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	<title>Arquivos Antônio Fagundes &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Na pele de Marjorie Estiano, Ângela Diniz não pede para ser amada, mas exige liberdade – assim como todas as mulheres</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Feb 2026 13:00:59 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36802" aria-describedby="caption-attachment-36802" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-36802" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-3-800x450.jpg" alt="Cena de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada. Ângela, uma mulher de pele clara aparece em ambiente externo, durante o dia. Ela tem cabelo castanho ondulado e solto. Ela sorri enquanto ergue um dos braços, parecendo estar dançando. Na outra mão, segura uma taça com Champagne. Usa um vestido bege com listras brilhosas, sem mangas e com decote profundo, além de brincos grandes e um cordão. Ao fundo, há outras pessoas desfocadas e árvores e plantas que compõem a paisagem." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-3-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-3.jpg 1280w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36802" class="wp-caption-text">A série foi inspirada na história de Ângela Diniz, a socialite a frente de seu tempo vítima de feminicídio (Fonte: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Bezerra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O final de 2025 foi marcado por um clima de luto. Enquanto as festividades se aproximavam, as histórias de alguns nomes femininos começaram a ocupar as redes sociais e ganharam mais tempo de audiência nos jornais. Infelizmente, os comentários e matérias não se tratavam do sucesso profissional dessas mulheres, ou de alguma história curiosa ou cativante de suas vidas; não ouvimos sobre o brilho delas ou sobre suas paixões. Isso só foi ouvido depois, e das bocas dos amigos e familiares que, em busca de justiça, relembram a coragem, os sorrisos e sonhos daquelas mulheres que tiveram as vidas roubadas pelo </span><a href="https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/12/01/brasil-tem-mais-de-mil-casos-de-feminicidio-registrados-em-2025.ghtml"><span style="font-weight: 400;">feminicídio</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-36801"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No mesmo período, estreou</span><i><span style="font-weight: 400;"> Ângela Diniz: Assassinada e Condenada</span></i><span style="font-weight: 400;">. A série retrata a história da </span><i><span style="font-weight: 400;">socialite</span></i><span style="font-weight: 400;"> brasileira conhecida como ‘A Pantera de Minas’, que nos anos 1970 ocupava os tabloides com narrativas sobre a sua beleza avassaladora e seu jeito livre de ser. A produção é baseada no podcast </span><a href="https://radionovelo.com.br/originais/praiadosossos/"><i><span style="font-weight: 400;">Praia dos Ossos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, da Rádio Novelo, cujo título carrega o nome do local onde o brilho de Ângela (Marjorie Estiano) chegou ao fim. Em 30 de dezembro de 1976, ela foi assassinada pelo namorado Raul Fernando do Amaral Street (Emílio Dantas) com quatro tiros na Praia do Ossos, na Armação de Búzios, no Rio de Janeiro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Pantera teve sua história interrompida pela maldade e possessividade do companheiro, mas, ainda que não parecesse ter consciência disso, construiu um legado eterno; a lembrança de sua figura irreverente foi marcante no julgamento do crime: mais determinado a condená-la por seu estilo de vida do que em punir de forma efetiva o seu assassino. Sem metáforas ou eufemismos: em um tribunal cujo juiz era homem, os advogados eram homens e a maior parte do júri também, a defesa, baseado na legislação da época, afirmou que Doca matou Ângela em um ato de </span><a href="https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/tese-da-legitima-defesa-da-honra-e-inconstitucional/"><span style="font-weight: 400;">legítima defesa de sua honra</span></a><span style="font-weight: 400;">, como se ela fosse a verdadeira culpada.</span></p>
<figure id="attachment_36804" aria-describedby="caption-attachment-36804" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-36804" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-800x450.jpg" alt="Cena de Ângela Diniz: Assassinada e condenada. Ângela, uma mulher de pele clara está próxima a uma porta azul. Ela tem cabelo castanho escuro, veste um biquíni e apresenta uma expressão tensa, olhando para um homem à sua frente. Doca, de costas para a câmera, tem cabelo escuro e veste uma camisa marrom escuro. O cenário inclui alguns móveis e objetos ao fundo." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4.jpg 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36804" class="wp-caption-text">O roteiro faz um bom trabalho ao criar uma narrativa completa sobre a relação violenta de Ângela e seu assassino, afim de esclarecer a sequência de abusos que termina em tragédia (Fonte: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Cinco décadas depois, pensando com otimismo, era de se esperar que a série ressoasse como um olhar ao passado, uma lembrança do que não se pode repetir. No entanto, o luto e a revolta que ainda levam milhares de mulheres às ruas, especialmente nos últimos meses de 2025, mostraram que a misoginia enfrentada por Ângela – ainda em vida e após a sua morte – segue mais viva do que nunca. Diante disso, a pertinência da produção seria suficiente para instigar os espectadores, contudo, além disso, de antemão, o elenco da obra agregou um grande valor a ela. Mais uma vez, Marjorie Estiano entrega uma performance da mais alta qualidade, acompanhada de nomes como Emílio Dantas, </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/foi-dificil-dormir-a-noite-diz-atriz-de-angela-diniz/"><span style="font-weight: 400;">Camila Mardila</span></a><span style="font-weight: 400;">, Renata Gaspar, Thiago Lacerda e Antônio Fagundes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A série, dividida em 6 episódios, é absolutamente honesta, não deixa nada de fora; as polêmicas, as atitudes intempestivas, as festas, os casos, o divórcio e a sede por diversão e liberdade de Ângela. Ao fazer isso, o roteiro de Elena Soárez, Pedro Perazzo e Thais Tavares e a direção de Andrucha Waddington – que dirigiu Marjorie no filme </span><i><span style="font-weight: 400;">Sob Pressão</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2016) – constroem uma narrativa extremamente coerente, que nos fazem compreender todo o contexto que tornava a protagonista </span><i><span style="font-weight: 400;">persona non grata</span></i><span style="font-weight: 400;"> no imaginário social coletivo </span><a href="https://youtu.be/UIA2V7W8a3c?si=4D9sLtqtbmF9V0Z9&amp;t=136"><span style="font-weight: 400;">conservador</span></a><span style="font-weight: 400;"> e tradicional da época. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Logo no primeiro episódio, </span><i><span style="font-weight: 400;">Quero Me Separar</span></i><span style="font-weight: 400;">, é retratado o divorcio da protagonista, que representou uma significativa ruptura dos padrões da época. Para Ângela, não era importante manter as aparências, mas sim ser genuinamente feliz, e é claro que ela pagou as consequências emocionais e sociais pelo pensamento à frente de seu tempo. Nesse sentido, a ambientação e as discussões trazidas foram delicadamente pensadas para construírem a atmosfera do período e a complexidade de Ângela, sem deixar que a sua imagem caísse no discurso estereotipado que assassina repetidamente as vítimas de violência de </span><a href="https://personaunesp.com.br/maid-critica/#google_vignette"><span style="font-weight: 400;">gênero</span></a><span style="font-weight: 400;"> mesmo após a sua morte.</span></p>
<figure id="attachment_36805" aria-describedby="caption-attachment-36805" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-36805" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4-800x390.jpg" alt="Cena de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada. Duas mulheres estão em um ambiente interno bem iluminado, com quadros pendurados na parede ao fundo. À esquerda, Ângela, uma mulher de pele clara e cabelo castanho ondulado preso lê um livro, olhando para baixo. Ela usa um vestido azul-marinho sem mangas. À direita, um pouco mais ao fundo, outra mulher de pele clara e cabelos castanhos curtos observa a leitura. Ela usa óculos e veste uma camisa clara com um colete em tons de vermelho e laranja. No fundo, aparece uma parede branca com quadros pendurados. " width="800" height="390" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4-800x390.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4-1024x500.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4-768x375.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4.jpg 1178w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36805" class="wp-caption-text">Renata Gaspar interpreta Gilda Ribeiro, uma amiga de Ângela, intelectual e feminista, que representa a diferenca entre uma suposta imagem militante com a verdadeira figura da protagonista (Fonte: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ela era livre, e também era uma mãe, filha e amiga apaixonada; ela era tudo isso, e, ao mesmo tempo, também era intempestiva e, pode ser vista como insensível pelas esposas dos homens casados com os quais se envolveu. Era independente, no entanto, também foi refém de uma relação essencialmente abusiva. Ângela é uma revolução, que vivia sua sexualidade livremente, como queria e com quem queria, mas não era uma </span><a href="https://elle.com.br/cultura/marjorie-estiano-angela-diniz"><span style="font-weight: 400;">feminista</span></a><span style="font-weight: 400;"> convicta, não se importava com a teoria, ou com as intelectuais que discutiam o porque mulheres como ela mesma podiam viver como viviam. Apenas queria viver conforme desejasse.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A genialidade do roteiro, diga-se de passagem, é acompanhada de uma curadoria musical feita a dedo, que embala a narrativa assertivamente. Além disso, o figurino (</span><a href="https://www.imdb.com/name/nm1315505/?ref_=ttfc_fcr_10_1"><span style="font-weight: 400;">Marcelo Pies</span></a><span style="font-weight: 400;">) também merece destaque. Desde o glamour das festas no Rio de Janeiro até a funebridade do julgamento de Doca – ou de Ângela. Tudo colabora para que essa seja uma produção primorosa e quase resolutiva para a protagonista e para todas as mulheres: criou-se uma imagem poderosa e repleta de camadas para a personagem de Marjorie, contudo, nunca pejorativa, e ainda, sem se dar ao trabalho de forjar uma figura imaculada. O que </span><i><span style="font-weight: 400;">Ângela Diniz: Assassinada e Condenada</span></i><span style="font-weight: 400;"> diz, ou melhor, grita tão alto quanto as vítimas de violência é: por que a sua régua moral determina se eu </span><a href="https://auniao.pb.gov.br/noticias/colunistas/sandra-raquew-azevedo/estereotipo-e-feminicidio"><span style="font-weight: 400;">merecia</span></a><span style="font-weight: 400;"> morrer ou não?</span></p>
<figure id="attachment_36803" aria-describedby="caption-attachment-36803" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36803" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-3-800x539.jpg" alt="Cena de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada. Grupo de mulheres reunidas em protesto em frente a um prédio com colunas. Ao fundo, uma grande faixa com os dizeres &quot;Quem ama não mata&quot;. No centro, uma mulher abraça outra emocionada. Algumas manifestantes aplaudem e uma segura um cartaz escrito ‘Eu não quero ser a próxima’ em vermelho." width="800" height="539" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-3-800x539.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-3-1024x690.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-3-768x518.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-3.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36803" class="wp-caption-text">A série recria cenas de protestos organizados nos anos 1980 (Fonte: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando Doca Street saiu do Tribunal de Cabo Frio após o primeiro julgamento em 1979, o fez como um homem livre, pois já havia cumprido um terço da pena decretada pelo juiz. Cinco anos depois, o Ministério Público recorreu e Doca e o novo </span><span style="font-weight: 400;">veredicto</span><span style="font-weight: 400;"> foi uma pena de 15 anos que foi cumprida em sua totalidade. Nessa época, o movimento feminista, fortemente atuando e em processo de organização, foi essencial para essa decisão. Elas carregavam o lema “</span><a href="https://catarinas.info/quem-ama-nao-mata-40-anos-de-luta/"><i><span style="font-weight: 400;">Quem ama, não mata</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”, uma referência à tese jurídica do crime passional. Na série, Camila Márdila e Renata Gaspar entregam performances emocionantes, carregadas de dor e revolta, como amigas de Ângela que estariam à frente de manifestações. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Angela Diniz: Assassinada e Condenada</span></i><span style="font-weight: 400;"> – e os boletins de ocorrência brasileiros – escancaram que, na realidade em que vivemos, toda e qualquer mulher pode ser considerada merecedora de sofrimento e que não há nenhuma tentativa de rendição aos padrões que possa salvá-la. </span><a href="https://personaunesp.com.br/capitu-e-o-capitulo-critica/#google_vignette"><span style="font-weight: 400;">Machado de Assis</span></a><span style="font-weight: 400;">, em 1899, no clássico </span><i><span style="font-weight: 400;">Dom Casmurro</span></i><span style="font-weight: 400;">, já nos alertava sobre isso: em uma história narrada por homens, é fácil criar a imagem da “</span><i><span style="font-weight: 400;">cigana dos olhos de ressaca</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Ou seja, é urgente celebrar a liberdade, parar de tentar justificar o injustificável e tomar as rédeas do ponto de vista.</span></p>
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		<title>Delírio e desobediência em Das Tripas Coração</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Oct 2022 20:56:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Juliana Boaventura As transformações físicas, descobertas sexuais e emoções intensas que fazem parte da transição da infância para a adolescência povoam e intrigam o imaginário popular. Muitos artistas buscam examinar isso em suas obras, partindo de suas experiências íntimas. Em Das Tripas Coração (1982) &#8211; em inglês, Heart and Guts &#8211;, a cineasta Ana Carolina &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/das-tripas-coracao-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Delírio e desobediência em Das Tripas Coração"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29033" aria-describedby="caption-attachment-29033" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29033" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem1.jpg" alt="Cena do filme Das Tripas Coração (1982), em frente ao prédio da escola, na foto estão algumas alunas, vestidas de saia e camisa escolar, entre outros personagens, aglomerados, sem olhar para a câmera. Na direita da imagem, Guido (Antônio Fagundes) segura a professora de química do colégio enquanto ela vomita, abaixada, vestindo uma saia xadrez e camisa branca" width="512" height="267" /><figcaption id="caption-attachment-29033" class="wp-caption-text">Das Tripas Coração foi exibido na seção Apresentação Especial da 46ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo juntamente com outras produções da cineasta Ana Carolina, vencedora do Prêmio Humanidade (Foto: Crystal Cinematográfica)</figcaption></figure>
<p><b>Juliana Boaventura</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As transformações físicas, descobertas sexuais e emoções intensas que fazem parte da transição da infância para a adolescência povoam e intrigam o imaginário popular. Muitos artistas buscam examinar isso em suas obras, partindo de suas experiências íntimas. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Das Tripas Coração </span></i><span style="font-weight: 400;">(1982) &#8211; em inglês, </span><i><span style="font-weight: 400;">Heart and Guts &#8211;</span></i><span style="font-weight: 400;">, a cineasta Ana Carolina constrói um microcosmo que expõe aspectos dessa transição de forma cômica e teatral, valendo-se de uma narrativa onírica não-linear, declamações inflamadas e murmúrios fora de cena. Uma inclinação à rebeldia e à desobediência permeia o longa-metragem, que desenrola-se dentro de um colégio feminino, austero, religioso e falido. O filme compõem a seção Apresentação Especial na programação da 46ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo.</span></p>
<p><span id="more-29032"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A diretora e roteirista iniciou sua produção cinematográfica com um documentário sobre </span><i><span style="font-weight: 400;">Getúlio Vargas</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1974). Em seguida, ela concebe </span><i><span style="font-weight: 400;">Mar de Rosas</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1977) e mais dois longas que abordam a condição feminina, </span><i><span style="font-weight: 400;">Das Tripas Coração</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1982) e </span><i><span style="font-weight: 400;">Sonho de Valsa</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1987); compondo uma trilogia. Seu trabalho mais recente, </span><i><span style="font-weight: 400;">Paixões Recorrentes</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2022), também foi exibido na Apresentação Especial  da 46ª Mostra. Ao longo de sua carreira, ela tem exposto acerca da dificuldade em financiar e executar seus projetos, como em uma entrevista ao </span><a href="https://youtu.be/lphpUOvuH3I"><i><span style="font-weight: 400;">Roda Viva</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em 1994. Ela menciona também a necessidade de renovação do aparato de produção cinematográfico brasileiro e suas perspectivas e ideias para o cinema nacional, colocando-o como um meio de mudança social.</span></p>
<figure id="attachment_29034" aria-describedby="caption-attachment-29034" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29034 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem2-800x604.jpeg" alt="Fotografia que retrata a cineasta Ana Carolina, olhando para o lado, ela segura a gola de um casaco cinza com as duas mãos, de punhos cerrados. No fundo está o pôster do filme Mar de Rosas, no qual há uma ilustração de uma menina com as mãos na cintura, usando um vestido com a tipografia do título do filme. Trata-se de uma das personagens principais do longa, Betinha (Cristina Pereira), e em seu nariz há o que parece ser um prendedor de roupas vermelho" width="800" height="604" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem2-800x604.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem2-1024x773.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem2-768x580.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem2-1536x1160.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem2-1200x906.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem2.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29034" class="wp-caption-text">Ana Carolina em frente ao pôster de Mar de Rosas, estrelado por Norma Bengell e Cristina Pereira como mãe e filha (Foto: Tasso Marcelo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Das Tripas Coração</span></i><span style="font-weight: 400;">, há um uso provocativo de superposição das vozes dos atores, os sons se misturam espacialmente conforme a câmera se move. Isso evoca uma rejeição à ordem, como durante a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=90QrscVHL0k"><span style="font-weight: 400;">aula</span></a><span style="font-weight: 400;"> do professor Guido (Antônio Fagundes), em que os murmúrios das alunas vão de provocações a questionamentos sobre o estado civil do professor. A confusão de vozes agrega à comicidade dos diálogos e ao aspecto surreal do filme, um recurso que a diretora reconhece causar estranhamento no público. Em </span><a href="http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=154083_04&amp;pagfis=1114"><span style="font-weight: 400;">entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;"> à Tribuna da Imprensa em 1980, afirma: “</span><i><span style="font-weight: 400;">o delírio, as coisas que a gente pensa e não diz, aquelas de que a gente ri e outros não, isto é o que vale no meu cinema. Interesso-me pelo não-dito, pelo mal-dito, que tem mais graça, é mais possível e mais interessante</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O colégio em que a trama se passa é como um espaço fechado que encapsula os fenômenos da sociedade, conflitos geracionais, de classe social e a sexualidade em todas as fases da vida. Alguns diálogos entre as faxineiras, as inspetoras, o professor e as diretoras da escola, Miriam (Xuxa Lopes) e Renata (Dina Sfat), reforçam a ideia de que as alunas adolescentes representam uma força da natureza, incontroláveis. Há um </span><a href="https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67312/das-tripas-coracao"><span style="font-weight: 400;">espírito de rebelião</span></a><span style="font-weight: 400;">, de desobediência à ordem vigente, que atinge seu ponto máximo quando uma das alunas (Maria Padilha) urina em meio à uma missa, sendo punida em seguida.</span></p>
<figure id="attachment_29035" aria-describedby="caption-attachment-29035" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29035 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem3-800x544.jpeg" alt="Cena do filme Das Tripas Coração em que Renata abraça Guido. Ela usa um vestido cinza de mangas compridas, tem o cabelo cacheado na altura dos ombros e olha para além da câmera, assim como Guido, que usa uma blusa cinza, tem cabelos pretos e barba cheia" width="800" height="544" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem3-800x544.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem3-1024x696.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem3-768x522.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem3-1536x1044.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem3-1200x816.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem3.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29035" class="wp-caption-text">As diretoras do colégio Renata e Miriam vivem um triângulo amoroso com Guido (Foto: Crystal Cinematográfica)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em meio ao ritmo acelerado dos acontecimentos, o desejo sexual dos personagens é a força motriz dos conflitos. Tanto revelações íntimas das personagens quanto declamações poéticas e reflexões filosóficas evocam o inconsciente, as classes sociais e as estruturas políticas. Em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=90QrscVHL0k"><i><span style="font-weight: 400;">Das Tripas Coração</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, Ana Carolina explora o estranhamento, e a maneira como a narrativa acontece acrescenta ao aspecto delirante e cômico da narrativa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O segundo filme da trilogia sobre a condição feminina, </span><a href="https://www.prppg.ufpr.br/siga/visitante/trabalhoConclusaoWS?idpessoal=79015&amp;idprograma=40001016001P0&amp;anobase=2021&amp;idtc=1703"><span style="font-weight: 400;">segundo ela</span></a><span style="font-weight: 400;">, traz uma tentativa de explorar o sexo e a culpa, a visão masculina do desejo feminino. Em um discurso que explora tanto a insubmissão e a desobediência características da transição da infância para a adolescência quanto diversas contradições ao longo das gerações, a produção acaba por abarcar (quase) toda a vida.</span></p>
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