-a-maior-ameaca-aos-eua-desde-a-segunda-guerra/"><span style="font-weight: 400;">governo de Trump</span></a><span style="font-weight: 400;"> à grotescamente meticulosa fabricação de bonecas sexuais: todos produtos que serão exportados e consumidos por homens de uma elite ocidental branca, e esculpidos por mulheres da classe operária chinesa em circunstâncias impróprias e perigosas. Fatalmente, espelha-se ali as </span><a href="https://www.comciencia.br/a-china-na-economia-mundo-capitalista-de-1840-aos-dias-atuais-da-incorporacao-forcada-a-integracao-total-voluntaria-e-irreversivel/"><span style="font-weight: 400;">convenções sistemáticas do capitalismo</span></a></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i><span style="font-weight: 400;"> também mostra como esse modelo de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=4a4XBSaNTBQ"><span style="font-weight: 400;">produção alienada</span></a><span style="font-weight: 400;"> é conduzida para outras </span><a href="http://www.anpad.org.br/admin/pdf/2012_GPR310%20TC.pdf"><span style="font-weight: 400;">dimensões sociais</span></a><span style="font-weight: 400;">. Cursos de preparação profissional formam-se sobre um molde praticamente militarizado, baseado em </span><a href="http://www.justificando.com/2017/12/12/acesso-justica-o-drama-da-classe-trabalhadora-nao-comecou-com-reforma-trabalhista/"><span style="font-weight: 400;">hierarquias severas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sem espaço para debate e pensamento crítico. Em um treinamento de mordomos, por exemplo, eles são ensinados a manter sempre a postura de submissão: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Nossos clientes são principalmente pessoas ricas, que tendem a fazer o que bem entenderem e a depositar seu mau-humor em vocês. E vocês, como membros da indústria de serviço, precisam agir profissionalmente”</span></i><span style="font-weight: 400;">, é o que aponta a instrutora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">São nesses momentos, quando Kingdon aprofunda-se na contraposição entre os trabalhadores e a aristocracia chinesa – cegamente obcecada pela cultura europeia –, que o documentário ganha um tom quase tragicômico. A partir de sua segunda metade, vemos as implicações da tal busca por desenvolvimento tecnológico e a </span><a href="http://www.anpad.org.br/admin/pdf/2012_GPR310%20TC.pdf"><span style="font-weight: 400;">transição do país</span></a><span style="font-weight: 400;"> de uma nação industrial para mais uma </span><a href="https://aun.webhostusp.sti.usp.br/index.php/2021/09/02/economia-da-atencao-e-universo-das-telas-entenda-por-que-e-tao-dificil-se-desconectar/"><span style="font-weight: 400;">economia de atenção</span></a><span style="font-weight: 400;"> no auge do </span><a href="https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-do-trabalho/uberizacao-da-revolucao-no-mundo-capitalista-a-evolucao-das-novas-formas-de-trabalho-humano/"><span style="font-weight: 400;">capitalismo selvagem</span></a><span style="font-weight: 400;">. A ideia de que, na </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=rrXFBSD0nRw"><span style="font-weight: 400;">era da </span><i><span style="font-weight: 400;">internet</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, ou você influencia ou é influenciado, é completamente abraçada por uma nova classe empreendedora que reduz tudo à mercadoria. Qualquer conhecimento que não possa ser monetizado torna-se obsoleto, enquanto a concepção do sonho chinês é deturpada e transformada em um discurso meritocrático vazio de ascensão e </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2019/10/25/e-preciso-combater-o-individualismo-e-o-consumismo-diz-stedile-em-evento-na-ufpa"><span style="font-weight: 400;">ganho individual</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_26948" aria-describedby="caption-attachment-26948" style="width: 4096px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26948" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-6-1.webp" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Nela, vemos de cima, um grupo enorme de pessoas, vestindo bóias rosas e amarelas, sendo levados pela correnteza de uma grande piscina de um parque aquático. O cenário é dia." width="4096" height="2160" /><figcaption id="caption-attachment-26948" class="wp-caption-text">Mesmo liderando as indicações no Critics Choice Documentary Awards ao lado de Summer of Soul, Ascension infelizmente saiu da premiação sem ser contemplado (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A trilha sonora de Dan Deacon, ainda que excessivamente eclética – ora firmada em uma </span><a href="http://akgerber.com/moi.html"><span style="font-weight: 400;">sonoridade rumorosa</span></a><span style="font-weight: 400;">, ora acústica, regrada por instrumentos de corda –, cumpre seu papel em denotar a discrepância absurda entre contextos tão fisicamente próximos. Quando os sintetizadores futuristas e sintéticos do compositor são sobrepostos aos ruídos caóticos e indistintos de uma festa de formatura de um grupo de estudantes de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=VFaEaJakl_A"><span style="font-weight: 400;">classe-média</span></a><span style="font-weight: 400;">, procurando sobre aquele parque aquático algum tipo de validação e </span><a href="https://www.scielo.br/j/tes/a/FZdfwbdkV66fsJGzJwyGVpP/?lang=pt"><span style="font-weight: 400;">recompensa imediata</span></a><span style="font-weight: 400;">, crentes de que com empenho eles conquistarão tudo que desejarem, prova-se ainda mais artificial a construção dessas relações – superficiais e alheias da realidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Indo além do seu formidável comentário político, Jessica Kingdon entrega uma brilhante experiência sensorial. Mostrando que fazer um bom documentário não depende apenas de um extenso acervo de informação, a diretora usa todos os elementos da linguagem cinematográfica ao seu favor, instigando nossos sentidos e nos transferindo para dentro desse cenário destrutivo da forma mais palpável que uma obra audiovisual chega. No </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">, em que foi indicado para Melhor Documentário, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i><span style="font-weight: 400;"> acompanha uma leva de documentários sobre a questão da China que deram as caras em anos anteriores, como o curta </span><a href="https://personaunesp.com.br/do-not-split-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Do Not Split</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2020/03/01/artigo-filme-industria-americana-mostra-precarizacao-do-trabalho-crua-e-desigual"><i><span style="font-weight: 400;">Indústria Americana</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que ganhou na mesma categoria em 2020. Porém, para esse ano, sua chance de vitória é pouca, dado que saiu de mãos vazias na maioria das grandes premiações em que foi indicado, enquanto compete aqui com gigantes como </span><a href="https://personaunesp.com.br/flee-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Flee</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/summer-of-soul-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Summer of Soul</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por meio de um estudo íntimo e refinado, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i><span style="font-weight: 400;"> revela que ecos da ideologia americana contaminaram os quatro cantos da China. Talvez o “sonho chinês” já não pareça tão distante dos preceitos do “sonho americano”. No fim das contas, é a mesma falácia de que, com persistência e força de vontade, tudo é possível. Ideia essa calcada sobre o sangue de trabalhadores e de uma falsa esperança que legitima opressões, à medida que edificada minuciosamente para esterilizar qualquer fagulha de reação e isentar os verdadeiros responsáveis por tamanhas atrocidades. E é assim que, ao testemunhar paralelos entre a decadente realidade chinesa e a nossa, sob o olhar preciso de Jessica Kingdon, não existe outra conclusão possível: </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ChgT6KcJfog"><span style="font-weight: 400;">reconciliações são impossíveis</span></a><span style="font-weight: 400;"> com a farsa do capitalismo. </span></p>
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