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	<title>Arquivos Andréia Horta &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Colônia: a tocante releitura de Holocausto Brasileiro</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Aug 2021 21:30:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto Livremente inspirada no livro-reportagem Holocausto Brasileiro de Daniela Arbex, Colônia é a nova aposta do Canal Brasil. A série produzida e dirigida por André Ristum é um retrato sensível sobre o hospício em Barbacena, Minas Gerais, que vitimou mais de 60 mil pessoas no último século. Dividida em 10 episódios, a produção explora &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/colonia-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Colônia: a tocante releitura de Holocausto Brasileiro"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_22379" aria-describedby="caption-attachment-22379" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-22379" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1-2-2.jpg" alt="Cena da série Colônia. Na imagem aparecem os personagens Gilberto e Eliza centralizados entre outras duas figuras que estão desfocadas nos cantos. Todos usam a camisola cinza do hospício e tem aparência cansada, a imagem está em preto e branco. " width="1200" height="650" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1-2-2.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1-2-2-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1-2-2-1024x555.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1-2-2-768x416.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22379" class="wp-caption-text">Colônia foi lançada no dia 25 de junho e está disponível na plataforma Globoplay (Foto: Globoplay)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Livremente inspirada no livro-reportagem </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-holocausto-brasileiro-de-daniela-arbex/"><i><span style="font-weight: 400;">Holocausto Brasileiro</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de Daniela Arbex, </span><i><span style="font-weight: 400;">Colônia</span></i><span style="font-weight: 400;"> é a nova aposta do </span><i><span style="font-weight: 400;">Canal Brasil</span></i><span style="font-weight: 400;">. A série produzida e dirigida por </span><a href="https://www.omelete.com.br/series-tv/colonia-andre-ristum-entrevista"><span style="font-weight: 400;">André Ristum</span></a><span style="font-weight: 400;"> é um retrato sensível sobre o hospício em Barbacena, Minas Gerais, que vitimou mais de 60 mil pessoas no último século. Dividida em 10 episódios, a produção explora personagens ficcionais que reconstroem o horror vivido pelos internos do </span><a href="https://memoria.ebc.com.br/cidadania/2015/08/mais-de-60-mil-pessoas-morreram-no-maior-manicomio-do-brasil"><span style="font-weight: 400;">maior manicômio do país</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-22378"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um vagão de carga escuro e sem ventilação leva os “doidos” para um destino cruel. Jogados no assoalho, alguns vomitam, urinam, gritam ou choram – ninguém entra ali e volta a ser como era antes. O </span><i><span style="font-weight: 400;">frame </span></i><span style="font-weight: 400;">remete à forma como os </span><a href="https://amp.dw.com/pt-br/h%C3%A1-75-anos-come%C3%A7avam-as-deporta%C3%A7%C3%B5es-de-judeus-para-os-campos-nazistas/a-36078857"><span style="font-weight: 400;">judeus</span></a><span style="font-weight: 400;"> eram encaminhados aos campos de concentração, e o aspecto degradante e impiedoso animaliza cada figura presente na cena. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama nos convida a enxergar pelos olhos de Elisa (Fernanda Marques), uma jovem que foi colocada naquele vagão a mando do próprio pai como castigo por ter engravidado do namorado e recusado se casar com um homem 40 anos mais velho. Desorientada, ela pensa ter sido alvo de um engano, já que seu diagnóstico de esquizofrenia era falso, mas logo percebe que ninguém ia para o Colônia por engano.</span></p>
<figure id="attachment_22380" aria-describedby="caption-attachment-22380" style="width: 645px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-22380" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-2-2-1.jpg" alt="Cena da série Colônia. Na fotografia a personagem Valeska está sentada em uma das camas do hospício, a personagem veste a camisola cinza e a imagem é em preto e branco. " width="645" height="388" /><figcaption id="caption-attachment-22380" class="wp-caption-text">Andréia Horta contou que parte do processo de preparação para a série consistia em fazer limpezas no ambiente das gravações (Foto: Globoplay)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na verdade, os internos eram escolhidos a dedo. O prédio descuidado era um depósito de internações injustificadas, a maioria não tinha nenhum problema psiquiátrico, apenas era mais cômodo para os conservadores da sociedade taxá-los de doidos e mantê-los longe de vista. Gilberto (Arlindo Lopes) foi mandado para o hospício por ser </span><a href="https://danielaarbex.com.br/serie-colonia-minha-mae-quer-que-eles-me-curem/"><span style="font-weight: 400;">gay</span></a><span style="font-weight: 400;">; Raimundo (Bukassa Kabengele), um alcoólatra; Valeska (<a href="https://heloisatolipan.com.br/tv/andreia-horta-vive-prostituta-em-colonia-limpava-um-comodo-inteiro-com-um-pano-e-um-balde-com-agua-suja/">Andréia Horta</a>), uma prostituta apaixonada pelo prefeito de Barbacena, e Wanda (Rejane Faria) tinha uma história muito parecida com a de Elisa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de não serem protagonistas, os arcos dos personagens são super bem desenvolvidos, pois os pacientes se tornam a ponte de apoio um do outro e impedem que a loucura de viver naquele lugar os consuma completamente. Em certos momentos, as conversas e sorrisos soltos que eles compartilham amenizam o clima acinzentado.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A interpretação de </span><a href="https://www.otempo.com.br/diversao/magazine/uma-trajetoria-de-solidez-1.1473244"><span style="font-weight: 400;">Rejane Faria</span></a><span style="font-weight: 400;"> constrói a representação mais marcante da série. Wanda já estava aprisionada no Colônia há quase 30 anos, internada pelo patrão por estar grávida e com seu filho arrancado de seus braços dentro daquele edifício frio, ainda sim seu olhar é capaz de transmitir uma serenidade reconfortante. A personagem ajuda Elisa a não tomar decisões precipitadas e é o ponto de paz da protagonista ao longo da trama. As duas criam um laço praticamente maternal que torna impossível não gostar de como as atuações se complementam. </span></p>
<p><figure id="attachment_22381" aria-describedby="caption-attachment-22381" style="width: 790px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-22381" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-3-4-2.jpg" alt="Cena da série Colônia. Na imagem aparecem as personagens Wanda e Elisa sentadas em uma cama, ambas vestem a camisola cinza da internação e a fotografia é em preto e branco. " width="790" height="474" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-3-4-2.jpg 790w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-3-4-2-768x461.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-22381" class="wp-caption-text">À esquerda Wania (Rejane Faria) e à direita Elisa (Fernanda Marques) [Foto: Globoplay]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Dentro do Colônia, a rotina fazia questão de tirar qualquer traço de humanidade de quem sobrevivia lá. Os internos passavam fome, frio, eram torturados, dopados e até levados para sessões de eletrochoque que, muitas vezes, deixavam sequelas permanentes. Os funcionários do hospício não ouviam opiniões e a direção não se preocupava com quantos iriam morrer, afinal, nenhum deles tinha alguém que se importasse e era fácil se livrar dos corpos como objetos de </span><a href="https://tribunademinas.com.br/noticias/cidade/22-11-2011/comercio-da-morte-so-parou-na-decada-de-80.html"><span style="font-weight: 400;">pesquisa em Universidades</span></a><span style="font-weight: 400;">.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além das críticas visíveis aos comportamentos machistas e racistas da época, </span><i><span style="font-weight: 400;">Colônia </span></i><span style="font-weight: 400;">não deixa de incluir o período da </span><a href="https://www.politize.com.br/ditadura-militar-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">ditadura</span></a><span style="font-weight: 400;"> nesses desabafos. Como a produção se ambienta na década de 70, parte dos rejeitados levados para o hospício eram opositores do governo autoritário da época. Um trato entre os militares e a coordenação do hospital permitia que alguns protestantes recebessem um destino diferente da morte e fossem levados para o hospital como punição. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A narrativa também nos entrega reflexões sobre a ética médica com o confronto interno do médico da instituição, que se sente encurralado pela frustração de tantos anos de contribuição com o sistema. E com a enfermeira Laura, interpretada pela atriz Naruna Costa, que ainda vive com a esperança de fazer do Colônia um hospital que cuidasse dos pacientes com seriedade – esse desejo de mudança faz com que ela colabore com Elisa e Wanda ao longo dos episódios. </span></p>
<figure id="attachment_22382" aria-describedby="caption-attachment-22382" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22382" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Colonia.png" alt="Imagem da série Colônia. Na fotografia aparecem os personagens Natalia, Eduardo e Ivan sentados no porta malas de um carro. Ivan é careca, tem pele clara e usa óculos, camiseta escura e calça jeans. Eduardo é um homem negro e usa camisa de botões branca estampada com uma calça de tom claro. Natalia é branca e tem cabelos médios e castanhos, suas roupas não aparecem na imagem." width="1200" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Colonia.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Colonia-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Colonia-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Colonia-768x432.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22382" class="wp-caption-text">“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia” (Foto: Globoplay)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A fotografia é um dos pontos que se destacam, as cenas foram produzidas em preto e branco e isso carrega toda uma genialidade, já que o peso daquelas paredes não poderia ser representado com cores. A trilha sonora e a locação escolhida como cenário também somam os tons sombrios e dramáticos de que a trama precisa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Títulos nacionais, como </span><a href="https://diariodorio.com/critica-os-ultimos-dias-de-gilda/"><i><span style="font-weight: 400;">Os Últimos Dias de Gilda</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.omelete.com.br/amazon-prime-video/criticas/manhas-de-setembro-critica-primeira-temporada"><i><span style="font-weight: 400;">Manhãs de Setembro</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=f-WR_Tugips"><i><span style="font-weight: 400;">Onde Está Meu Coração</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, têm chamado atenção e trazido a esperança de mais reconhecimento para o audiovisual brasileiro. </span><i><span style="font-weight: 400;">Colônia </span></i><span style="font-weight: 400;">não fica de fora dessa lista e facilmente poderia ser classificada como um dos melhores lançamentos de 2021. Tudo é ambientado de forma coerente, com trabalhos de atuação impecáveis que emocionam pelos detalhes. </span><i><span style="font-weight: 400;">Colônia</span></i><span style="font-weight: 400;"> é mais que uma produção audiovisual, é um alerta para a questão da valorização da saúde mental e para o cuidado com os </span><a href="https://estanciabelavista.org.br/saude-mental-e-direitos-humanos-do-debate-a-implementacao/"><span style="font-weight: 400;">direitos humanos</span></a><span style="font-weight: 400;"> no Brasil. Seu </span><i><span style="font-weight: 400;">script </span></i><span style="font-weight: 400;">sensível e delicado remonta com louvor o marco histórico de uma tragédia brasileira muitas vezes esquecida.</span></p>
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		<title>Reviver Elis é melhor que sonhar</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Nov 2020 15:46:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ana Laura Ferreira e Raquel Dutra A trajetória da música brasileira transpassa a história do país. Os fatos, a política e o social moldaram a forma e o conteúdo dos nossos produtos culturais, que muitas vezes combateram na linha de frente os regimes abusivos, denunciaram e registraram as experiências de cada período. No nascimento de &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/elis-viver-e-melhor-que-sonhar-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Reviver Elis é melhor que sonhar"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_16725" aria-describedby="caption-attachment-16725" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16725" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image1.jpg" alt="Na imagem Andréia Horta está caracterizada como Elis Regina. Ela está de lado, com a mão esquerda sobre um microfone, o qual encosta na lateral do seu rosto. Sua face está virada para a câmera e ela tem um largo sorriso estampado, olhos fechados e os cabelos castanhos escuros cortados bem curtos. " width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image1.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image1-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16725" class="wp-caption-text">“Porque liberdade e ar são duas coisas que a gente sente que são essenciais para a vida. Sobretudo quando fazem falta” (Foto: TV Globo)</figcaption></figure>
<p><b>Ana Laura Ferreira e Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trajetória da música brasileira transpassa a história do país. Os fatos, a política e o social moldaram a forma e o conteúdo dos nossos produtos culturais, que muitas vezes combateram na linha de frente os regimes abusivos, denunciaram e registraram as experiências de cada período. No nascimento de um dos gêneros musicais mais brasileiros dentre os nascidos em terras tupiniquins não seria diferente, como ilustra a minissérie </span><i><span style="font-weight: 400;">Elis &#8211; Viver é Melhor que Sonhar</span></i><span style="font-weight: 400;"> e seu retrato da origem da Música Popular Brasileira protagonizada pela </span><i><span style="font-weight: 400;">Pimentinha</span></i><span style="font-weight: 400;"> Elis Regina. A produção indicada a Melhor Minissérie/Telefilme no </span><i><span style="font-weight: 400;">Emmy Internacional 2020</span></i><span style="font-weight: 400;"> mergulha no cenário efervescente da música nacional entre os anos de 1960 e 1980 ao mesmo tempo em que fragmenta a gaúcha, mãe da </span><i><span style="font-weight: 400;">MPB</span></i><span style="font-weight: 400;">, em muitas mulheres para além da artista.</span></p>
<p><span id="more-16648"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dona de um poder vocal inigualável e de canções atemporais, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/webstories/cultura/2020/10/vida-e-obra-de-elis-regina/"><span style="font-weight: 400;">Elis Regina Carvalho Costa</span></a><span style="font-weight: 400;"> iniciou sua carreira ainda criança em Porto Alegre, mas foi em 1964, aos 19 anos, que atraiu a atenção de importantes empresários do meio artístico da época. É nesse momento da vida da cantora que a minissérie se inicia, contextualizando brevemente o cenário em que o país se encontrava naquele momento: o início do regime militar. Através de depoimentos de jornalistas, recortes de jornais, falas de outros artistas e da própria Elis, a minissérie baseada na vida da artista assume também um caráter documental, que falha em alguns momentos ao ilustrar levianamente a realidade difícil que o país passava na época, mas triunfa em criar um resumo do que foi a música brasileira daquele período. </span></p>
<figure id="attachment_16649" aria-describedby="caption-attachment-16649" style="width: 1381px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16649" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Elis-Regina-1972.jpg" alt="Imagem em branco e preto de Elis Regina sorrindo de perfil. Ela tem a mão direita apoiando o rosto e ao fundo a imagem desfocada de uma pessoa." width="1381" height="900" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Elis-Regina-1972.jpg 1381w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Elis-Regina-1972-300x196.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Elis-Regina-1972-1024x667.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Elis-Regina-1972-768x501.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Elis-Regina-1972-1200x782.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16649" class="wp-caption-text">No dia 22 de Outubro de 2020, o Ballet Stagium apresentou, no projeto Em Casa Com Sesc, o espetáculo &#8220;Sonhos Vividos&#8221; inspirado na música de Elis Regina, ex-aluna da companhia (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Destacando a identidade ousada de Elis que conflitava com os gêneros musicais bem-sucedidos na época, a trama pinta a artista com a importância devida: a mãe da Música Popular Brasileira, que na contramão do </span><i><span style="font-weight: 400;">jazz</span></i><span style="font-weight: 400;"> suave da bossa nova dominante naquele tempo, cantava com </span><i><span style="font-weight: 400;">“o coração sangrando”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Essa divergência de estilos foi inclusive motivo de desentendimento entre a cantora e Tom Jobim e Vinícius de Moraes, &#8216;os donos&#8217; do movimento que é considerado um dos mais influentes da música brasileira, produzindo uma arte que ia de encontro aos ideais desenvolvimentistas e modernos da presidência de Juscelino Kubitschek.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todos os conflitos que a artista encontrava na época com o cenário musical e do próprio país e a química da cantora com a sua arte são impressos na personagem de Andréia Horta e destacados pela direção de Hugo Prata. Elis não economizava sentimentos e encontrou um povo que clamava por uma cantora de peito aberto. Junto a outros movimentos que já iam numa direção mais denunciante, como o </span><a href="https://gente.ig.com.br/cultura/2017-10-09/tropicalia.html"><span style="font-weight: 400;">Tropicalismo</span></a><span style="font-weight: 400;">, é que Elis dá vida a </span><i><span style="font-weight: 400;">MPB</span></i><span style="font-weight: 400;">, quando protagonizou o extremamente bem-sucedido programa </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=suDRd_sJxbs"><i><span style="font-weight: 400;">Fino da Bossa</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> ao lado de Jair Rodrigues (Ícaro Silva). Mesmo com uma passagem rápida pela série, a dupla revive a química espirituosa que os artistas transbordavam na televisão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sucesso esse que cobrou dela muito trabalho, e ainda reconstituindo as movimentações da música brasileira na época, o roteiro que o diretor escreveu junto de Vera Egito e Luiz Bolognesi relembra todas as vezes que a artista teve de se renovar. Assim, </span><i><span style="font-weight: 400;">Elis &#8211; Viver É Melhor que Sonhar</span></i><span style="font-weight: 400;"> pontua a novidade da década de 60: a Jovem Guarda. O gênero nasceu do encontro da música brasileira com o </span><i><span style="font-weight: 400;">rock’n’roll</span></i><span style="font-weight: 400;"> provocado por figuras como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa e roubou a atenção das gravadoras e do povo brasileiro, forçando Elis a se reinventar e repensar sua arte e sua carreira.</span></p>
<figure id="attachment_16652" aria-describedby="caption-attachment-16652" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16652" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/unnamed.jpg" alt="Imagem da série Elis: Viver é melhor que sonhar na qual Andréia Horta, caracterizada como Elis regina aparece de braços abertos cantando em frente a um microfone antigo. Ela usa um vestido que tem a parte de cima em branco e a saia em preto, seus cabelos pretos chegam aos ombros. Ao lado dela, Ícaro Silva está caracterizado como Jair Rodrigues e usa um terno preto. Ele está de perfil com os braços abertos em direção a ela e ao fundo a imagem desfocada do baterista." width="512" height="215" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/unnamed.jpg 512w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/unnamed-300x126.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 512px) 85vw, 512px" /><figcaption id="caption-attachment-16652" class="wp-caption-text">Cinco décadas depois de sua última transmissão, O Fino da Bossa voltou a ser exibido em 2018 na edição especial em comemoração aos 65 anos da Record TV (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Usando os cenários externos para mergulhar na intimidade da artista, a minissérie nos dá acesso à “Elis mãe” e à “Elis esposa”. Embarcando nos altos e baixos de seu primeiro casamento com o produtor e compositor Ronaldo Bôscoli, entre os anos de 1967 e 1972, conhecemos seu emocional e suas inseguranças ao assumir aquele novo papel. Até ingênua, de certa forma, a Elis de Andréia Horta se mostra muito menos voraz e explosiva do que ela era nos palcos. Se entregando aos vários lados da multifacetada artista é que a atriz nos leva de encontro com as inseguranças e fragilidades de Regina.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É em meio ao turbilhão de emoções que <em>Elis &#8211; Viver é Melhor que Sonhar</em> inicia um aprofundamento na realidade externa da bolha que contempla a cantora. Assim como Chico Buarque, Milton Nascimento e Gilberto Gil, Elis também foi alvo de censura por parte do regime militar. Pressionados pela ditadura, muitos artistas e intelectuais brasileiros foram obrigados a se </span><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2019/03/17/interna_diversao_arte,743311/artistas-exilados-ha-50-anos.shtml"><span style="font-weight: 400;">exilar fora do país</span></a><span style="font-weight: 400;">, como única alternativa para evitar a tortura. No caso de Regina, somos puxados para o drama ao qual sua vida é submetida quando ela se vê obrigada a cantar nas Olimpíadas do Exército de 1973, sob ameaça. Os atos de repúdio dirigidos a cantora a condenaram por se submeter ao &#8216;diálogo&#8217; com os militares, mas a série deixa claro como o medo falou mais alto naquela situação e em como ela se sentiu ao perceber que ele havia atropelado seus ideais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo após seu </span><a href="https://vermelho.org.br/2011/01/19/sergio-luz-henfil-a-ditadura-e-os-dois-enterros-de-elis-regina/"><span style="font-weight: 400;">enterro simbólico</span></a><span style="font-weight: 400;">, desenhado pelo cartunista Henfil para o semanário alternativo </span><i><span style="font-weight: 400;">O Pasquim</span></i><span style="font-weight: 400;">, ela se manteve em meio aos holofotes. Temos então, pela primeira vez em <em>Elis &#8211; Viver é Melhor que Sonhar</em>, o ponto de vista e a opinião do público quanto a cantora. As vaias que invadem o teatro e a abalam completamente se opõem a melodia entoada, e então a perspectiva da trama se altera completamente e migra de vez para o íntimo de Elis. Marcada pelo fim do primeiro casamento e o início da relação da artista com o pianista César Camargo Mariano, a calmaria toma conta da minissérie, que segue sem se preocupar em mostrar devidamente o frenesi que invadia o país. </span></p>
<figure id="attachment_16650" aria-describedby="caption-attachment-16650" style="width: 564px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16650" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/elis-regina-filha-maria-rita-joc3a3o-boscoli.jpg" alt="Imagem de Elis regina com seus filhos. Ela está sentada em uma cadeira e segura Maria Rita, ainda pequena, em seu colo. Ao lado dela estão seus dois filhos mais velhos." width="564" height="430" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/elis-regina-filha-maria-rita-joc3a3o-boscoli.jpg 564w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/elis-regina-filha-maria-rita-joc3a3o-boscoli-300x229.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 564px) 85vw, 564px" /><figcaption id="caption-attachment-16650" class="wp-caption-text">Em entrevista a GZH, Andréia Horta afirmou sobre Elis: “Uma das coisas que mais mexeram com a minha cabeça é essa noção tão clara diante da história dela, de que o corpo, o coração e a vida podem parar a qualquer momento” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A madura e sossegada relação de cumplicidade entre Regina e César ganha ainda mais veracidade graças à sintonia trazida por Andréia e Caco Ciocler. Muito mais do que apenas um casal, podemos sentir e quase tocar aquela amizade pura que é acalentada por melodias como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=EIyyFyZtQzE"><i><span style="font-weight: 400;">Fascinação</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. De tão profunda, eles não tem escolha se não se entregarem de vez àquele amor construindo uma nova vida juntos. É a partir de então que a “Elis mãe” volta a aparecer, mas de uma forma bem diferente, mais serena e madura. Somos levados junto a ela em devaneios sobre seu papel como mulher e suas preocupações em fazer uma diferença real no mundo, agora que ela é mãe de </span><a href="http://personaunesp.com.br/segundo-maria-rita-15-anos/"><span style="font-weight: 400;">Maria Rita</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sabe dos percalços que sua filha vai enfrentar por conta do gênero. Essa perspectiva passa a dominar outros aspectos de sua vida, como sua carreira e até mesmo sua consciência política. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nessa direção é que a minissérie volta a pincelar a potência política de Elis, quando chegamos na década de 70 e a ousadia de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brillhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> começa a se acender em seu coração. O </span><a href="http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra70098/falso-brilhante"><span style="font-weight: 400;">projeto</span></a><span style="font-weight: 400;"> veio num outro momento de renovação da carreira da artista, que depois de encarar duras críticas e consequências pelo episódio das Olimpíadas Militares, juntou toda sua coragem para denunciar a situação que o artista brasileiro enfrentava naquele momento. Misturando críticas sociais com a sua própria história, Regina apostou todas as suas fichas ao colocar na estrada um espetáculo circense montado a partir do disco, e Andréa Horta, mais uma vez, imprime a alegria de Elis ao ver o projeto mirabolante se transformando em um sucesso, trazendo de volta sua aura característica enquanto o hino </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=2qqN4cEpPCw"><i><span style="font-weight: 400;">Como Nossos Pais</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> toca ao fundo.</span></p>
<figure id="attachment_16651" aria-describedby="caption-attachment-16651" style="width: 984px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16651" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/rita-lee-mel-lisboa-elis-regina-andreia-horta-3-.jpg" alt="Imagem da série na qual vemos Andréia Horta caracterizada de Elis. Ela está de perfil e veste um blazer preto e uma calça jeans estilo pantalona. Seus cabelos encaracolados estão soltos na altura do ombro e ela dá as mão a atriz Mel Lisboa, caracterizada como Rita Lee. A personagem de Mel está de perfil, tem os cabelos ruivos compridos e veste uma blusa vermelha e branca e uma calça marrom. " width="984" height="546" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/rita-lee-mel-lisboa-elis-regina-andreia-horta-3-.jpg 984w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/rita-lee-mel-lisboa-elis-regina-andreia-horta-3--300x166.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/rita-lee-mel-lisboa-elis-regina-andreia-horta-3--768x426.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16651" class="wp-caption-text">Fica claro na cena em que ela e Rita Lee se encontram que a arte de Elis excede as qualidades musicais para fazer parte de toda uma geração de artistas e mulheres que lutam por seus direitos (Foto: TV Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas apesar das diversas facetas as quais temos acesso,</span> <i><span style="font-weight: 400;">Elis &#8211; Viver é Melhor que Sonhar</span></i> <span style="font-weight: 400;">peca em sua constante necessidade de se apresentar da forma mais polida possível. Sem adentrar a fundo nos vícios em álcool e drogas da cantora e no contexto político em que ela e o país viviam, a série busca ao máximo trazer ao espectador uma Elis idealizada, e portanto, irreal. Os esforços da produção para entregar uma narrativa suavizada e um ambiente estéril alongam o caminho entre o público e a protagonista, que só se conectam graças à interpretação surreal de Andréa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os lapsos de tempo que constroem a minissérie são ao mesmo tempo fluidos e abruptos, edificando uma estrutura episódica que nos leva até o trágico desfecho da vida da cantora. Infelizmente, até mesmo neste momento de caos e emoções exacerbadas, o roteiro se prende a sua polidez. O que por um lado retira a visceralidade da situação &#8211; que poderia ser muito bem empregada ao se ater ao realismo dos fatos &#8211; , por outro acrescenta uma poesia e um romantismo dignos de Shakespeare a conclusão da história.</span></p>
<figure id="attachment_16726" aria-describedby="caption-attachment-16726" style="width: 627px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16726" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image4.jpg" alt="A imagem em branco e preto mostra Elis Regina cantando com um largo sorriso nos lábios e os olhos fechados. Seu cabelo preto está cortado bem curto e ela segura um microfone com a mão direita, na altura da boca." width="627" height="400" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image4.jpg 627w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image4-300x191.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-16726" class="wp-caption-text">A versão longa metragem da minissérie ganhou 8 categorias do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2017, entre eles Melhor Direção de Arte e Melhor Atriz para Andréia Horta (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Elis &#8211; Viver é Melhor que Sonhar</span></i><span style="font-weight: 400;"> funciona quase como um epílogo para a conturbada vida e carreira de Elis Regina. O recorte cintilante e envernizado entregue pela minissérie não cumpre com o acordo de veracidade firmado entre obra e espectador em seu início. A pitada de documentalismo, que é logo substituída pela licença poética, abre margem para que vejamos uma versão utópica, mas igualmente encantadora, da <em>Pimentinha do Brasil</em>, que completaria 75 anos neste ano de 2020. Mas ainda bem que nossa memória de Elis transcende qualquer retrato, se abrigando em cada verso e melodia que são até hoje criados e entoados a partir da influência de sua personalidade artística inesquecível, acendendo nossa lembrança fidedigna da artista que mudou a música brasileira para sempre. </span></p>
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