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		<title>Freaks ensina: quem vê cara, não vê coração</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Mar 2022 16:12:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Gatti A padronização da beleza é um fenômeno muito comum e normalizado na sociedade. Ao longo das décadas, o rótulo daquilo que é bonito ou feio vai se alterando, mas sempre continua vigente para julgar quem vai aparecer diante das telas. Se esse cenário já é tão presente nos dias de hoje, imagine ir &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/freaks-90-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Freaks ensina: quem vê cara, não vê coração"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26291" aria-describedby="caption-attachment-26291" style="width: 1677px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-26291" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-3.jpg" alt="Cena em branco e preto do filme freaks apresenta um grupo de dez artistas de circo. Com exceção da mulher branca e loira, que usa um longo vestido branco e apresenta um olhar sério, todos os outros apresentam expressões de descontração." width="1677" height="1258" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-3.jpg 1677w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-3-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-3-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-3-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-3-1536x1152.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-3-1200x900.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26291" class="wp-caption-text">Ao longo de pouco mais de uma hora de filme, Freaks provoca angústia, revolta e empatia (Foto: Metro-Goldwyn-Mayer)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Gatti</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://claudia.abril.com.br/coluna/ana-claudia-paixao-hollywood-cinema-series/o-algoritmo-de-hollywood-fala-muito-sobre-padroes-inalterados/#:~:text=E%20o%20cen%C3%A1rio%20ainda%20%C3%A9,muda%20sua%20rela%C3%A7%C3%A3o%20com%20elas."><span style="font-weight: 400;">padronização da beleza</span></a><span style="font-weight: 400;"> é um fenômeno muito comum e normalizado na sociedade. Ao longo das décadas, o rótulo daquilo que é bonito ou feio vai se alterando, mas sempre continua vigente para julgar quem vai aparecer diante das telas. Se esse cenário já é tão presente nos dias de hoje, imagine ir ao cinema há 90 anos e, ao invés de ver pessoas como o rosto entupido de pó de arroz, se deparar com um grupo de artistas com deficiência. Esse é justamente o caso de </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;">, um clássico de Tod Browning, que estreou em 1932 com muita polêmica.</span></p>
<p><span id="more-26290"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os eventos conturbados por trás do filme se dão pelo fato da escolha do diretor em escalar </span><a href="https://revistatrip.uol.com.br/trip/precisamos-falar-sobre-capacitismo"><span style="font-weight: 400;">pessoas com deficiência</span></a><span style="font-weight: 400;"> para estrelarem em sua película. Se ainda no século 21, esse grupo social ainda é marginalizado, quase cem anos atrás as circunstâncias eram ainda mais tensas. </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi rejeitado pela sociedade e se tornou um fracasso de bilheteria, sendo reconhecido apenas durante a década de 1960 no movimento de contracultura dos </span><a href="https://www.pipoca3d.com.br/2019/03/o-que-sao-os-midnight-movies.html"><i><span style="font-weight: 400;">midnight movies</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Esse período serviu para reavivar a relevância da narrativa focada em um grupo de artistas de um circo dos horrores.</span></p>
<figure id="attachment_26292" aria-describedby="caption-attachment-26292" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-26292" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-2-3.jpg" alt="Cena em branco e preto do filme freaks exibe à esquerda um homem anão branco, de cabelos curtos e castanhos, vestindo uma camisa branca e uma calça, agachado embaixo de uma escada e olhando para a no meio da imagem mulher, que é branca, loira e veste um figurino circense preto com uma saia. Sua expressão corporal apresenta desdém ao anão e ao homem à direita, que é branco, de cabelos curtos e penteados e não tem pernas. Ele veste um terno preto e está olhando para a mulher. O fundo da foto exibe trailers de circo bem decorados." width="800" height="600" /><figcaption id="caption-attachment-26292" class="wp-caption-text">Cleo, uma das poucas personagens sem deficiência, trata seus colegas de trabalho com desdém e antipatia (Foto: Metro-Goldwyn-Mayer)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme apresenta </span><span style="font-weight: 400;">Cleópatra (Olga Baclanova), uma trapezista que mantém um relacionamento com Hércules (Henry Victor), um homem forte que ganha a vida exibindo os músculos no circo. No entanto, o casal descobre que Hans (</span><a href="https://vaudeville.sites.arizona.edu/node/10"><span style="font-weight: 400;">Harry Earles</span></a><span style="font-weight: 400;">), um dos anões do local, é herdeiro de uma grande fortuna. Nesse momento, a jovem mulher passa a seduzi-lo para roubar todas as suas posses. O plano ardiloso da dupla funciona de início, porém os outros artistas circenses passam a duvidar das intenções de Cleo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O roteiro audacioso de </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;"> teve como inspiração o conto</span> <a href="http://www.olgabaclanova.com/spurs.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Spurs</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, do escritor estadunidense Tod Robbins. A peça literária apresenta a mesma relação abusiva entre um anão e uma trapezista em um pequeno circo. Desse modo, </span><span style="font-weight: 400;">Willis Goldbeck, Leo Gordon e o próprio Tod Robbins beberam dessa fonte para dar vida ao texto do clássico do horror. Em ambos os casos, o mais inovador da trama é a forma inclusiva de tratar as pessoas com deficiência, deixando essa temática explícita em alguns diálogos presentes ao longo da narrativa.</span></p>
<figure id="attachment_26293" aria-describedby="caption-attachment-26293" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-26293" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-3-4.jpg" alt="Cena em branco e preto do filme freaks apresenta um homem branco, anão, de cabelos curtos, loiros e penteados, vestindo roupa social. Suas expressões são de tristeza. O fundo da imagem é escuro, dando destaque apenas para a lamparina na extrema direita da foto." width="800" height="599" /><figcaption id="caption-attachment-26293" class="wp-caption-text">“Não percebem que sou um homem com os mesmos sentimentos dos deles” (Foto: Metro-Goldwyn-Mayer)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;"> trouxe visibilidade aos atores do filme. Durante o processo de seleção do elenco, Browning, que optou por selecionar uma gama de pessoas ligadas diretamente aos espetáculos de circo, rodou os Estados Unidos junto com o diretor de elenco, Ben Piazza, à procura dos intérpretes ideais para a obra. A busca por feiras e circos rendeu frutos, como Schlitzie, um artista com microcefalia que trabalhou sua vida inteira no ramo do entretenimento, </span><span style="font-weight: 400;">Minnie Woolsey, que foi diagnosticada com </span><a href="https://www.portalsaofrancisco.com.br/saude/sindrome-de-seckel"><span style="font-weight: 400;">síndrome de Virchow-Seckel</span></a><span style="font-weight: 400;">, e </span><span style="font-weight: 400;">Prince Randian, que impressionava com a sua mobilidade mesmo tendo nascido sem os braços e as pernas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A representatividade desses artistas com deficiência em </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;"> os coloca em plano de igualdade aos demais atores do longa, principalmente ao mostrar que o verdadeiro monstro eram aqueles tomados pelo sentimento da ganância. Mas apesar da lição de moral, a situação dos atores e de outras PCD não era nada favorável. Muitos se exibiam nos chamados </span><a href="https://super.abril.com.br/coluna/turma-do-fundao/as-atracoes-humanas-do-8220-circo-dos-horrores-8221/"><i><span style="font-weight: 400;">freak shows</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que tinha como foco chocar a população com imagens consideradas anormais para o padrão da época. O formato bizarro de entretenimento era muito popular nos Estados Unidos e o </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/tradicional-circo-ringling-bros-fecha-apos-146-anos.ghtml"><i><span style="font-weight: 400;">Barnum &amp; Bailey’s</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, um circo dos horrores fundado por Phineas Barnum, chegou a apresentar milhares de personalidades. Dentre elas estavam as gêmeas siamesas Daisy e Violet, unidas pelo quadril e nádegas, que chegaram a estrelar no clássico de Browning.</span></p>
<figure id="attachment_26294" aria-describedby="caption-attachment-26294" style="width: 628px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26294" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-4-4.jpg" alt="Cena em branco e preto do filme freaks mostra um grupo de nove artistas de circo reunidos em volta de uma mesa bem comprida. Alguns dos personagens demonstram expressões de alegria e outros de tristeza. A mesa está coberta por uma toalha de piquenique e muita comida. A cerimônia se localiza em uma das tendas do circo." width="628" height="471" /><figcaption id="caption-attachment-26294" class="wp-caption-text">A festa de noivado de Cleo e Hans foi celebrada como um jantar entre as atrações do circo (Foto: Metro-Goldwyn-Mayer)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Partindo desse imaginário popular grotesco da forma com que as PCD eram vistas socialmente, </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;"> inicia com a reação do público após sair do espetáculo. O </span><a href="https://super.abril.com.br/coluna/turma-do-fundao/12-filmes-perturbadores-de-terror-psicologico/"><span style="font-weight: 400;">horror</span></a><span style="font-weight: 400;"> provocado pela película apela para a imaginação do telespectador, a quem é transmitida uma angústia sobre algo que ainda não foi exibido. Em antítese ao clima provocado de início, a primeira aparição das atrações do circo os exibe como indivíduos carinhosos, meigos e que apresentam comportamentos infantis, o que atenua ainda mais a crítica sobre quem é a aberração da história.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, o rico debate presente no longa não foi altamente explorado da forma que devia. A curta duração do filme, que não chega nem a 70 minutos, faz com que alguns diálogos não sejam muito aprofundados. O motivo para isso se deu pelo fato de os produtores estarem receosos pela reação do público diante da ousadia da trama. Mas ainda assim, o roteiro inovador serviu de grande inspiração para diversas obras.</span></p>
<figure id="attachment_26295" aria-describedby="caption-attachment-26295" style="width: 632px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26295" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-5-1.jpg" alt="Cena em branco e preto do filme freaks exibe à esquerda um homem negro e careca sem braços e pernas, vestindo uma roupa adaptada para o seu corpo em cima de uma mesa. À direita está um homem branco, de cabelos curtos e castanhos, vestindo uma camisa branca, um cinto preto e uma calça cinza. Os dois estão conversando em um dos ambientes do circo." width="632" height="474" /><figcaption id="caption-attachment-26295" class="wp-caption-text">Prince Randian, que interpretou o Torso Vivo em Freaks, chegou a fazer shows exibindo suas habilidades de se movimentar sem os braços e as pernas (Foto: Metro-Goldwyn-Mayer)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A escritora Katherine Dunn foi inspirada pelo filme para escrever o livro </span><a href="https://www.momentumsaga.com/2018/11/resenha-geek-love-de-katherine-dunn.html"><i><span style="font-weight: 400;">Amor de Monstro</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de 1989. A peça literária narra a vida da família Binewski, que ingerem substâncias tóxicas para darem a luz a crianças fora do padrão esperado e, assim, constroem seu </span><i><span style="font-weight: 400;">freak show</span></i><span style="font-weight: 400;"> itinerante. Além dessa, </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Simpsons</span></i><span style="font-weight: 400;"> já produziram um episódio inspirado pelo filme. O especial</span><i><span style="font-weight: 400;"> A Casa da Árvore dos Horrores XXIV</span></i><span style="font-weight: 400;"> trouxe a história </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks No Geeks</span></i><span style="font-weight: 400;"> que apresenta o mesmo roteiro do longa de Browning, porém adaptado com a caracterização dos personagens da série.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Igualmente a essas obras, </span><a href="https://personaunesp.com.br/ahs-1984-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">American Horror Story</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> também se influenciou por </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;"> e acabou dedicando uma história da antologia exclusiva ao ambiente circense. A quarta temporada da série, intitulada de </span><i><span style="font-weight: 400;">Freak Show</span></i><span style="font-weight: 400;">, trouxe todo essa atmosfera tensa desses espetáculos sórdidos, com personagens que remetem diretamente às personalidades do longa, como Pepper (</span><span style="font-weight: 400;">Naomi Grossman</span><span style="font-weight: 400;">) e as gêmeas Bette e Dot Tattler (Sarah Paulson). Além disso, o </span><i><span style="font-weight: 400;">showrunner</span></i><span style="font-weight: 400;">, Ryan Murphy, ainda exaltou a película ao referenciar o desfecho de Cleópatra aos gritos de “um de nós”, entoado por seus colegas de trabalho.</span></p>
<figure id="attachment_26296" aria-describedby="caption-attachment-26296" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26296" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-6.jpg" alt="Cena em branco e preto do filme freaks mostra uma mulher branca e loira totalmente desfigurada. Ela veste um terno preto e uma gravata borboleta, que cobre parte do seu corpo repleto de penas. O cenário apresenta uma lona de circo ao fundo e um piso de areia." width="800" height="600" /><figcaption id="caption-attachment-26296" class="wp-caption-text">“Um de nós” (Foto: Metro-Goldwyn-Mayer)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Com esse final surpreendente da personagem em </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;">, o diretor completa sua crítica, questionando a moral e os padrões sociais. A conclusão marcante da obra contribuiu para a consagração da película como um filme </span><i><span style="font-weight: 400;">cult</span></i><span style="font-weight: 400;"> nas salas de cinema dos </span><i><span style="font-weight: 400;">midnight movies.</span></i><span style="font-weight: 400;"> 90 anos após seu lançamento, fica bem claro que a fama do terror dos anos 1930 veio de sua capacidade de dar visibilidade a artistas de circo marginalizados e, ainda, apresentá-los como forma de crítica social.</span></p>
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		<title>Sou feliz porque sei, com certeza, que ela me ama: 90 anos de Senhoritas em Uniforme</title>
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					<description><![CDATA[<p>Ayra Mori 1931, dentro de um internato, se deu o primeiro beijo lésbico reconhecido pela história da Sétima Arte. O título é honra, não dos tímidos beijos trocados por um casal de mulheres arlequinamente dançantes em Le départ d’Arlequin et de Pierrette (1900), da pioneira mãe do Cinema, Alice Guy-Blaché, ou do sex appeal de &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/senhoritas-em-uniforme-90-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Sou feliz porque sei, com certeza, que ela me ama: 90 anos de Senhoritas em Uniforme"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><figure id="attachment_25392" aria-describedby="caption-attachment-25392" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25392" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Fräulein von Bernburg, interpretada por Dorothea Wieck, e Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Ambas são mulheres brancas e se encaram. Fräulein von Bernburg segura o rosto de Manuela com as mãos, inclinando-o para cima. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="1600" height="1353" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-800x677.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-1024x866.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-768x649.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-1536x1299.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-1200x1015.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25392" class="wp-caption-text">Precursor do Cinema queer, Mädchen in Uniform (título original de Senhoritas em Uniforme) foi a estreia da curta filmografia de Leontine Sagan [Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft]</figcaption></figure><b>Ayra Mori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">1931, dentro de um internato, se deu o primeiro beijo lésbico reconhecido pela história da Sétima Arte. O título é honra, não dos tímidos beijos trocados por um casal de mulheres arlequinamente dançantes em </span><a href="https://www.splicetoday.com/moving-pictures/dancing-with-alice-guy-blache"><i><span style="font-weight: 400;">Le départ d’Arlequin et de Pierrette</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1900), da pioneira mãe do Cinema, </span><a href="https://mulhernocinema.com/entrevistas/documentario-recupera-trajetoria-de-alice-guy-blache-a-primeira-cineasta-da-historia/"><span style="font-weight: 400;">Alice Guy-Blaché</span></a><span style="font-weight: 400;">, ou do </span><i><span style="font-weight: 400;">sex appeal</span></i><span style="font-weight: 400;"> de um beijo sáfico roubado por uma Marlene Dietrich andrógina em </span><a href="http://www.contracampo.com.br/85/dvdmarrocos.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Marrocos</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1930), mas sim, por direito, de </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1931). Marco do audiovisual LGBTQIA+, a produção alemã determinou os destinos da ficção </span><i><span style="font-weight: 400;">queer </span></i><span style="font-weight: 400;">ao longo de seus 90 anos, revelando com sensibilidade o florescer do desejo lésbico. E realizado por uma equipe de mulheres, na desobediência, é alcançada a libertação.</span></p>
<p><span id="more-25391"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Do roteiro à execução, a perspectiva do filme é inteiramente feminina. Baseado na peça teatral </span><i><span style="font-weight: 400;">Gestern und Heute</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1930), escrita por </span><a href="https://legacyprojectchicago.org/person/christa-winsloe"><span style="font-weight: 400;">Christa Winsloe</span></a><span style="font-weight: 400;"> – ex-Baronesa assumidamente lésbica –, a história relata a experiência pessoal da dramaturga ao viver sobre a austeridade de um colégio interno em Postdam, ainda na adolescência. O sucesso da trama levou à adaptação de </span><a href="https://feitoporelas.com.br/feito-por-elas-155-senhoritas-em-uniforme/"><span style="font-weight: 400;">Leontine Sagan</span></a><span style="font-weight: 400;"> no ano seguinte e outra em 1958, uma refilmagem quase idêntica da original, dirigida por </span><a href="https://50anosdefilmes.com.br/2012/senhoritas-em-uniforme-madchen-in-uniform/"><span style="font-weight: 400;">Géza von Radványi</span></a><span style="font-weight: 400;">. Em ambos, o elenco é todo composto por mulheres. A única presença masculina se manifesta simbolicamente através da imobilidade dos heróis de guerra imortalizados no mármore das esculturas que cercam a arquitetura sóbria do internato.</span></p>
<figure id="attachment_25393" aria-describedby="caption-attachment-25393" style="width: 1061px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25393" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está em fileira um grupo de colegiais que cantam de frente para a câmera. O uniforme delas é um vestido listrado com golas brancas e um laço central, além de um broche arredondado, semelhante a um cravo. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. A proporção da tela é de 1.20:1." width="1061" height="887" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2.jpg 1061w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2-800x669.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2-1024x856.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2-768x642.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25393" class="wp-caption-text">O filme venceu a categoria de Melhor Perfeição Técnica na primeira edição do Festival de Veneza em 1932 (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos primeiros minutos do filme, somos introduzidos à protagonista. Ela é Manuela (Hertha Thiele), uma adolescente de 14 anos, enviada de malgrado para um internato destinado </span><a href="https://thehotpinkpen.com/2020/09/02/leontine-sagans-german-cult-classic-madchen-in-uniform-hails-a-ground-breaking-all-female-cast-filmed-in-1931/"><span style="font-weight: 400;">somente à moças</span></a><span style="font-weight: 400;">. Praticamente órfã, ela perdeu precocemente a mãe, enquanto o pai, como um “bom” soldado prussiano, ausenta-se do papel de educar a filha. Uma menina especialmente sensível, Manuela se depara de imediato com o autoritarismo da diretora Fräulein von Nordeck zur Nidden (Emilia Unda). Por consequência, entra em conflito a irreverência da aliança fraterna entre as colegiais contra a tirania da instituição patriarcal representada pelas professoras. Bom, </span><a href="https://www.tcm.com/video/1578953/madchen-in-uniform-1931-movie-clip-why-are-you-shaking"><span style="font-weight: 400;">nem toda professora</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Cuidado para não se apaixonar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Por quê?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Porque todas as garotas têm uma queda pela Srta. Fräulein von Bernburg.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi o conselho oferecido à recém-chegada pelas novas colegas, não como um aviso moral, mas como um subtexto brincalhão, mandando-a entrar na longa fila de admiradoras. Atravessando as paredes frias dos dormitórios compartilhados, dos vestiários confessionais ou, ainda, das cortinas que separam cada cabine do banheiro, a </span><a href="https://kiradeshler.substack.com/p/madchen-in-uniforms-revolutionary"><span style="font-weight: 400;">admiração pela professora</span></a><span style="font-weight: 400;"> Fräulein von Bernburg (Dorothea Wieck) é consenso entre as garotas – e com Manuela, não foi diferente. A professora é culta, elegante e incrivelmente bela. Diferente das matriarcas mais tradicionais, Fräulein von Bernburg é compreensiva, valorizando o afeto no aprendizado, tanto quanto na disciplina. Não há como não se encantar por uma mulher tão fascinante quanto ela.</span></p>
<figure id="attachment_25394" aria-describedby="caption-attachment-25394" style="width: 700px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-25394" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img3.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Fräulein von Bernburg, interpretada por Dorothea Wieck, e Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Fräulein von Bernburg é uma mulher branca. De cabelo preso em coque, ela veste um vestido escuro. Já Manuela, é uma adolescente branca. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo frouxo e ela veste uma camisola branca. Ambas se encaram. Manuela está de costas para a câmera, levantando-se da cama de encontro com Fräulein von Bernburg. O fundo é um dormitório compartilhado com camas metálicas. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="700" height="586" /><figcaption id="caption-attachment-25394" class="wp-caption-text">Fenômeno do Cinema LGBTQIA+, a naturalização do lesbianismo de Senhoritas em Uniforme ressoa nos 90 anos de sua história, desde os experimentalismos vanguardistas de Chantal Akerman aos retratos homoeróticos de Céline Sciamma (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As garotas adoram Fräulein von Bernburg, dançam juntas, bordam dentro de um coração as iniciais de seus nomes combinados com a da professora e confessam naturalmente a paixão pela mulher mais velha. </span><a href="https://personaunesp.com.br/retrato-jovem-chamas-critica/"><span style="font-weight: 400;">O </span><i><span style="font-weight: 400;">queerness </span></i><span style="font-weight: 400;">é normalizado</span></a><span style="font-weight: 400;">, abrindo-se as portas de um universo íntimo emancipado das amarras compulsórias da sociedade heterossexual, celebrando o amor em suas muitas formas – maternal (Fräulein von Bernburg), fraternal (Ilse) ou, mesmo, homossexual (Manuela). O erotismo lésbico se apresenta com inocência, não como algo sujo. E Manuela fica completamente hipnotizada pela professora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na </span><a href="https://youtu.be/mBrAsTARANY"><span style="font-weight: 400;">cena mais memorável do filme</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma fileira de colegiais em camisolas brancas, esperam ansiosamente o beijo de boa noite de Fräulein von Bernburg. A professora caminha de cama em cama, beijando testa por testa como num </span><i><span style="font-weight: 400;">eros </span></i><span style="font-weight: 400;">ritualístico. A última é Manuela, que espera ansiosamente pela sua vez, observando a professora cruzar, sem pressa, o dormitório. Seguida por </span><i><span style="font-weight: 400;">close-ups</span></i><span style="font-weight: 400;"> de olhares cheios de desejo, a antecipação é inquietante. Cresce em Manuela um sentimento inebriante, confundindo, despertando. Quando chega a sua vez, ela abraça a mulher mais velha, quase implorando por um beijo nos lábios, que lhe é concedido.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Quando você diz boa noite e fecha a porta do quarto, encaro-a na escuridão. Eu quero me levantar e ir até você, mas sei que não posso. Penso que quando eu sair da escola, você ainda estará aqui. E toda noite, você beijará novas garotas.</span></p></blockquote>
<figure id="attachment_25395" aria-describedby="caption-attachment-25395" style="width: 1353px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25395" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Manuela, é uma adolescente branca. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo frouxo e ela veste uma camisola branca. A imagem é close-up do rosto de Manuela, inclinado para a esquerda. Ela aparenta estar triste. O fundo é cinza. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="1353" height="1121" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4.jpg 1353w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4-800x663.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4-1024x848.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4-768x636.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4-1200x994.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25395" class="wp-caption-text">Hertha Thiele viveu à altura da bravura de Manuela, assumindo postura contrária ao regime totalitário e tornando-se febre entre as adolescentes que enviavam cartas de adoração à atriz (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar do </span><a href="http://www.mnemocine.com.br/index.php/cinema-categoria/24-histcinema/89-notas-para-uma-historia-do-cinema-homossexual-na-era-dos-regimes-totalitarios"><span style="font-weight: 400;">clima propício para explorar questões de gênero e sexualidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> na Alemanha, que se tornou uma espécie de meca LGBTQIA+ nas décadas anteriores, </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi feito no auge da decadência progressista de Weimar. Avançava o ativismo </span><i><span style="font-weight: 400;">queer </span></i><span style="font-weight: 400;">no país, graças à </span><i><span style="font-weight: 400;">Liga Mundial pela Reforma Sexual</span></i><span style="font-weight: 400;"> do sexólogo gay </span><a href="https://revistahibrida.com.br/2019/04/12/magnus-hirschfeld-o-medico-gay-e-judeu-que-defendia-lgbts-do-nazismo/"><span style="font-weight: 400;">Magnus Hirschfeld</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, acredite se quiser, havia mais de cinquenta bares lésbicos (</span><i><span style="font-weight: 400;">Damenklub</span></i><span style="font-weight: 400;">) somente em Berlim. Ninguém diria que em dois anos </span><a href="https://revistahibrida.com.br/2019/04/19/a-perseguicao-contra-mulheres-queer-durante-o-holocausto/"><span style="font-weight: 400;">tudo mudaria</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As únicas três produções dirigidas por Sagan davam sinais de um movimento nascente que transcendia a dramaticidade do </span><a href="https://www.aicinema.com.br/expressionismo-alemao-movimentos-cinematograficos/"><span style="font-weight: 400;">expressionismo alemão</span></a><span style="font-weight: 400;">, como em </span><a href="https://jornal.usp.br/cultura/cem-anos-depois-o-gabinete-do-dr-caligari-reflete-panico-atual/"><i><span style="font-weight: 400;">O Gabinete do Dr. Caligari</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1920), de Robert Wiene. O claro-escuro não buscava mais acentuar as distorções psicológicas de um personagem masculino perturbado, pelo contrário, a cineasta sutilmente combinava elementos estilísticos expressionistas com a performance orgânica de suas atrizes, evocando a subjetividade da psique feminina. O preto se ilumina, o branco cintila. Sobre a tela prateada as emoções se derramam calorosamente entre os encontros de olhares perdidos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos detalhes, a direção de Sagan se excede. Cada toque, cada carícia, cada vislumbre são enquadrados por uma soberba câmera que irradia deslumbrantemente o rosto das adolescentes. Os retratos são sutis, simplistas, cândidos e angelicalmente lindos. Romântico em sua narrativa, em sua forma, </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> enfatiza o indizível acima do dito. A expressividade do olhar de uma Manuela desolada é suficiente para compreender todas as dores da garota, carregando consigo as reminiscências das agonias dilacerantes de uma Joana d’Arc (Renée Jeanne Falconetti) em julgamento, no clássico </span><a href="https://personacinema.com.br/a-paixao-de-joana-darc-dreyer-dc97377c87ef"><i><span style="font-weight: 400;">A Paixão de Joana d’Arc</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1928).</span></p>
<figure id="attachment_25396" aria-describedby="caption-attachment-25396" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25396" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img5.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está um grupo de colegiais que conversam sobre uma escada. O uniforme delas é um vestido listrado com golas brancas e um laço central, além de um broche arredondado, semelhante a um cravo. No centro está Ilse, interpretada por Ellen Schwanneke, que olha para o além com as mãos cruzadas acima do peito. No fundo é possível ver as paredes do internato, além da continuação do guarda-corpo da escada que está à frente das garotas. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. A proporção da tela é de 1.20:1." width="1000" height="750" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img5.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img5-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img5-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25396" class="wp-caption-text">“Apenas a imagine pelada” (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Infelizmente, com a tomada do poder pelo partido nazista, esse brilho se apagou quando a propaganda militar assumiu o controle da produção cultural alemã. Fato é que dentro do fascismo, não há espaço para a expansão do eu. O individualismo de Sagan foi comprimido na vida e na Arte. Além de ter sido proibido nos Estados Unidos perante o </span><a href="http://obviousmag.org/archives/2013/05/hollywood_os_anos_da_censura.html"><i><span style="font-weight: 400;">Código Hays</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – a censura foi retirada somente devido à moções conduzidas por uma </span><a href="https://www.nationalgeographicbrasil.com/cultura/2018/06/12-figuras-lgbt-historicas-que-mudaram-o-mundo#:~:text=A%20antiga%20primeira,que%20n%C3%B3s%20dizemos.%E2%80%9D"><span style="font-weight: 400;">influente aliada</span></a><span style="font-weight: 400;">, a primeira dama Eleanor Roosevelt –, </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi visto como perigo pelo então ministro da Cultura, Joseph Goebbels, que ordenou que todas as cópias do filme fossem queimadas. Mas, por sorte, uma das cópias existentes fora da Alemanha sobreviveu, junto com o legado de Sagan.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Inevitavelmente, o filme carrega em suas veias um evidente caráter político. Era uma Europa entreguerras, devastada pela fome e ameaçada pelo nascente partido nazista. A despótica diretora Fräulein von Nordeck zur Nidden é a personificação de toda a perversidade do regime autoritário de Hitler. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Nós, prussianos, conhecemos a fome. Elas são filhas de soldados e, se Deus quiser, mães de soldados</span></i><span style="font-weight: 400;">”, declara a superiora, que sujeita as garotas à privação intencional de comida. Para ela, o sofrimento as dignifica, como verdadeiras </span><a href="https://open.spotify.com/track/6VIgGcxTOjPpvFUrFzM2TO?si=74eab7e2a384491d"><span style="font-weight: 400;">mulheres de Atenas</span></a><span style="font-weight: 400;">, instruídas aos bons costumes da Prússia, ao casamento e à fé.</span></p>
<figure id="attachment_25397" aria-describedby="caption-attachment-25397" style="width: 915px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25397" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img6.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Fräulein von Bernburg, interpretada por Dorothea Wieck, e Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Ambas são mulheres brancas. Fräulein von Bernburg segura em seus braços Manuela, essa que está de cabeça baixa. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="915" height="768" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img6.jpg 915w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img6-800x671.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img6-768x645.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25397" class="wp-caption-text">Com a tomada de Hitler sobre a Alemanha, Leontine Sagan fugiu para a Inglaterra e Christa Winsloe foi assassinada por um agente da Gestapo em 1944, enquanto exilava-se na Riviera Francesa (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, embora seja uma obstinada declaração antifacista, no âmago de </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;">, afirma-se, antes de mais nada, uma história de amadurecimento. Sagan emparelha a consciência sociopolítica de seu tempo à representação hormonal dos primeiros amores, refletindo na narrativa uma experiência universal sob a especificidade de uma </span><a href="http://www.fiepbulletin.net/index.php/fiepbulletin/article/view/86.a1.38"><span style="font-weight: 400;">lente homoerótica</span></a><span style="font-weight: 400;">. Os corpos se maturam e, por trás das cortinas do internato, </span><a href="https://www.bfi.org.uk/features/madchen-in-uniform-leontine-sagan"><span style="font-weight: 400;">desperta-se silenciosamente o desejo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Porém, uma vez que uma Manuela embriagada declara o seu amor para Fräulein von Bernburg, um limite é transgredido. Até que ponto a afeição homossocial entre as garotas era permitida?</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Você não deveria pensar nessas coisas, muito menos falar sobre. Você deve voltar aos seus sentidos. Você deve ser curada custe o que custar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Curada? Sobre o quê?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Você não deveria me amar… tanto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Por que não?</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Os sentimentos, ora naturalizados pelo companheirismo sáfico das colegas, só eram aceitáveis devido à falta de meninos – não deviam significar nada além disso. Assim, firma-se um contrato taciturno que restringe essas afeições homoeróticas a um determinado estágio da juventude daquelas adolescentes que, com o tempo, sentiriam-se </span><a href="https://periodicos.ufrn.br/bagoas/article/view/2309"><span style="font-weight: 400;">compelidas a se entender como heterossexuais</span></a><span style="font-weight: 400;">. O filme se encerra com a certeza do amor de Manuela que entende, com medo, a influência de seus sentimentos sobre o futuro, enxergando, na morte, a única saída. Mas é na aliança que o último ato se finda.</span></p>
<figure id="attachment_25398" aria-describedby="caption-attachment-25398" style="width: 916px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25398" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img7.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Ilse, interpretada por Ellen Schwanneke, e Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Ambas são garotas brancas e se encaram. Ilse segura firme o rosto de Manuela com as mãos. O uniforme delas é um vestido listrado com golas brancas e um laço central. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="916" height="768" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img7.jpg 916w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img7-800x671.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img7-768x644.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25398" class="wp-caption-text">“Foi estranho. Bernburg não disse uma única palavra. Mas ela te assistiu. Você não pode nem imaginar de quão perto ela te assistiu.” (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Rebelando-se contra a tirania de Fräulein von Nordeck zur Nidden, as colegas se unem em solidariedade à Manuela. Proibidas, elas marcham juntas pelos corredores do internato em desobediência ao regime opressivo da superiora. Aqui, o poder é delas, o poder é do povo. Elas salvam a vida de Manuela ao passo que reivindicam a própria autonomia, encontrando a si mesmas apesar das estruturas repressivas. Em todo o seu </span><a href="https://www.criterion.com/current/posts/7429-the-femme-solidarity-and-queer-allyship-of-m-dchen-in-uniform"><span style="font-weight: 400;">potencial revolucionário</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um hino aos primeiros amores. Aqueles que ainda não estamos preparados para entender, para aceitar, mas que resistem, ainda que no limite de uma memória já desbotada.</span></p>
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