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	<title>Arquivos Andrea Barata Ribeiro &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>5 anos de Marighella e a contestação de uma narrativa única</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Nov 2024 20:01:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Maria Clara Alves Tão emblemática quanto polêmica, Marighella, cinebiografia dirigida por Wagner Moura, completa cinco anos em Novembro de 2024. Inspirado no livro Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães, o filme foi o primeiro trabalho do ator como diretor de Cinema e emplacou como uma de suas produções mais complexas, desafiadoras &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/5-anos-de-marighella-e-a-contestacao-de-uma-narrativa-unica-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "5 anos de Marighella e a contestação de uma narrativa única"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><figure id="attachment_34479" aria-describedby="caption-attachment-34479" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-34479" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-1-800x444.jpg" alt="[Texto alternativo: O ator Seu Jorge, interpretando Carlos Marighella, está localizado no centro da foto, olhando para seu filho Carlinhos, à esquerda. Ao fundo, há um céu nublado e acinzentado.]" width="800" height="444" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-1-800x444.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-1-768x426.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-1.jpg 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34479" class="wp-caption-text">A produção passa por quatro dos 58 anos vividos por aquele que era o ‘inimigo número um do Brasil’ (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure><b>Maria Clara Alves</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tão emblemática quanto polêmica, </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">, cinebiografia dirigida por Wagner Moura, completa cinco anos em Novembro de 2024. Inspirado no livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo,</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Mário Magalhães, o filme foi o primeiro trabalho do ator como diretor de Cinema e emplacou como uma de suas produções mais complexas, desafiadoras e, sobretudo, emocionantes. A partir do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=MEKNun7N9ns"><span style="font-weight: 400;">fascínio</span></a><span style="font-weight: 400;"> do cineasta por movimentos populares de resistência, fica claro que o longa-metragem</span> <span style="font-weight: 400;">foi pensado a partir da necessidade de recontar a história da Ditadura Militar por um ponto de vista mais </span><a href="https://www.significados.com.br/foice-e-o-martelo/"><span style="font-weight: 400;">vermelho</span></a><span style="font-weight: 400;"> e visceral.</span></p>
<p><span id="more-34474"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O Carlos Marighella da história nasceu em Salvador e foi o mais velho de oito irmãos. Seu pai, Augusto Marighella, era um imigrante italiano que veio para o Brasil em uma das </span><a href="https://www.todamateria.com.br/imigracao-no-brasil/#:~:text=Com%20a%20proibi%C3%A7%C3%A3o%20do%20tr%C3%A1fico,de%20imigrantes%20europeus%20no%20pa%C3%ADs."><span style="font-weight: 400;">ondas de incentivo à imigração</span></a><span style="font-weight: 400;"> após a abolição. No século XIX, sua mãe, Maria Rita dos Santos, era filha de escravos e tinha origem sudanesa, da etnia </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=mvCzydN5kak"><span style="font-weight: 400;">haussá</span></a><span style="font-weight: 400;">. Desde cedo, o menino se destacava pela </span><a href="https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/desventuras/e-ruim-em-exatas-faca-como-marighella-e-use-poesia-seu-favor.phtml"><span style="font-weight: 400;">habilidade com as palavras</span></a><span style="font-weight: 400;"> na escola. Anos mais tarde, ele teria se radicalizado e passado a militar como deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), com o qual </span><a href="https://memorialdademocracia.com.br/card/pcb-fecha-questao-contra-luta-armada"><span style="font-weight: 400;">rompeu</span></a><span style="font-weight: 400;"> após a renúncia de João Goulart. Depois, juntou-se à Aliança Nacional Libertadora (ANL), pela qual lutou até o ano da sua morte (1969).</span></p>
<p><figure id="attachment_34478" aria-describedby="caption-attachment-34478" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-34478" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-800x481.jpg" alt="[Texto alternativo: Na foto, há quatro pessoas enumeradas da esquerda para a direita, sendo elas Seu Jorge, Wagner Moura, Bruno Gagliasso e Bella Camero, segurando uma camiseta vermelha de tom vibrante com o rosto de Carlos Marighella. O fundo atrás é de cor azul e é do Festival Internacional de Cinema de Berlim.]" width="800" height="481" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-800x481.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-768x461.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-1200x721.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1.jpg 1265w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34478" class="wp-caption-text">Marighella teve sua primeira aparição em terras estrangeiras frente a conflitos com a Ancine em 2019 (Foto: John Macdougall/AFP)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Desde a sua idealização, o filme enfrentou </span><a href="https://www.omelete.com.br/especiais/wagner-moura-o-que-aconteceu-com-lancamento-de-marighella-foi-censura/"><span style="font-weight: 400;">grandes dificuldades</span></a><span style="font-weight: 400;"> relacionadas à  propagação de conteúdos falsos, ameaças e falta de apoio financeiro. A carreira consolidada de Wagner Moura no ramo da atuação pouco serviu como fator de convencimento para muitas das grandes e tradicionais produtoras cinematográficas do país, que buscavam não se associar com a figura do guerrilheiro – tido como </span><a href="https://pcb.org.br/portal2/31046"><span style="font-weight: 400;">revolucionário</span></a><span style="font-weight: 400;"> para algumas pessoas e </span><a href="https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/saiba-quem-foi-carlos-marighella-guerrilheiro-comunista-adepto-do-terror-na-luta-contra-a-ditadura,d2f152d4cf43cc8c3b17372f52f5d20cskntyhar.html"><span style="font-weight: 400;">terrorista</span></a><span style="font-weight: 400;"> para uma parcela muito maior dessas. </span><i><span style="font-weight: 400;">A </span></i><span style="font-weight: 400;">obra</span> <span style="font-weight: 400;">se desenrolou, de fato, sob o selo da produtora independente </span><i><span style="font-weight: 400;">O2 Filmes</span></i><span style="font-weight: 400;"> e foi exibida, pela primeira vez, em Fevereiro de 2019, no </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2019/02/15/wagner-moura-lanca-marighella-no-festival-de-berlim-e-posa-com-placa-de-marielle-franco.ghtml"><i><span style="font-weight: 400;">69° Festival Internacional de Cinema de Berlim</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, embora tenha estreado oficialmente nos cinemas brasileiros apenas em 2021.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2019, o longa tinha sido cancelado pela </span><a href="https://www.politize.com.br/ancine/#"><i><span style="font-weight: 400;">Agência Nacional de Cinema</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> (Ancine)</span></i><span style="font-weight: 400;"> devido à produtora não ter entregue a documentação sobre os investimentos que custearam o filme dentro do prazo. Ao mesmo tempo, a agência era </span><a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/19/se-nao-puder-ter-filtro-nos-extinguiremos-a-ancine-diz-bolsonaro.ghtml"><span style="font-weight: 400;">ameaçada de extinção</span></a><span style="font-weight: 400;"> caso o seu catálogo não fosse revisto. Isso foi mais uma adição à </span><a href="https://youtu.be/tnW3ErkJtO0?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">lista de dificuldades</span></a><span style="font-weight: 400;"> que quase custaram a estreia de </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><figure id="attachment_34477" aria-describedby="caption-attachment-34477" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-34477" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-800x487.jpg" alt="[Texto alternativo: Ao centro da foto, nota-se Carlos Marighella (Seu Jorge) vestindo uma regata branca com uma blusa azul claro de manga por cima. Ele aparenta estar conversando, dada a abertura da boca e a direção dos seus olhos. No fundo, há uma parede de tom esverdeado, devido à iluminação, com alguns objetos encostados nela, como um lampião, dois bastões e um vaso de planta.]" width="800" height="487" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-800x487.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-1024x623.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-768x468.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-1200x730.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1.jpg 1237w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34477" class="wp-caption-text">Os ideais de Marighella não morrem com ele, mas perseveram na rejeição (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Apesar da sua minutagem não comercial, o longa-metragem – distribuído em conjunto pela </span><i><span style="font-weight: 400;">Paris Filmes e Downtown Filmes</span></i><span style="font-weight: 400;"> – ganhou as salas de cinema por todo o Brasil e se consagrou como a </span><a href="https://blogdacidadania.com.br/2021/12/marighella-teve-1-16-do-publico-do-homem-aranha/"><span style="font-weight: 400;">maior bilheteria nacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de 2021. O roteiro, escrito por Wagner Moura em conjunto com o produtor Felipe Braga, trabalha com dois extremos do baiano: a afetuosidade com o filho e o desgosto, visível no olhar, com a figura dos militares. A expressividade do protagonista é, inclusive, um dos pontos de destaque da trama. Os olhos profundos e penetrantes de Seu Jorge se destacam nas cenas em que o ator está presente e conferem camadas de sensibilidade à personagem, cativando o público e instigando a afinidade dele com Marighella.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A sucessão rápida e violenta das cenas fomenta sensações de ansiedade e tensão no espectador, com o objetivo de transmitir a adrenalina, o amor pelo próprio país e o medo das personagens. As câmeras são rápidas para acompanhar os momentos de embate e fuga dos combatentes, mas também conseguem </span><a href="https://youtu.be/OIxAan_abLw?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">captar fielmente a essência</span></a><span style="font-weight: 400;"> de cenas mais paradas de diálogo, com sombreados sempre presentes e que se tornam responsáveis pela carga de seriedade. A narrativa progride com a execução de membros da ALN: primeiro Maria (Ana Paula Bouzas), depois Guilherme (Guilherme Ferraz), Rafael (Rafael Lozano), Humberto (Humberto Carrão), Jorge (Jorge Paz) e Jorge Salles (Herson Capri).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Era questão de tempo para que as autoridades chegassem até o protagonista e a ambientação, marcada pelo maior contraste das cores e iluminação escurecida, também incita essa agonia. O </span><a href="https://youtu.be/PK8bJq4Qcx0?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">trabalho com as câmeras</span></a><span style="font-weight: 400;"> – com direção de Adrian Teijido – e o uso dos diferentes tipos de luz foram essenciais para acompanhar toda a dinamicidade da luta armada no ambiente urbano. Além disso, o trabalho de produção, coordenado por Andrea Barata Ribeiro e Bel Berlinck, contou com muitas cenas gravadas no período da noite, quando a penumbra intensifica as expressões das personagens e as sensações incitadas no público.</span></p>
<p><figure id="attachment_34476" aria-describedby="caption-attachment-34476" style="width: 480px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34476" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-4.gif" alt="[Texto alternativo: O GIF mostra um recorte do trailer oficial do filme Marighella, em que o guerrilheiro (Seu Jorge) está olhando fixamente para a câmera e se aproxima enquanto ela o grava. Há um fundo amarronzado, borrado e escuro por trás da personagem. Em seguida, os nomes do diretor e do longa são exibidos.]" width="480" height="254" /><figcaption id="caption-attachment-34476" class="wp-caption-text">Os olhos de Seu Jorge interpelam o espectador a não desviar o seu olhar nem por um segundo (GIF: O2 Filmes)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">A cinebiografia trabalha com a ideia de contrastes que vai sendo retomada sucessivamente ao decorrer do filme, a exemplo da representação do baiano, que levava a frase ‘</span><i><span style="font-weight: 400;">olho por olho</span></i><span style="font-weight: 400;">’ como um mantra para tomar decisões, até a memória dos momentos que a personagem compartilha com Carlinhos, seu único filho. A </span><a href="https://youtu.be/f-Ahp2_1Gcs?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">conexão</span></a><span style="font-weight: 400;"> entre pai e filho – mesmo com a distância e a perseguição política – é frequentemente retomada na trama, sendo fundamental para mostrar o </span><a href="https://revistacontinente.com.br/secoes/entrevista/wagner-moura-e-seu-jorge-falam-sobre--marighella-"><span style="font-weight: 400;">lado humano</span></a><span style="font-weight: 400;">, muitas vezes, negado de Carlos Marighella, que se contrapõe à sua representação depreciativa no imaginário coletivo brasileiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O fardo da morte, em</span><i><span style="font-weight: 400;"> Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">, é tratado da forma mais fria possível. O lado amargo da luta armada é retratado a todo momento ao mostrar a </span><a href="https://memoriasdaditadura.org.br/repressao-e-violacao-de-direitos-humanos/"><span style="font-weight: 400;">discrepância</span></a><span style="font-weight: 400;"> entre guerrilheiros e militares, esses que tinham todo o aparato bélico e midiático a seu favor. A ambientação sombria das cenas evidencia a solidão e desumanização dos combatentes que, enquanto questionadores, não eram vistos e nem tratados como brasileiros. A angústia e melancolia tomam conta do enredo e de quem o assiste como uma neblina, dificultando a digestão de cenas mais leves, que se tornam cada vez mais escassas frente às diversas cenas gráficas de violência.</span></p>
<p><figure id="attachment_34475" aria-describedby="caption-attachment-34475" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34475" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-5-1.jpg" alt="[Texto alternativo: À direita da fotografia, o ator Seu Jorge, interpretando Carlos Marighella, carrega seu filho nos braços, que os envolvem no pescoço. O adulto está de cabeça baixa, enquanto a criança observa a passagem de militares pelas ruas do Rio de Janeiro.]" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-5-1.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-5-1-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34475" class="wp-caption-text">A produção tem grande carga emocional por explorar os lados de um Carlos Marighella guerrilheiro, marido e pai (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">O lado humano de Marighella é explicitado, principalmente, nas trocas que ele tem com </span><a href="https://www.metro1.com.br/noticias/bahia/147837,tive-a-sorte-de-ser-filho-de-marighella-e-nao-pude-desfrutar-dele-diz-filho-do-guerrilheiro-morto-durante-a-ditadura-militar"><span style="font-weight: 400;">Carlinhos</span></a><span style="font-weight: 400;">, levando-o no peito e no pensamento. Ainda que vivesse como fugitivo, o guerrilheiro fez do amor de seu filho o seu norte, direção que seguiu até o final de sua vida. A narrativa não linear faz um trabalho excepcional ao retratar os acontecimentos com alguns pensamentos e comentários do protagonista, possibilitando a compreensão aprofundada das múltiplas faces de uma das figuras mais polêmicas do Brasil até hoje.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;"> passa obrigatoriamente pelo campo de debate político e dialoga com aqueles que têm interesse em conhecer os valores de uma das pessoas mais </span><a href="https://diplomatique.org.br/marighella-entre-o-fato-a-fake-news-e-a-ficcao/"><span style="font-weight: 400;">controversas</span></a><span style="font-weight: 400;"> do país, seja para questioná-la ou admirá-la. Apesar do salto temporal do enredo para os dias atuais, muitas questões permanecem as mesmas, especialmente a distorção dos fatos sobre o revolucionário. A obra conseguiu entregar uma cinebiografia condizente com a história conturbada e mal interpretada de Carlos, permanecendo como uma crítica ácida à sociedade brasileira.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Marighella | Trailer Oficial" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/fd8oX1u8gRA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Wagner Moura faz de Marighella uma experiência coletiva</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Nov 2021 16:36:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitor Evangelista 52 anos se passaram desde que Carlos Marighella foi alvejado por tiros em uma emboscada, dentro de um carro na Alameda Casa Branca, em São Paulo. O momento, marcado para sempre nos livros de História como mais um dos massacres políticos e sociais da Ditadura Militar, agora é transposto às telas da ficção, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/marighella-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Wagner Moura faz de Marighella uma experiência coletiva"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24928" aria-describedby="caption-attachment-24928" style="width: 1086px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24928" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra Seu Jorge, um homem negro e adulto, com o filho no colo, uma criança que usa camisa branca e se abraça ao pescoço do pai. A cena é de dia e ao fundo vemos árvores e carros." width="1086" height="652" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um.jpg 1086w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24928" class="wp-caption-text">A coletiva de imprensa de Marighella ocorreu no Cine Marquise, na Avenida Paulista, à duas quadras de distância do local onde o Guerrilheiro foi assassinado em 1969 (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><strong>Vitor Evangelista</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">52 anos se passaram desde que </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/11/04/marighella-historia-quem-foi.htm"><span style="font-weight: 400;">Carlos Marighella</span></a><span style="font-weight: 400;"> foi alvejado por tiros em uma emboscada, dentro de um carro na Alameda Casa Branca, em São Paulo. O momento, marcado para sempre nos livros de História como mais um dos massacres políticos e sociais da Ditadura Militar, agora é transposto às telas da ficção, na dolorosa constatação de que o Brasil de 1969 dialoga com eloquência e pesar com o país de 2021. </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">, cinebiografia do </span><a href="https://traduagindo.com/2021/05/08/entrevista-com-carlos-marighella/"><span style="font-weight: 400;">Guerrilheiro que Incendiou o Mundo</span></a><span style="font-weight: 400;">, aposta no Cinema de ação e revolta para, em meio ao banho de sangue e lágrimas, exprimir esperança.</span></p>
<p><span id="more-24927"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A árdua tarefa de transformar a vida e a morte de Carlos Marighella em Arte não é recente. Na verdade, a ideia surgiu em 2013, como revelou o diretor Wagner Moura no evento de pré-estreia que aconteceu em São Paulo, no Cine Marquise da Avenida Paulista, no fim de outubro. Quando entrou em contato com o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=BsmGBsfrVEU"><span style="font-weight: 400;">livro de Mário Magalhães</span></a><span style="font-weight: 400;">, a decisão de ter alguém de esquerda e baiano no comando da produção pareceu uma combinação mágica para o ator, que sempre teve vontade de assumir o posto da direção, mas achou que o faria com uma obra menor, focada em poucos personagens e em uma história mais simples.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E simples não é nem de longe sinônimo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">. A publicação de Magalhães se estende por centenas e centenas de páginas, mas o recorte de Moura foi astuto o bastante para entender o recado. Ele queria, a princípio, devolver ao imaginário popular essa figura que foi amaldiçoada, e, fascinado por histórias de revolta, encontrou nesse filme o veículo ideal para unir o útil ao agradável. É certo que sua escolha inicial para viver o protagonista acabou não indo para frente e, após a saída de Mano Brown, o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=5Os1zJQALz8"><span style="font-weight: 400;">poeta lutador</span></a><span style="font-weight: 400;"> que não fazia concessões, chegou Seu Jorge.</span></p>
<figure id="attachment_24929" aria-describedby="caption-attachment-24929" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24929" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra o protagonista Seu Jorge usando terno e sentado, olhando para a frente com a cara fechada. Ele é um homem adulto, de pele negra e cabelos pretos." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24929" class="wp-caption-text">O filme dilui os posicionamentos comunistas de Carlos Marighella, pintando uma imagem mais forte de patriota e nacionalista do militante (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Também presente na coletiva, o artista não poupou elogios ao trabalho do diretor e foi muito sincero na hora de colocar em palavras o que atuar em </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">significava para sua própria jornada de reconexão com o Brasil, país pelo qual é apaixonado e se encontrava distante. Esse fogo de ardência é sentido em cada uma de suas preciosas e carregadas cenas. Quando banha seu filho Carlinhos no mar, numa construção que brinca com o </span><a href="https://personaunesp.com.br/moonlight-kendrick-lamar/"><span style="font-weight: 400;">batismo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Moonlight</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, Seu Jorge já anuncia que as próximas duas horas e quarenta serão constituídas de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=f8tXFV_bkPU"><span style="font-weight: 400;">fortes emoções</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história se divide em duas. Mesclando momentos em 1964, após a instauração do golpe apoiado pelos EUA, e em 1968, logo depois de Marighella cofundar a Ação Libertadora Nacional (ALN). Dessa forma, a direção de Moura, em conjunto ao roteiro escrito por ele e </span><a href="https://vimeo.com/225578736"><span style="font-weight: 400;">Felipe Braga</span></a><span style="font-weight: 400;">, se priva de perpassar cada momento da criação e amadurecimento do protagonista, dando fôlego e tempo de tela para os dilemas de um Marighella envelhecendo, além de manejar com destreza o desenvolvimento de alguns coadjuvantes. Em 64, Seu Jorge é eufórico e a preocupação de revolta floresce por seus expressivos olhos. A maior qualidade dessa atuação, entretanto, se reserva aos momentos de calmaria, quando o ator abaixa a guarda.</span></p>
<figure id="attachment_24930" aria-describedby="caption-attachment-24930" style="width: 1046px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24930" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra Seu Jorge em foco, de lado, e Humberto Carrão, branco e de barba preta. ao fundo desfocado." width="1046" height="638" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres.jpg 1046w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres-800x488.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres-1024x625.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres-768x468.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24930" class="wp-caption-text">Wagner Moura ilumina a figura da Religião e a importância dos freis dominicanos na luta contra a Ditadura Militar, ressaltando a coragem dos homens e a crueldade a que foram submetidos (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para viver um </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/10/seu-jorge-diz-que-ataques-a-marighella-sao-racistas-e-pais-nao-sabe-lidar-com-isso.shtml"><span style="font-weight: 400;">homem negro</span></a><span style="font-weight: 400;"> de pele clara, a escalação de Seu Jorge causou um rebuliço na mídia, visto que o ator tem a pele retinta. Na exibição para a imprensa, Wagner Moura detalhou o processo de </span><i><span style="font-weight: 400;">casting</span></i><span style="font-weight: 400;"> e que o objetivo era</span><i><span style="font-weight: 400;"> “empretecer”</span></i><span style="font-weight: 400;"> Marighella, neto de escravos sudaneses e filho de uma mãe nascida no ano da abolição. A </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/como-homem-negro-de-50-anos-tenho-questoes-diz-seu-jorge-interprete-de-marighella-pixinguinha-no-cinema-25255500"><span style="font-weight: 400;">questão racial</span></a><span style="font-weight: 400;"> era intrínseca à vivência e a luta do baiano, e enquanto a produção enfatiza esse ponto de tensão, ela acaba também diluindo outra de suas características de formação: o </span><a href="https://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/carlos-marighella/"><span style="font-weight: 400;">comunismo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Por mais que o roteiro deixe de escanteio os ideais do protagonista, quem conhece a História tem noção de sua posição marxista-leninista, e dos objetivos do combate à Ditadura Militar. Além da busca por igualdade e justiça, a ALN enxergava a necessidade da luta armada como caminho para a instalação de um governo popular revolucionário no Brasil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No contraste, </span><a href="https://www.omelete.com.br/especiais/entrevista-bruno-gagliasso-marighella/"><span style="font-weight: 400;">Bruno Gagliasso</span></a><span style="font-weight: 400;"> encarna a escória do mundo na figura de Lúcio, policial que vai à caça dos militantes e guerrilheiros. O personagem, embora tenha outro nome, é a representação de </span><a href="https://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-ditadura/delegado-fleury/"><span style="font-weight: 400;">Sérgio Fleury</span></a><span style="font-weight: 400;">, delegado responsável por arquitetar a morte de Marighella. Quando perguntado na coletiva de que maneira deu nuances ao mal absoluto, o global revelou a dificuldade de se preparar para o papel. Pai de crianças negras, ele interpreta um racista e fascista desmedido, raivoso e violento. Gagliasso não opta pelo óbvio quando vocifera cada uma das ofensas cuspidas em tela, ele abraça o lado político da empreitada, contornando sua atuação ao redor da denúncia e do imediatismo do </span><a href="https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2021/10/19/bolsonaro-nega-ter-culpa-pela-crise-ache-um-cara-melhor.htm"><span style="font-weight: 400;">Brasil de 2021</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_24931" aria-describedby="caption-attachment-24931" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24931" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro.jpeg" alt="Cena noturna do filme Marighella, mostra vários homens com armas apontadas para um mesmo lugar, atirando." width="2560" height="1404" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro.jpeg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-800x439.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-1024x562.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-768x421.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-1536x842.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-2048x1123.jpeg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-1200x658.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24931" class="wp-caption-text">Embora demore a mostrar em tela as torturas da Ditadura, quando o filme dedica uma longa sequência ao momento, ele não poupa o teor da brutalidade e da violência (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/01/14/marighella-nao-e-caso-isolado-cultura-esta-sob-censura-diz-wagner-moura.htm"><span style="font-weight: 400;">censura</span></a><span style="font-weight: 400;"> que atingiu o filme não foi acaso do destino. Como efeito cascata, Wagner Moura insistiu em catalogar esse bolsão de caos político entre os anos 13 e 21, desde as </span><a href="https://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2018/06/manifestacoes-de-junho-de-2013-completam-cinco-anos-o-que-mudou.html"><span style="font-weight: 400;">Manifestações de Junho</span></a><span style="font-weight: 400;">, o </span><a href="https://personaunesp.com.br/democracia-em-vertigem-critica/"><span style="font-weight: 400;">Golpe de 2016</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a eleição de Bolsonaro dois anos mais tarde, até chegar ao hoje, </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2021-04-16/inacao-e-desinformacao-do-governo-bolsonaro-agravam-a-pandemia-no-brasil.html"><span style="font-weight: 400;">pandêmico</span></a><span style="font-weight: 400;">, enclausurado, natimorto. Quando subiu ao poder, o presidente não demorou a </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/em-ofensiva-contra-ancine-bolsonaro-corta-43-de-fundo-do-audiovisual.shtml"><span style="font-weight: 400;">cortar verbas da Cultura</span></a><span style="font-weight: 400;">, e a Ancine, agência responsável pela retomada e pela frutífera colheita do </span><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-lirio-ferreira/"><span style="font-weight: 400;">Cinema nacional pós-anos 90</span></a><span style="font-weight: 400;">, acabou inerte, dormente, sangrando. </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">estreou em 2019, no </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2019/02/15/wagner-moura-lanca-marighella-no-festival-de-berlim-e-posa-com-placa-de-marielle-franco.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Festival de Berlim</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas só pôde prestigiar uma exibição na terra que o concebeu dois anos depois.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A projeção no Cine Marquise foi a segunda coletiva do longa, depois daquela inaugural na </span><a href="https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/02/14/marighella-e-aplaudido-pelo-publico-em-1-exibicao-no-festival-de-berlim.htm"><span style="font-weight: 400;">Alemanha</span></a><span style="font-weight: 400;">. A produtora Andrea Barata Ribeiro foi enfática quando detalhou os percalços enfrentados pelo filme, desde pedidos negados pela Ancine (em um momento onde Bolsonaro enfatizava que </span><a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/19/se-nao-puder-ter-filtro-nos-extinguiremos-a-ancine-diz-bolsonaro.ghtml"><span style="font-weight: 400;">filtraria o que achasse necessário</span></a><span style="font-weight: 400;">) até a dificuldade de entrar em cartaz. Ano passado, a ideia era um lançamento no Dia da Consciência Negra, que acabou não ocorrendo. Esse ano, eles conseguiram chegar em Novembro, mês simbólico para tudo que </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">significa. </span></p>
<figure id="attachment_24932" aria-describedby="caption-attachment-24932" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24932" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/cinco.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra Adriana Esteves sentada e olhando para a janela. Ela é branca, tem cabelos escuros e é iluminada pela luz do sol que entra pela janela." width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-24932" class="wp-caption-text">Adriana Esteves teve o prazer de visitar a dona Clara da vida real e relatou que a presença de Marighella na residência da mulher é gigantesca: “a impressão é que ele vai tocar a campainha” (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de ser uma ficção que coloca lentes dramáticas na jornada dos guerrilheiros, </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">precisava funcionar como filme. Por mais que nem todos os acontecimentos tenham de fato acontecido, Wagner Moura enfatiza que eles são plausíveis para aqueles personagens. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DCFttf8ZgfY"><span style="font-weight: 400;">Maria Marighella</span></a><span style="font-weight: 400;">, atriz e neta de Carlos, é quem simboliza na carne esse elo forte com a realidade. Ela interpreta sua própria avó Elza, a mãe de seu pai, e faz da pequena presença na rodagem um dos corações pulsantes da obra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sua contraparte, e espécie de irmã de alma, é Clara, personagem de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=i33O69m4Ci0"><span style="font-weight: 400;">Adriana Esteves</span></a><span style="font-weight: 400;">, esposa de Marighella. A atriz, que assistiu ao longa pela primeira vez apenas dois dias antes da exibição na Avenida Paulista, tinha emoção no olhar quando ressaltou o poder do amor de um filme como esse, o poder de empatia e de esperança manufaturado pela visão do diretor. O exemplo mais claro fica perto da conclusão, quando depois de morto, Marighella tem sua foto exibida em uma redação de jornal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lá, Carlinhos e sua mãe se chocam com o terror da realidade. Na hora em que Moura parece que cortará para o preto e dará por encerrada a experiência de quase 3 horas, o diretor, então aliado à montagem de Lucas Gonzaga, nos transporta para a residência de Clara. Esteves, aflita e absorta, quase que sentindo o momento sem ao menos ter a confirmação do assassinato, abraça o espectador. Ela sofre, chora, se conecta à personagem de Maria Marighella sem a necessidade de compartilhar o espaço físico. A </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LQeqMMI1m9M"><span style="font-weight: 400;">força</span></a><span style="font-weight: 400;"> dessa decisão de Moura é sentida em segundo plano, correndo pelas beiradas. </span></p>
<figure id="attachment_24933" aria-describedby="caption-attachment-24933" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24933" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra de perfil o ator Bruno Gagliasso urinando na parede. Está de dia e a câmera mostra apenas seu rosto e ombros, mas seus olhos miram o chão. " width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24933" class="wp-caption-text">No exercício de entregar o filme para as comunidades da qual Marighella fez parte, o longa teve exibições especiais na companhia da Coalizão Negra Por Direitos, além de uma pré-estreia na Bahia, terra natal do protagonista (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O contraste de gerações entre Marighella e os companheiros de luta pode parecer desencaixado à princípio, mas é uma deliberação proposital. Com a Arte acostumada a representar seus militantes jovens demais, o filme coloca esse homem de cinquenta anos para liderar uma galera que mal chegou aos trinta. O </span><a href="https://www.marxists.org/portugues/marighella/1969/manual/index.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1969), como bem relembra Maria Marighella em sua fala sobre a importância da juventude, dá “funções” a cada um dos grupos, dos artistas, aos estudantes e aos cidadãos “comuns”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Colocar em cena Seu Jorge ao lado de nomes como Humberto Carrão, Bella Camero e Jorge Paz serve para mostrar que essas pessoas tinham vidas, sonhos felizes, trabalhos ordinários e muito a perder. </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/humberto-carrao-nao-sei-jogar-jogo-das-celebridades-nem-quero-1-24209398"><span style="font-weight: 400;">Carrão</span></a><span style="font-weight: 400;">, escondido por uma barba espessa e uma camada de suor que o camufla em cena, vive pela euforia do grito e da rebelião. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=HRGyhfZCXGU"><span style="font-weight: 400;">Camero</span></a><span style="font-weight: 400;"> tem a sensatez aliada ao fogo da inquietação, e </span><a href="https://www.metropoles.com/entretenimento/cinema/ator-da-periferia-do-df-supera-dificuldades-e-e-destaque-em-marighella"><span style="font-weight: 400;">Paz</span></a><span style="font-weight: 400;">, o coadjuvante mais importante do longa, cultiva o medo do amanhã pela família e a destreza do hoje pela verdade e pela justiça. Quando o filme poda cada uma de suas raízes, o sentimento de amargor é sinônimo de melancolia, mas nunca de derrota.</span></p>
<figure id="attachment_24934" aria-describedby="caption-attachment-24934" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24934" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra o ator Humberto Carrão com um jornal na mão e fumando na calçada. Ele é branco, tem barbas e cabelos volumosos e escuros e usa uma camisa estampada marrom com o botão de cima aberto." width="1200" height="667" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete-800x445.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete-1024x569.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete-768x427.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24934" class="wp-caption-text">Embora tenha sido exibido ao mesmo tempo em que rolava a 45ª Mostra de SP, Wagner Moura disse que o filme “foi evitado” pela organização do Festival, que prezava por longas inéditos em sua programação (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A experiência coletiva que </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">aflora mora no debate, na troca de ideias e na propagação do senso de luta. Não cabe apontar o que o filme “adaptou corretamente” a história ou julgar as liberdades tomadas pela Sétima Arte. Tendo como objetivo primário funcionar dentro do gênero da ficção, </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">não pinta seu protagonista como herói demais, ou vilão de menos. Seu Jorge dá vida a um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=fd8oX1u8gRA"><span style="font-weight: 400;">homem repleto de falhas e sonhos</span></a><span style="font-weight: 400;">, que encontrava na agitação e na manifestação a única maneira de pregar seus ideais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><a href="https://www.instagram.com/p/CSSlAR6rKGT/"><span style="font-weight: 400;">Cinema no Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;">, como em qualquer outro lugar do mundo, vem munido de ideologias e comentários sociais. Mas, se quem assiste acredita que a luta pelos direitos sociais, a igualdade, o antifascismo e o </span><a href="https://www.ecycle.com.br/antirracista/"><span style="font-weight: 400;">antirracismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> são “manobras de esquerda” ou “posições radicais de doutrinação”, o problema não está dentro das quase três horas de realização cinematográfica. </span></p>
<figure id="attachment_24935" aria-describedby="caption-attachment-24935" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24935" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/oito.jpg" alt="Cena do filme Marighella. A foto em preto e branco mostra Seu Jorge em pé e olhando para o lado, usando camisa branca." width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-24935" class="wp-caption-text">Recentemente, o <a href="https://istoe.com.br/193279_A+FARSA+NA+MORTE+DE+MARIGHELLA+/">fotógrafo Sérgio Jorge</a> realizou uma encenação da pose real de Marighella assassinado no veículo, mostrando uma versão diferente da veiculada pelos militares (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Anos depois de dar vida a um </span><a href="https://personaunesp.com.br/cidade-de-deus-tropa-de-elite/"><span style="font-weight: 400;">Capitão Nascimento</span></a><span style="font-weight: 400;"> que se tornou bandeira de uma direita autoritária e violenta e a um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LxuIhjvhePA"><span style="font-weight: 400;">Pablo Escobar</span></a><span style="font-weight: 400;"> que caia facilmente na visão norte-americana de gato e rato, hoje Wagner Moura realiza um Cinema de ação com significado e mensagem mais delimitados. Ele não faria um filme deste calibre e com essa pegada se não fosse orgânico ao material base, como ressaltou na coletiva, definindo a obra como um híbrido de gêneros.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Extrapolando o meio-termo entre o surreal e o mundano, o filme ensurdece pelo desenho de som altíssimo e que valoriza cada caixinha da sala de cinema. Mas o absurdo tempo do corte final enfraquece uma obra que poderia chegar ao mesmo lugar (ou até a um patamar elevado) com muitos minutos a menos. Como diretor de primeira viagem, Wagner Moura faz o primordial aqui: </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/marighella-ja-filme-brasileiro-mais-assistido-em-2021-apos-quatro-dias-nos-cinemas-25265660"><span style="font-weight: 400;">coloca o filme na boca do povo</span></a><span style="font-weight: 400;">, se estica para além do telão branco e se senta ao lado do espectador, plantando dúvidas, opiniões e fomentando o que o Cinema sempre se prestou a fazer, mudar perspectivas e criar sensações. </span></p>
<figure id="attachment_24936" aria-describedby="caption-attachment-24936" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24936" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/nove.png" alt="Foto da coletiva de imprensa, mostra os atores, produtores e roteiristas posando para a foto, reunidos e todos de máscara" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/nove.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/nove-768x432.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-24936" class="wp-caption-text">A coletiva de Marighella aconteceu dia 29 de outubro, no Cine Marquise da Avenida Paulista, com a presença do elenco, produtora, roteiristas e do diretor do filme (Foto: <a href="https://almapreta.com/sessao/cultura/marighella-estreia-nos-cinemas-um-filme-sobre-esperanca-diz-wagner-moura">Alma Preta</a>)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">é barulhento, essencialmente violento e tem em sua formação uma mensagem de motim que, sem problemas ou empecilhos, conversa com o Brasil governado por Bolsonaro mas gerido pelo caos. Vai incomodar, </span><a href="https://portalpopline.com.br/imdb-identifica-mutirao-notas-baixas-marighella/"><span style="font-weight: 400;">vai ser incomodado</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sinaliza uma marca para o Cinema “popular”, já carregada por produções sem o mesmo alcance ou interesse da audiência. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para efeito de comparação, no mesmo mês em que </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">preencheu suas cerca de trezentas salas, </span><a href="https://www.otempo.com.br/diversao/potente-e-necessario-cabeca-de-nego-estreia-nos-cinemas-nesta-quinta-1.2558528"><i><span style="font-weight: 400;">Cabeça de Nêgo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, filme que também lida com questões raciais em um Brasil ebulindo, mal chegou a compor notas de rodapé. A </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/marighella-cena-pos-creditos"><span style="font-weight: 400;">cena pós-créditos</span></a><span style="font-weight: 400;">, nascida de um improviso do elenco, é o clímax da paixão dos realizadores. Tomando de solavanco o hino nacional, há muito nos surrupiado, os atores colocam para fora o sentimento de nacionalismo apagado quando o assunto é comunismo, o bicho-papão do século XXI. Os guerrilheiros amavam o Brasil, Carlos Marighella amava o Brasil, </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/wagner-moura-esclarece-cena-pos-credito-de-marighella.phtml"><span style="font-weight: 400;">Wagner Moura ama o Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
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