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	<title>Arquivos À Paisana &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>À Paisana, você pode encontrar o sentido da vida</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Oct 2025 13:00:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Guilherme Machado Leal  A sensação de descobrir que é alguém no mundo é uma em um milhão. Antes de tudo acontecer, o indivíduo não entende muito bem qual é o seu lugar e objetivo de vida. É como se precisasse de um ponto de partida para dizer firmemente que é um ser humano. Esse momento &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-a-paisana/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "À Paisana, você pode encontrar o sentido da vida"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36007" aria-describedby="caption-attachment-36007" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-36007" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-11-800x451.png" alt="Cena do filme À Paisana. Na imagem, há dois homens brancos se encarando através do espelho de um banheiro. O rapaz da esquerda possui cabelos castanhos escuros e utiliza um boné e moletom azuis, enquanto o homem da direita usa uma blusa vermelha com um casaco azul por cima, além de ter cabelos grisalhos, utilizar óculos e ter um bigode." width="800" height="451" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-11-800x451.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-11-1024x577.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-11-768x433.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-11-1200x676.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-11.png 1296w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36007" class="wp-caption-text">A tensão sexual entre Tom Blyth e Russell Tovey nos minutos iniciais da obra traz um misto de sensações, que serão abordadas ao longo da narrativa (Foto: Magnolia Pictures)</figcaption></figure>
<p><b>Guilherme Machado Leal  </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A sensação de descobrir que é alguém no mundo é uma em um milhão. Antes de tudo acontecer, o indivíduo não entende muito bem qual é o seu lugar e objetivo de vida. É como se precisasse de um ponto de partida para dizer firmemente que é um ser humano. Esse momento acontece com Lucas (</span><a href="https://personaunesp.com.br/jogos-vorazes-a-cantiga-dos-passaros-e-das-serpentes-critica/"><span style="font-weight: 400;">Tom Blyth</span></a><span style="font-weight: 400;">) no dia em que conhece, no banheiro de um shopping de Nova York, o homem que o mudará. Centralizado na década de </span><a href="https://www2.oabrs.org.br/noticia/17-maio-1990-dia-em-que-ser-lgbti-deixou-doenca/24491"><span style="font-weight: 400;">1990</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://mostra.org/filmes/a-paisana"><i><span style="font-weight: 400;">À Paisana</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> acompanha uma tarefa policial em prol do combate ao </span><a href="https://www.publico.pt/2016/07/25/p3/fotogaleria/cruising-sexo-gratis-consensual-e-anonimo-em-locais-publicos-385940"><i><span style="font-weight: 400;">cruising</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">prática também conhecida como ‘banheirão’ dependendo do local onde ocorre e que é realizada por homens </span><i><span style="font-weight: 400;">queers </span></i><span style="font-weight: 400;">em lugares públicos. </span></p>
<p><span id="more-36006"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por meio de um esquema da polícia nova-iorquina, os profissionais se disfarçam àqueles que se identificam enquanto LGBTQIAPN+ com a missão de prendê-los pelo ato sexual nos sanitários. Entre eles, está o protagonista, a isca perfeita para levar os rapazes à cabine. Quando as vítimas correspondem aos olhares, elas se tornam criminosas. No entanto, a dinâmica altera o plano a partir da chegada de Andrew (</span><a href="https://lavendermagazine.com/featured-home-page/plainclothes-make-the-men-an-interview-with-tom-blyth-and-russell-tovey/"><span style="font-weight: 400;">Russell Tovey</span></a><span style="font-weight: 400;">). Nesses espaços, nada é dito; pelo contrário, a concentração é no rosto: expressões que dão a entender algo, códigos, apertos, tudo isso somado ao desejo reprimido ou apenas à diversão, que levam ao êxtase provocado pelo contato entre seres.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme, presente na seção Competição Novos Diretores da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, discorre sobre o entendimento da sexualidade a partir da visão, seja aquela que uma pessoa em construção tem de si mesma ou pelo olhar condenatório recebido. Se você é visto, você é lembrado. Por esse lado, a percepção gera uma sensação de reconhecimento; aqui, o personagem principal se sente compreendido por alguém que, à sua própria maneira, passa pelo mesmo: a vida dupla. Através das lentes estreantes de </span><a href="https://mostra.org/diretores/carmen-emmi"><span style="font-weight: 400;">Carmen Emmi</span></a><span style="font-weight: 400;">, o desespero em ser colocado como um homem gay para a sociedade do final do século XX documenta uma era tenebrosa àqueles que saem do espectro heterossexual.</span></p>
<figure id="attachment_36008" aria-describedby="caption-attachment-36008" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-36008" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-10-800x450.png" alt="Texto alternativo: Cena do filme À Paisana. Na imagem, há dois homens brancos deitados no chão e olhando para o céu. O rapaz da esquerda possui cabelos castanhos escuros, enquanto o da direita apresenta um cabelo grisalho e bigode." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-10-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-10-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-10-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-10.png 1120w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36008" class="wp-caption-text">Quando não estão juntos, Lucas e Andrew representam outras coerções sociais (Foto: Magnolia Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A polissemia que envolve a homossexualidade dos anos 1990 é, no mínimo, curiosa, mas não datada – ao passo que a polícia analisa o </span><i><span style="font-weight: 400;">cruising </span></i><span style="font-weight: 400;">como uma perversão, os lugares públicos servem aos homens um lugar de extravasamento, que reúne casados, assumidos e discretos. A vontade de mandá-los para a prisão é equivalente ao ímpeto de se encarar, ir até a cabine e abrir o zíper. É como se fosse um jogo, porém com um time claramente levando vantagem. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Só porque algo parece feio não significa que é moralmente errado</span></i><span style="font-weight: 400;">”, o discurso de </span><a href="https://personaunesp.com.br/lady-bird-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Lady Bird</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em 2017, sintetiza a humanidade em retratar o tema trazido pelo próprio cineasta, que também assina o roteiro de </span><i><span style="font-weight: 400;">Plainclothes </span></i><span style="font-weight: 400;">(título original).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A faísca que envolve Lucas e Andrew, no entanto, atravessa os metros quadrados dos toaletes. Se para o policial os primeiros momentos são importantes para  guardar na memória, o adepto à prática sexual lê a relação como algo puramente </span><a href="https://www.ubspectrum.com/article/2025/10/gay-romance-is-all-fair-in-love-and-war"><span style="font-weight: 400;">casual</span></a><span style="font-weight: 400;">. O primeiro amor, na produção, é associado ao medo de estar fora dos eixos, algo que, de fato, acontece. O sentimento provoca uma alteração química que pode levar à ruína ou ao pertencimento. Como superar aquilo que te deu vitalidade? Ou melhor: como seguir a vida depois da primeira vez em que você finalmente se sentiu no próprio corpo? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pela perspectiva do diretor, apaixonar-se por um homem, sendo um, é realmente frenético. De fato, pode tirar o sono e causar obsessão. Apesar disso, também traz sentido e faz muita coisa valer a pena, ainda mais se é algo raramente experimentado pelas gerações </span><i><span style="font-weight: 400;">queers</span></i><span style="font-weight: 400;">. O despertar amoroso é 8 ou 80, e, para o personagem vivido por Blyth, o </span><a href="https://www.hercampus.com/school/fsu/gay-awakening-it-s-different-everyone/"><i><span style="font-weight: 400;">gay awakening</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, é conscientemente uma barreira e um acesso ao que ele pode ser: a versão desprovida de amarras sociais. Após desistir do trabalho – mais parecido com um método de tortura aos homens LGBT+ – o rapaz não se contenta com uma terça-feira sigilosa. Longe disso, ele precisa da semana inteira, meses ou anos.</span></p>
<figure id="attachment_36012" aria-describedby="caption-attachment-36012" style="width: 500px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-36012" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2.gif" alt="Texto alternativo: Cena do filme À Paisana. Na imagem, há um homem branco de cabelos grisalhos, que usa uma jaqueta bege e um homem branco de cabelos castanhos escuros, que veste um moletom azul. Eles estão se beijando." width="500" height="370" /><figcaption id="caption-attachment-36012" class="wp-caption-text">Os beijos entre os personagens principais são desconcertantes, frenéticos e cheios de vida (GIF: Magnolia Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O núcleo </span><a href="https://artmed.com.br/artigos/por-que-o-apoio-familiar-no-processo-de-assumir-a-sexualidade-e-tao-importante"><span style="font-weight: 400;">familiar</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Lucas, que representa a vida antes de se entender gay, carrega simbolismos que acompanham a trajetória do protagonista durante os 97 minutos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Plainclothes</span></i><span style="font-weight: 400;">. Para o ex-policial, a descoberta de sua sexualidade não seria vista com bons olhos pela sua mãe, Marie, vivida por </span><a href="https://letterboxd.com/actor/maria-dizzia/"><span style="font-weight: 400;">Maria Dizzia</span></a><span style="font-weight: 400;">. Quando conheceu Andrew, ele utilizou o apelido Gus, de seu pai morto, para não revelar o próprio nome. Entretanto, ao longo da narrativa, o amontoado de mentiras dessa relação se alastra e impacta indiretamente a vida da matriarca. Por meio da relação entre a mulher e o rapaz, há a representação do que é viver em dois mundos: aquele construído pelos entes e o que verdadeiramente gostaríamos de viver. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diferente de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=O97iSjvqBlY"><i><span style="font-weight: 400;">All of Us Strangers</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2023), aqui a dinâmica entre pais heterossexuais e filhos </span><i><span style="font-weight: 400;">queers </span></i><span style="font-weight: 400;">acrescenta algo à história que Carmen conta ao espectador. Nas cenas de tensão, por exemplo, o personagem está atento minuciosamente à maneira como se expressa com os parentes. Através da direção e da montagem de Erik Vogt-Nilsen, percebemos a vida inteira do jovem homossexual em uma piscada de olhos, pois é assim que ele se enxerga: uma colcha de retalhos caracterizada por pequenos momentos que, juntos, dão forma a quem ele de fato é.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Semelhante ao que acontece com o rapaz, o </span><a href="https://veja.abril.com.br/saude/cresce-o-numero-de-brasileiros-com-mais-de-50-que-saem-do-armario/"><span style="font-weight: 400;">amor</span></a><span style="font-weight: 400;"> por um homem nunca morre. Ele pode adquirir novas facetas, ser ressignificado de alguma maneira. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">À Paisana</span></i><span style="font-weight: 400;"> – e, de certo modo, na realidade – o sentimento se renova, ganha características diferentes, porém nunca desaparece. A repressão só faz voltar mais forte. E por isso, Emmi surpreende ao concentrar suas lentes na universalização do cotidiano gay experienciado em locais de </span><i><span style="font-weight: 400;">cruising</span></i><span style="font-weight: 400;">: muitas vezes moralmente questionável, e insano em certos momentos, porém, de forma alguma, superficial. É, e sempre foi, muito mais do que um banheiro. É o desejo da  casa completa. Pura e simplesmente a sensação de ter.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Plainclothes - Official Trailer | Starring Tom Blyth and Russell Tovey | In Theaters September 19" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/gsjULVBjlMk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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