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	<title>Arquivos Ana Flávia Cavalcanti &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Criadas: o racismo sob uma lente intimista e familiar</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Nov 2025 14:05:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Mariana Bezerra  E quando a empregada ‘da família’ é, de fato, uma parente? Criadas faz parte da programação da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo na seção Mostra Brasil. O filme mergulha em uma história familiar para explorar as feridas – ainda abertas – do Brasil em relação ao racismo e à escravidão. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/criadas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Criadas: o racismo sob uma lente intimista e familiar"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36319" aria-describedby="caption-attachment-36319" style="width: 770px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-36319" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-10.png" alt="Cena do filme Criadas. Duas crianças estão deitadas lado a lado, uma usando camiseta azul e a outra rosa- escuro (Sandra e Mariana, da esquerda para direita). A primeira é negra de pele retinta e a outra, também tem a pele negra, mas de um tom mais claro. A primeira tem o cabelo castanho trançado e a outra cabelo crespo ornamentado com fivelas coloridas. Uma mão adulta repousa sobre a cabeça de uma delas." width="770" height="323" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-10.png 770w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-10-768x322.png 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36319" class="wp-caption-text">Criadas explora uma relação que carrega feridas e conflitos surgidos na infância e originários de uma herança histórica (Foto: Vitrine Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Bezerra </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E quando a empregada ‘da família’ é, de fato, uma parente?</span> <a href="https://mostra.org/filmes/criadas"><i><span style="font-weight: 400;">Criadas</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">faz parte da programação da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;"> na seção Mostra Brasil. O filme mergulha em uma história familiar para explorar as feridas – ainda abertas – do Brasil em relação ao racismo e à escravidão. O longa foi eleito pelo público como Melhor Filme Brasileiro de Ficção na </span><a href="https://mostra.org/jornal-da-mostra/filmes-premiados-da-49a-mostra"><span style="font-weight: 400;">premiação</span></a><span style="font-weight: 400;"> do festival. Não é à toa, uma vez que a história das primas Sandra (Vitória Rodrigues, na versão infantil) e Mariana (Alice Feitosa, na versão infantil) e suas famílias atravessa temas tão caros ao país. Elas cresceram juntas, mas não em uma típica relação: a mãe de Sandra era empregada da casa da irmã e, após anos, essa menina, agora uma adulta, retorna para São Paulo para assumir um emprego e buscar informações sobre a mãe desaparecida.</span><span id="more-36318"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes mesmo de roteiro e atuações entrarem em cena, a obra de Carol Rodrigues já se destaca pelo uso de símbolos, sendo o mais marcante deles o quadro </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/conheca-tela-redencao-de-cam-de-1895-destaque-em-mostra-no-mnba-22740416"><i><span style="font-weight: 400;">A redenção de Cam</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1895)</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">de Modesto Brocos, em que há um bebê e um homem branco, uma senhora de pele retinta e uma mulher mais nova e também negra, mas de tom mais claro. A tela apresenta uma família ‘embranquecida’ por uma política eugenista de embranquecimento da população, além de uma avó que ergue as mãos ao céu em agradecimento. A figura serve como ilustração para a relação de Mariana (</span><a href="https://personaunesp.com.br/casa-de-antiguidades-critica/"><span style="font-weight: 400;">Ana Flavia Cavalcanti</span></a><span style="font-weight: 400;">) e Sandra (Mawusi Tulani), sendo a primeira uma mulher negra de pele mais clara, que cresceu em uma realidade privilegiada, enquanto a segunda, de pele retinta, viveu em uma condição de servidão à prima. Nessa exposição detalhista e orquestrada, a fotografia, assinada por Julia Zakia, cumpre o seu papel com primor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desde o início, a relação das duas mulheres – muito bem exposta pelas performances incríveis das protagonistas – parece conturbada, permeada pelos fantasmas da infância. Nesse caso, ‘fantasmas de carne e osso’, como a mãe de Sandra os chamava. Essas lendas infantis ganham vida na trama, como se os traumas nunca tivessem sido superados. As vozes e as figuras das meninas enquanto crianças ecoam pela casa, resgatando </span><a href="https://personaunesp.com.br/novembro-tenta-honrar-as-memorias-do-passado-mas-sucumbe-na-superficialidade/"><span style="font-weight: 400;">memórias</span></a><span style="font-weight: 400;">, como a do chamado de Mariana pela prima, enquanto a personagem de Tulani tentava estudar ou desempenhar outra atividade que não fosse servir àquela família. Esse cenário chama a atenção para a repetição dessa realidade, quase como num círculo vicioso: sempre que Sandra está feliz, tem uma boa notícia sobre o emprego ou mesmo está ocupada em seu projeto, Mariana tem alguma demanda a ser sanada. Esse contexto parte de um roteiro carregado de sentimento e, também, ironias e complexidade, o qual parece se arriscar sem medo em explorar contradições múltiplas.</span></p>
<figure id="attachment_36320" aria-describedby="caption-attachment-36320" style="width: 574px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-36320" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-9.jpg" alt="Cena do filme Criadas. Mariana, uma mulher negra, de cabelos castanhos e crespos e presos, está sentada, olhando atentamente para alguém que não aparece na imagem. Ela usa uma blusa marrom com babados nas mangas e tem expressão séria. Ao fundo, aparecem plantas verdes desfocadas." width="574" height="241" /><figcaption id="caption-attachment-36320" class="wp-caption-text">Ana Flávia Cavalcanti entrega uma performance brilhante como Mariana em Criadas (Foto: Vitrine Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">No que diz respeito às temáticas abordadas no filme, é interessante que o realismo fantástico tenha sido inserido no texto. Primeiramente, a cineasta abre espaço para que racismo e colorismo sejam vistos a partir dos olhares e através do sentimento das personagens. Por outro lado, esse resgate de memórias e a convivência com os tais fantasmas criam uma metáfora que aponta para algo amplo: mais do que aludir a vivências pessoais, </span><i><span style="font-weight: 400;">Criadas </span></i><span style="font-weight: 400;">coloca em cena os fantasmas da escravidão e a ancestralidade marcada por questões políticas e sociais, cujas consequências reverberam até hoje na sociedade brasileira, como a grande problemática da empregada </span><a href="https://rollingstone.com.br/noticia/idomesticai-que-estreia-nesta-sexta-3-leva-adiante-discussao-dos-empregados-domesticos-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">doméstica</span></a><span style="font-weight: 400;"> – na grande maioria das vezes negra – que é considerada ‘da família’. Aqui, o texto de Carol Rodrigues se vale dessas questões para expor o enraizamento do racismo e as dificuldades de falar sobre ele também em famílias negras. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em seu primeiro longa, </span><a href="https://rsscarol.com/bio"><span style="font-weight: 400;">Rodrigues</span></a><span style="font-weight: 400;"> trabalha muito bem com a ambientação, uma vez que a casa serve de espaço para o retorno e afloramento dessas lembranças. Além disso, a imagem é bem construída através da iluminação e do som, que acompanha os tons melancólicos e de suspense do roteiro. Nos momentos em que o enredo se afasta desses aspectos e aborda a sensualidade das personagens ou introduz  cenas carregadas de outros tipos de tensão, os efeitos sonoros e a trilha sonora conseguem acompanhar essas flutuações de maneira harmônica.</span></p>
<figure id="attachment_36321" aria-describedby="caption-attachment-36321" style="width: 574px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-36321" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-11.jpg" alt="Cena do filme Criadas. Sandra, uma mulher de pele negra e cabelos crespos presos, sorri com alegria olhando para velas acesas em cima de um bolo, que não aparece na imagem. Ela veste uma blusa azul-clara. No fundo, há uma decoração composta por pratos de porcelana na parede." width="574" height="243" /><figcaption id="caption-attachment-36321" class="wp-caption-text">Em uma de suas visões, Sandra se imagina recebendo atenção e protagonismo em seu lar pela primeira vez (Foto: Vitrine Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Os elementos do longa trabalham juntos para construir esse ar fantasmagórico e o suspense que ele exige. Apesar de instigante no início, em alguns momentos, os períodos de tensão se estendem demais e perdem o ponto de clímax. Ainda sobre a materialização dessas imagens de Sandra e Mariana enquanto crianças, não fica claro o que elas são, de fato, e isso não é, de forma alguma, um problema para o roteiro. Mas quando os fantasmas começam a agir de forma muito concreta, interferindo diretamente na realidade, a fantasia se torna uma questão. Isso acontece quando a pequena Sandra esconde o conjunto de facas de Mariana, que é chef de cozinha, e prejudica a sua vida profissional. Aqui, cria-se uma situação confusa, uma vez que essa ação não faz sentido algum diante do que se conhece da personagem de </span><a href="https://youtu.be/i0Y0VZTBVCs?si=P-yBAwstd2eHIjnZ"><span style="font-weight: 400;">Tulani</span></a><span style="font-weight: 400;">, que é tão delicadamente construída ao longo da narrativa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar desse quebra-cabeça, a aposta em ir além do literal caiu muito bem na trama e complementou o drama das personagens tão intimamente construídas – individual e coletivamente. Assim, </span><i><span style="font-weight: 400;">Criadas </span></i><span style="font-weight: 400;">consegue mergulhar no âmago de duas histórias marcadas por dilemas familiares e raciais e que se unem conflituosamente, mas que são permeadas de otimismo, pela ideia de que o futuro pode ser diferente. Dessa forma, também há esperança de que a casa que outrora carregou ares de ‘casa grande e senzala’ possa ser destruída e, quem sabe, refeita em um lar que possa romper com as imposições feitas pela </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-pecadores/"><span style="font-weight: 400;">discriminação</span></a><span style="font-weight: 400;"> que se instalou – em um movimento de dentro para fora – nessa família.</span></p>
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		<title>Na verdade, Casa de Antiguidades é um abatedouro</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Nov 2020 16:35:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Caroline Campos e Vitor Evangelista O burburinho que cercou Casa de Antiguidades não veio de graça. Considerando que temas como regionalismo e horror de mal estar estão em voga desde a explosão de Bacurau, em 2019, quaisquer obras que resvalem nesse espectro sem dúvidas chamariam atenção do público brasileiro. Parte da Seleção Oficial de Cannes &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/casa-de-antiguidades-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Na verdade, Casa de Antiguidades é um abatedouro"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_16517" aria-describedby="caption-attachment-16517" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16517" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Casa_de_Antiguidades_CEC_9882_Antonio-Pitanga-scaled-1.jpg" alt="" width="2560" height="1696" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Casa_de_Antiguidades_CEC_9882_Antonio-Pitanga-scaled-1.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Casa_de_Antiguidades_CEC_9882_Antonio-Pitanga-scaled-1-300x199.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Casa_de_Antiguidades_CEC_9882_Antonio-Pitanga-scaled-1-1024x678.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Casa_de_Antiguidades_CEC_9882_Antonio-Pitanga-scaled-1-768x509.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Casa_de_Antiguidades_CEC_9882_Antonio-Pitanga-scaled-1-1536x1018.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Casa_de_Antiguidades_CEC_9882_Antonio-Pitanga-scaled-1-2048x1357.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Casa_de_Antiguidades_CEC_9882_Antonio-Pitanga-scaled-1-1200x795.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16517" class="wp-caption-text">Depois de ‘passar’ por Cannes, o filme estreou em território nacional na 44ª Mostra Internacional de SP (Foto: Divulgação Imprensa)</figcaption></figure>
<p><b>Caroline Campos e Vitor Evangelista</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O burburinho que cercou </span><i><span style="font-weight: 400;">Casa de Antiguidades</span></i><span style="font-weight: 400;"> não veio de graça. Considerando que temas como regionalismo e horror de mal estar estão em voga desde a explosão de </span><a href="https://personaunesp.com.br/bacurau-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Bacurau</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, em 2019, quaisquer obras que resvalem nesse espectro sem dúvidas chamariam atenção do público brasileiro. Parte da Seleção Oficial de </span><a href="https://www.papelpop.com/2020/06/filme-brasileiro-casa-de-antiguidades-esta-em-lista-de-selecionados-pelo-festival-de-cannes/"><span style="font-weight: 400;">Cannes 2020</span></a><span style="font-weight: 400;"> e exibido com exclusividade na 44ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo, o primeiro longa de João Paulo Miranda Maria se mune de um misticismo tupiniquim para desconstruir e metamorfosear a vida e a humanidade de Cristovam, um homem abandonado pelo tempo e rejeitado pela comunidade em que habita.</span></p>
<p><span id="more-16516"></span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Casa de Antiguidades</span></i><span style="font-weight: 400;"> já expõe seu argumento de cara: nesse assombrado sul do Brasil, o velho se recusa a morrer. A vaca idosa da fábrica leiteira demora a ser sacrificada, não só a arma está danificada, como todo o conceito de eliminar os elementos do passado. Conceito esse espelhado imediatamente no personagem principal do filme. Carrancudo e soturno, o trabalho de </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/antonio-pitanga-vibra-com-casa-de-antiguidades-em-cannes-me-sinto-uma-crianca-dancando-dentro-de-mim-mesmo-24460853"><span style="font-weight: 400;">Antonio Pitanga</span></a><span style="font-weight: 400;"> é o elemento </span><i><span style="font-weight: 400;">X</span></i><span style="font-weight: 400;"> para a receita de Miranda Maria. </span><i><span style="font-weight: 400;">Casa de Antiguidades</span></i><span style="font-weight: 400;"> existe para nos incomodar.</span></p>
<figure id="attachment_16518" aria-describedby="caption-attachment-16518" style="width: 1099px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16518" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Casa_de_Antiguidades_CEC_0347_Antonio-Pitanga.-Saiba-mais..jpg" alt="" width="1099" height="827" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Casa_de_Antiguidades_CEC_0347_Antonio-Pitanga.-Saiba-mais..jpg 1099w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Casa_de_Antiguidades_CEC_0347_Antonio-Pitanga.-Saiba-mais.-300x226.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Casa_de_Antiguidades_CEC_0347_Antonio-Pitanga.-Saiba-mais.-1024x771.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Casa_de_Antiguidades_CEC_0347_Antonio-Pitanga.-Saiba-mais.-768x578.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16518" class="wp-caption-text">O filme, uma coprodução de Brasil e França, ganhou o título internacional de Memory House (Foto: Divulgação Imprensa)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">E não um incômodo bem vindo, se é que isso existe, mas uma sensação verdadeiramente ruim. O texto, escrito à quatro mãos pelo diretor e por Felipe Sholl, não toma senso nenhum da gratuidade que trabalha. Construindo longas sequências de câmera parada, com um forte trabalho de foco e </span><i><span style="font-weight: 400;">zoom</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Casa de Antiguidades</span></i><span style="font-weight: 400;"> fetichiza a violência aos seres indefesos &#8211; nem o cachorro perneta de Cristovam tem paz na quase uma hora e meia de duração. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nessa toada da falta de pudor, registrando desde a lenta morte do animal até a crueldade da fábrica de leite, </span><i><span style="font-weight: 400;">Casa de Antiguidades</span></i><span style="font-weight: 400;"> deixa de lado uma máxima da arte de fazer cinema, a de que a sugestão é muitíssimo mais poderosa que a certeza. O terror é bode velho na manobra, gênero que sempre batalhou contra o orçamento e inventava mil e uma maneiras de passar sua mensagem de medo, mistério e morte, mas sem apelar para o choque pelo choque.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nem mesmo as relações que o velho protagonista tenta estabelecer recebem algum tipo de tratamento melhor construído. Jandira (Aline Marta Maia) e Jennifer (Ana Flávia Cavalcanti), mãe e filha, conseguem um pouco da atenção do espectador em momentos incômodos e rudes, reforçando o aspecto animalesco que é tão marcado pela atuação crua que Pitanga domina. O veterano, acostumado com papéis expansivos e alegres ao longo da sua trajetória pelas </span><a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2020-01-26/a-familia-pitanga-e-a-urgencia-de-contar-a-historia-dos-negros-vencedores.html"><span style="font-weight: 400;">gerações do cinema brasileiro</span></a><span style="font-weight: 400;">, se desconstrói com Cristovam, que passa o filme calado e é agressivo com as únicas duas personagens femininas em destaque. Uma mudança de ares para um ator com 60 anos de carreira.</span></p>
<figure id="attachment_16519" aria-describedby="caption-attachment-16519" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16519" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1591467839195.jpg" alt="" width="1200" height="900" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1591467839195.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1591467839195-300x225.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1591467839195-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1591467839195-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16519" class="wp-caption-text">Benjamín Echazarreta, cinematógrafo de Uma Mulher Fantástica, é quem fotografa os ambientes escuros e a ancestralidade de Cristovam (Foto: Divulgação Imprensa)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A ideia de edificar a câmera como um monumento de cena respinga originalidade e irreverência, o diretor transporta (por bem ou por mal) o público para as salas de reuniões, cozinhas e para a Casa que dá nome ao filme. Enquanto filma as micro reações dos personagens, o espectador tem o tempo de absorver os acontecimentos, e o choque é maior pelo tempo que olhamos para algo. Sem tirar nem por, </span><i><span style="font-weight: 400;">Casa de Antiguidades</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um </span><a href="https://whatculture.com/film/15-feel-bad-movies-that-make-you-feel-like-sh-t"><i><span style="font-weight: 400;">feel-bad movie</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, um filme de mal estar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E a residência do título, pouco a pouco, se revela um verdadeiro abatedouro. No campo literal, quando vemos a morte nos olhar nos olhos e também no temático. Cristovam vai sendo dilacerado com o passar do tempo, perdendo toda a humanidade que uma vez habitou nele. A morte é espelho das escolhas criativas do filme, considerando que uma porção de boas ideias acabam capadas, seja pela inexperiência do diretor ou pela falta de tato na hora de contar uma história dessas.</span></p>
<figure id="attachment_16520" aria-describedby="caption-attachment-16520" style="width: 1908px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16520" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1327046_memoryhousecelluloiddreams_668917.jpg" alt="" width="1908" height="1272" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1327046_memoryhousecelluloiddreams_668917.jpg 1908w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1327046_memoryhousecelluloiddreams_668917-300x200.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1327046_memoryhousecelluloiddreams_668917-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1327046_memoryhousecelluloiddreams_668917-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1327046_memoryhousecelluloiddreams_668917-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1327046_memoryhousecelluloiddreams_668917-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16520" class="wp-caption-text">Até o momento, Casa de Antiguidades é o grande candidato para <a href="http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-156121/#:~:text=O%20longa%20Casa%20de%20Antiguidades,2021%20como%20representante%20do%20Brasil.">representar o Brasil</a> na categoria de Filme Internacional no Oscar 2021 (Foto: Divulgação Imprensa)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Olhando para a programação da Mostra de SP, outra produção regionalista e protagonizada por negros acabou melhor sucedida que o filme brasileiro. Nos referimos ao magnânimo </span><i><span style="font-weight: 400;">Isso Não É Um Enterro, É Uma Ressurreição</span></i><span style="font-weight: 400;">, filme do Lesoto escrito e dirigido por Lemohang Jeremiah Mosese. Pelas mãos de um homem negro, o longa lida com questões de sofrimento e desumanização, mas nunca partindo para chavões de gratuidade ou pro clássico e terrível clichê de lapidar um personagem moldado apenas por traumas, e nunca por camadas que respeitem sua construção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E é esse respeito, ou no caso a ausência dele, para com seus personagens que atrapalha um pouco a tentativa de Miranda Maria de explicitar seus objetivos em tela. Ao ser xingado, humilhado, ameaçado e violado, Cristovam se torna um objeto cuja única função é sofrer em prol da narrativa. Mesmo amparado e guardado pelas forças indígenas que habitam a </span><a href="https://44.mostra.org/filmes/casa-de-antiguidades"><i><span style="font-weight: 400;">Casa de Antiguidades</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> do título, ainda assim o personagem é bestializado, chegando ao mesmo destino que os animais anteriores. Não há salvação para sua antiguidade. Há apenas o fim. E ele vem pela mira de uma hesitante criança em meio a um linchamento mais parecido com uma tourada de rua, onde nós constantemente duvidamos se o homem ainda existe embaixo da fantasia.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="MEMORY HOUSE by João Paulo Miranda Maria - Official Trailer" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/xm63773htIo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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