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	<title>Arquivos 50 anos &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>50 anos de Wish You Were Here e a presença remanescente de Syd Barrett no lirismo do Pink Floyd</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Oct 2025 13:00:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Eduardo Dragoneti Lançado em 12 de setembro de 1975, o álbum Wish You Were Here do Pink Floyd se tornou um marco, não só em sua discografia, mas na história do post-rock e da música conceitual. Surgido em um contexto de esgotamento criativo e crescente desilusão com a indústria fonográfica, o disco é, antes &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/wish-you-were-here-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "50 anos de Wish You Were Here e a presença remanescente de Syd Barrett no lirismo do Pink Floyd"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<figure id="attachment_35873" aria-describedby="caption-attachment-35873" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-35873 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/WYWH-1.jpg" alt="Capa do álbum Wish You Were Here do Pink Floyd. Na capa, ambientada no estacionamento dos estúdios da Warner Bros, um pátio de cimento com galpões bege nas laterais, dois homens de terno apertam as mãos enquanto um deles está em chamas." width="512" height="512" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/WYWH-1.jpg 512w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/WYWH-1-150x150.jpg 150w" sizes="(max-width: 512px) 85vw, 512px" /><figcaption id="caption-attachment-35873" class="wp-caption-text">A capa, criada pela Hipgnosis, simboliza a sensação de ‘ser queimado’ nos negócios, refletindo a visão da banda sobre a indústria musical da época (Foto: Hipgnosis)</figcaption></figure>
<p><b>Eduardo Dragoneti</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançado em 12 de setembro de 1975, o álbum </span><a href="https://entreacordes.blog/2020/09/12/45-anos-de-wish-you-were-here-um-dos-maiores-discos-conceituais-de-todos-os-tempos"><i><span style="font-weight: 400;">Wish You Were Here</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> do Pink Floyd se tornou um marco, não só em sua discografia, mas na história do </span><i><span style="font-weight: 400;">post-rock</span></i><span style="font-weight: 400;"> e da música conceitual. Surgido em um contexto de esgotamento criativo e crescente desilusão com a indústria fonográfica, o disco é, antes de tudo, uma </span><a href="https://www.antena1.com.br/noticias/wish-you-were-here-a-triste-historia-que-rendeu-a"><span style="font-weight: 400;">homenagem profunda</span></a><span style="font-weight: 400;"> dos integrantes da banda (David Gilmour, Roger Waters, Richard Wright e Nick Mason) ao ex-membro </span><a href="https://rollingstone.com.br/noticia/por-que-syd-barrett-saiu-do-pink-floyd"><span style="font-weight: 400;">Syd Barrett</span></a><span style="font-weight: 400;"> (1946-2006), cuja a ausência pairava sobre eles de forma incômoda após o artista sair do grupo.</span></p>
<p><span id="more-35872"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Barrett havia deixado o conjunto musical em abril de 1968, após episódios de instabilidade mental associados ao uso abusivo de LSDs e a um diagnóstico nunca confirmado de esquizofrenia. Apesar disso, sua influência e seu legado artístico ecoaram notavelmente nos trabalhos seguintes do </span><a href="https://whiplash.net/materias/news_680/371767-pinkfloyd.html"><span style="font-weight: 400;">Pink Floyd</span></a><span style="font-weight: 400;">, seja no próprio </span><i><span style="font-weight: 400;">Wish You Were Here</span></i><span style="font-weight: 400;"> ou em álbuns posteriores, como em </span><a href="https://rollingstone.com.br/musica/pink-floyd-lanca-animals-2018-remix-ainda-atual-disco-precisava-de-nova-versao-review"><i><span style="font-weight: 400;">Animals</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e o aclamado </span><a href="https://pinkfloyd.com.br/another-brick-in-the-wall-a-musica-mais-famoso-do-pink-floyd"><i><span style="font-weight: 400;">The Wall</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Já em </span><a href="https://www.collectorsroom.com.br/2019/08/review-pink-floyd-momentary-lapse-of.html"><i><span style="font-weight: 400;">A Momentary Lapse of Reason</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, faixas como </span><i><span style="font-weight: 400;">Sorrow</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">One Slip</span></i><span style="font-weight: 400;"> falam sobre a fragilidade da mente e a perda de alguém próximo, temas que os fãs relacionam à história do ex-vocalista e guitarrista.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A faixa que abre e encerra o álbum, </span><a href="https://1023.clicrbs.com.br/blogda1023/2022/02/15/alem-da-letra-conheca-historia-da-musica-shine-crazy-diamond-pink-floyd"><i><span style="font-weight: 400;">Shine On You Crazy Diamond</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, é uma suíte em nove partes composta por Waters, Wright e Gilmour, dedicada a Barrett – o “</span><i><span style="font-weight: 400;">diamante louco</span></i><span style="font-weight: 400;">” a quem o título faz referência. Os primeiros 13 minutos e meio do disco introduzem de forma lenta, instrumental e muito bem elaborada a </span><a href="https://www.letras.mus.br/blog/shine-on-you-crazy-diamond-historia"><span style="font-weight: 400;">dor da perda</span></a><span style="font-weight: 400;">, diferente da causada pela morte, mas a de saber que um alguém querido está em algum lugar, que não é mais tão perto quanto antes (física e afetivamente).</span></p>
<figure id="attachment_35874" aria-describedby="caption-attachment-35874" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-35874" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/WYWH-2.jpg" alt="Syd Barrett, caminha por uma calçada por um bairro de Londres em uma foto em preto e branco. Ele veste terno e camisa escura, olhando diretamente para a câmera com expressão séria e um cigarro na mão esquerda. Ao fundo, há carros antigos estacionados e uma mulher carregando sacolas." width="512" height="288" /><figcaption id="caption-attachment-35874" class="wp-caption-text">Roger ‘Syd’ Barrett faleceu de câncer no pâncreas em 7 de julho de 2006 no Hospital Addenbrooke, em Cambridge. Ele não deixou esposa nem filhos (Foto: Mick Rock)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na mesma faixa, Waters escreve: &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">Você foi apanhado no fogo cruzado / Da infância e da fama / Soprado pela brisa de aço</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8221; – um retrato aguçado da trajetória de Barrett e de seu desaparecimento dentro de si mesmo. No encerramento da canção, o sintetizador de Wright emula as notas de </span><a href="https://whiplash.net/materias/news_701/356414-pinkfloyd.html"><i><span style="font-weight: 400;">See Emily Play</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, composição de Barrett que abre o primeiro disco da banda, </span><a href="https://www.rockinthehead.com/single-post/pink-floyd-resenha-do-%C3%A1lbum-the-piper-at-the-gates-of-dawn"><i><span style="font-weight: 400;">The Piper at the Gates of Dawn</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. A escolha não foi à toa. Segundo os próprios integrantes do Pink Floyd, Emily é uma personagem que foi fruto de um sonho de Syd Barrett, possivelmente induzido por LSD. Ele dizia ter visto uma garota etérea brincando em um bosque, e que a imagem ficou em sua mente como uma pintura viva.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A mistura de fantasia e realidade, típica das composições de Syd nesse período, passou a ser vista como uma espécie de </span><a href="https://www.ecstaticintegration.org/p/the-rise-and-fall-of-the-acid-casualty"><span style="font-weight: 400;">prenúncio</span></a><span style="font-weight: 400;"> de seu colapso. Décadas depois, muitos fãs e críticos enxergam a música como uma despedida simbólica de uma mente criativa que estava se afastando da realidade, justificando a escolha de Wright como uma espécie de ‘adeus’ não-verbal ao amigo.</span></p>
<figure id="attachment_35875" aria-describedby="caption-attachment-35875" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-35875" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/WYWH-3.png" alt=" Fotografia em preto e branco mostrando os integrantes do Pink Floyd na sacada de um prédio. Da direita para a esquerda: Nick Mason apoiado na grade, Roger Waters usando um casaco de pele, Syd Barrett em destaque com blusa branca e cabelo desgrenhado, e Richard Wright inclinado para frente, segurando a barra do corrimão. Entre eles há luzes decorativas penduradas e, ao fundo, parte de uma escada lateral externa" width="512" height="344" /><figcaption id="caption-attachment-35875" class="wp-caption-text">Roger Waters é creditado como compositor em mais de 90 músicas do Pink Floyd (cerca de 60 como autor principal e mais de 30 em créditos compartilhados) e foi o líder e principal letrista da banda por grande parte da sua carreira, especialmente após a saída de Syd Barrett (Foto: Baron Wolman)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A certeza da saudade se concretiza na canção homônima do álbum. </span><a href="https://pinkfloyd.com.br/a-musica-mais-famosa-do-pink-floyd-e-wish-you-were-here"><i><span style="font-weight: 400;">Wish You Were Here</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> chega como um tiro no peito sem aviso prévio, como é de costume para canções do Pink Floyd. A faixa inicia com uma curta conversa gravada nos corredores do </span><a href="https://www.abbeyroad.com/news/the-dark-side-of-the-moon-studio-documents-3299"><i><span style="font-weight: 400;">Abbey Road Studios</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, interrompida rapidamente pelo famoso </span><i><span style="font-weight: 400;">riff </span></i><span style="font-weight: 400;">da música, impactando o ouvinte que nem tem tempo de compreender o diálogo. Ao fundo, um violão ‘falso’ soa abafado e distante, como se vindo de um rádio velho. Em seguida, o toque real de Gilmour entra em primeiro plano, limpo, criando um contraste sonoro que traduz exatamente o </span><a href="https://cafecomsociologia.com/analise-da-musica-wish-you-were-here-pink-floyd-ideologia/"><span style="font-weight: 400;">sentimento</span></a><span style="font-weight: 400;"> da canção: estar ao lado e, ao mesmo tempo, distante de alguém. As risadas e respirações no início parecem espontâneas, quase casuais, até que a melodia se impõe de maneira íntegra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo Roger Waters, compositor da música, </span><i><span style="font-weight: 400;">Wish You Were Here</span></i><span style="font-weight: 400;"> não fala apenas de Syd Barrett, mas de um sentimento mais amplo e existencial. Em suas palavras em entrevista ao documentário </span><a href="https://www.collectorsroom.com.br/2012/08/pink-floyd-critica-de-historia-de-wish.html#google_vignette"><i><span style="font-weight: 400;">Pink Floyd: The Story of “Wish You Were Here”</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2012): “</span><i><span style="font-weight: 400;">Você consegue se libertar o suficiente para experimentar a realidade da vida e como ela acontece diante de você? Porque, se não conseguir, você vai continuar parado na estaca zero até morrer. É disso que essa música trata.</span></i><span style="font-weight: 400;">” Já para David Gilmour: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Embora &#8216;Shine On&#8217; seja a que fala </span></i><a href="https://www.hfnews.com.br/news/entendendo-wish-you-were-here-um-dos-albuns-mais-controversos-do-pink-floyd"><i><span style="font-weight: 400;">especificamente sobre Syd</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, e Wish You Were Here tenha um escopo mais amplo… eu não consigo cantá-la sem pensar nele.</span></i><span style="font-weight: 400;">” Assim, a canção torna-se um lamento que é pessoal e universal ao mesmo tempo, a ausência de alguém que está presente demais para ser esquecido.</span></p>
<figure id="attachment_35876" aria-describedby="caption-attachment-35876" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-35876 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/WYWH-4.png" alt="Foto preto e branca: Roger Waters debruça sobre a mesa de som do Abbey Road Studios vestindo um suéter e atrás dele um garoto, também vestindo um suéter, come um picolé enquanto observa o equipamento." width="512" height="288" /><figcaption id="caption-attachment-35876" class="wp-caption-text">A banda demorou em torno de 6 meses,de janeiro a julho de 1975, para gravar todas as músicas do disco (Foto: Jill Furmanovsky)</figcaption></figure>
<p><a href="https://americansongwriter.com/the-meaning-behind-welcome-to-the-machine-by-pink-floyd"><i><span style="font-weight: 400;">Welcome to the Machine</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://consequence.net/2020/10/the-story-behind-pink-floyd-have-a-cigar"><i><span style="font-weight: 400;">Have a Cigar</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> formam o núcleo mais </span><a href="https://open.spotify.com/episode/6XrX5iAT9N8K2dCJLppvIK?si=9dde9c576168444f&amp;nd=1&amp;dlsi=b8802c23183b4f86"><span style="font-weight: 400;">ácido</span></a><span style="font-weight: 400;"> do disco, funcionando como uma espécie de dupla crítica ao universo da indústria fonográfica. Se a primeira traduz a engrenagem impessoal do sistema, a segunda dá rosto e voz aos executivos bajuladores que movem essa mesma </span><a href="https://whiplash.net/materias/news_831/171296-pinkfloyd.html"><span style="font-weight: 400;">máquina</span></a><span style="font-weight: 400;">. Juntas, as duas canções revelam o olhar desencantado do Pink Floyd diante de um mercado que transforma sonhos em mercadoria, e deixam claro que o sucesso também podia ser uma prisão – ideia que, inevitavelmente, remete àquilo que afastou Syd Barrett do grupo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Welcome to the Machine</span></i><span style="font-weight: 400;">, a banda constrói um diálogo entre a Máquina –metáfora para o capitalismo e o próprio mercado musical – e um </span><a href="https://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/syd-barrett-o-lado-escuro-do-pink-floyd-9kg9efu40pijuafyahd36wksu"><span style="font-weight: 400;">jovem sonhador</span></a><span style="font-weight: 400;">, disposto a se entregar para alcançar reconhecimento. O suposto acolhimento é, na verdade, uma manipulação: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Com o que você sonhou? / Tudo bem, nós te dissemos com o que sonhar / Você sonhou com uma grande estrela</span></i><span style="font-weight: 400;">”. O </span><a href="https://revistacontinente.com.br/edicoes/267/o-lado-brilhante-do-pink-floyd"><span style="font-weight: 400;">sistema</span></a><span style="font-weight: 400;"> não apenas dita as regras, mas também escolhe seus desejos. A voz de Gilmour, carregada de pesar ao cantar: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Ele tocava uma guitarra bestial / Ele comia sempre no bar / Ele adorava dirigir seu Jaguar / Então, bem-vindo à máquina</span></i><span style="font-weight: 400;">”, expõe o sonhador agora como um personagem do passado, alguém que foi engolido pela engrenagem que o consagrou. Inevitavelmente o trecho foi associado à trajetória de Barrett.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já em </span><i><span style="font-weight: 400;">Have a Cigar</span></i><span style="font-weight: 400;">, a abstração dá lugar à caricatura de um executivo da indústria, ignorante e interesseiro, que os trata como produto e não como Arte. Com vocais de </span><a href="https://faroutmagazine.co.uk/lead-vocals-pink-floyd-song-have-a-cigar"><span style="font-weight: 400;">Roy Harper</span></a><span style="font-weight: 400;">, convidado para substituir Waters e Gilmour, insatisfeitos com suas próprias tentativas, a faixa carrega ironia do início ao fim. O </span><a href="https://mumblingabout.com/2019/07/16/oh-by-the-way-which-ones-pink"><span style="font-weight: 400;">famoso verso</span></a><span style="font-weight: 400;"> – “</span><i><span style="font-weight: 400;">A banda é fantástica, isso é o que eu realmente acho / Oh, por sinal, qual de vocês é o Pink?</span></i><span style="font-weight: 400;">” – expõe o desdém de quem só enxerga cifras e fama, sem nenhum interesse pelo grupo em si. A canção também é interpretada como uma exposição do preço que os integrantes pagaram para chegar a </span><a href="https://rollingstone.com.br/musica/a-pior-epoca-do-pink-floyd-segundo-david-gilmour"><span style="font-weight: 400;">ascensão astronômica</span></a><span style="font-weight: 400;">. O personagem executivo é a materialização de um sucesso sem alma, justamente o que afastou o ex-membro.</span></p>
<figure id="attachment_35877" aria-describedby="caption-attachment-35877" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-35877" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/WYWH-5.jpg" alt="Foto polaroid: Syd Barrett, careca, obeso e sem sobrancelhas, vestindo uma camisa social branca e uma calça preta, posa de lado para a foto, encarando profundamente a câmera dentro do Abbey Road Studios." width="512" height="495" /><figcaption id="caption-attachment-35877" class="wp-caption-text">Os integrantes da banda demoraram em torno de 45 minutos para finalmente reconhecerem Syd Barrett, que, segundo Wright, ficou o tempo todo em silêncio e escovando constantemente os dentes no banheiro do estúdio (Foto: Nick Mason)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um dos episódios mais </span><a href="https://veja.abril.com.br/coluna/o-som-e-a-furia/o-dia-em-que-um-dos-maiores-grupos-de-rock-viu-um-fantasma-no-estudio"><span style="font-weight: 400;">marcantes</span></a><span style="font-weight: 400;"> da história do Pink Floyd, Syd Barrett apareceu inesperadamente no </span><i><span style="font-weight: 400;">Abbey Road Studios </span></i><span style="font-weight: 400;">em 5 de junho de 1975, enquanto o grupo finalizava as gravações de </span><i><span style="font-weight: 400;">Shine On You Crazy Diamond (Pts. 6-9)</span></i><span style="font-weight: 400;">. Estava irreconhecível: obeso, com a cabeça raspada, sem sobrancelhas e o olhar distante. Seus antigos colegas demoraram a reconhecê-lo, e o encontro foi carregado de tristeza e </span><a href="https://www.portaltela.com/entretenimento/musica/2025/01/27/pink-floyd-e-a-surpreendente-aparicao-de-syd-barrett-durante-gravacao-historica"><span style="font-weight: 400;">simbolismo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Waters e Gilmour, em especial, ficaram profundamente abalados, caindo em lágrimas ao verem o amigo por muito tempo perdido. Gilmour relata no documentário que: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Foi uma grande perda. E imaginar o que ele teria feito&#8230; especular sobre isso, se você preferir&#8230; Ele poderia ter se tornado tão grandioso</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Ninguém sabe onde você está / O quão perto ou o quão longe / Brilhe, seu diamante louco”.</span></i><span style="font-weight: 400;"> A certeza de que, independente de onde Syd Barrett estivesse, o Pink Floyd só queria que ele brilhasse loucamente, como fez enquanto esteve na </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/ultima-reuniao-do-pink-floyd-com-formacao-classica-foi-ha-20-anos-relembre/"><span style="font-weight: 400;">banda</span></a><span style="font-weight: 400;">. Aqui, o álbum finaliza voltando a melancolia da qual foi iniciado, a sensação de que o recado foi passado, mas com a incerteza de que chegará ao </span><a href="https://rollingstone.com.br/noticia/flashback-ultima-entrevista-de-syd-barrett/"><span style="font-weight: 400;">destinatário</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Wish You Were Here</span></i><span style="font-weight: 400;"> é essencialmente um disco sobre ausência, seja a de Barrett, seja a de autenticidade no mercado musical ou seja a </span><a href="https://www.loudersound.com/features/how-wish-you-were-here-was-the-beginning-of-the-end-for-pink-floyd"><span style="font-weight: 400;">desconexão</span></a><span style="font-weight: 400;"> entre os próprios membros do grupo. É também uma carta de amor a um amigo perdido, um lamento musical que, meio século depois, ainda ecoa com intensidade. O álbum é um lembrete de que algumas presenças continuam a se fazer sentir, mesmo que estejam absolutamente perdidas.</span></p>
<p><iframe title="Spotify Embed: Wish You Were Here" style="border-radius: 12px" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/album/0bCAjiUamIFqKJsekOYuRw?si=oQQGRO-bQRSWId731Ki2tQ&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Família, sangue, vingança e meio século de tradição reunidos em O Poderoso Chefão</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Oct 2022 14:38:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Gomes Santana “Por que você veio até mim antes de ir à Polícia prestar queixas?”, disse o grande padrinho, Don Vito Corleone, no início de O Poderoso Chefão. Aclamado pela crítica, vencedor de três Oscars e dono da mais alta charmosidade cinematográfica, o filme de Francis Ford Coppola celebra cinco décadas. Você conhece aquela &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-poderoso-chefao-50-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Família, sangue, vingança e meio século de tradição reunidos em O Poderoso Chefão"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28850" aria-describedby="caption-attachment-28850" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28850" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Casamento-Connie.png" alt="Cena do filme O Poderoso Chefão - Família Corleone reunida para a foto oficial do casamento de Connie. A imagem exibe os principais membros da família Corleone. Vemos Don Vito centralizado com um smoking preto ao lado de sua esposa, Carmela Corleone (Morgana King). Do lado direito estão: Sonny (o mais velho), Sandra (esposa de Sonny), as filhas gêmeas de Sonny e Sandra à frente, Michael e sua namorada Kay. Ao lado esquerdo estão: Carmela, Connie Corleone (noiva) e seu marido Carlo Rizzi, Freddo e Tom Hagen. Todos os homens da família Corleone estão trajados de smoking preto, exceto Michael e o noivo Rizzi. Michael está com um terno oficial militar verde e Carlo aparece com uma gravata preta. Todas as crianças estão à frente de seus respectivos pais." width="512" height="258" /><figcaption id="caption-attachment-28850" class="wp-caption-text">Coppola não poderia ser mais assertivo ao trazer o casamento de Connie Corleone como cartão de visita para apresentar o núcleo das personagens e, ao mesmo tempo, a dicotomia entre família e negócios (Foto: Paramount Pictures)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Gomes Santana</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Por que você veio até mim antes de ir à Polícia prestar queixas?</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">disse o grande padrinho, Don Vito Corleone, no início de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Poderoso Chefão</span></i><span style="font-weight: 400;">. Aclamado pela crítica, vencedor de três </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscars </span></i><span style="font-weight: 400;">e dono da mais alta charmosidade cinematográfica, o filme de Francis Ford Coppola celebra cinco décadas. Você conhece aquela expressão “</span><i><span style="font-weight: 400;">old but gold</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">ou “velho, mas brilhante”? Se encaixa perfeitamente para resumir essa fantástica ascensão de um império americano à moda italiana. Este texto traz como tema central as nuances e razões que fazem da obra algo </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-poderoso-chefao-ainda-uma-oferta-irrecusavel/"><span style="font-weight: 400;">irrecusável</span></a><span style="font-weight: 400;">, à frente de seu tempo e </span><a href="https://theseventies.berkeley.edu/godfather/2018/06/06/a-family-in-celebration-and-in-transition-the-godfathers-opening-wedding-scene/"><span style="font-weight: 400;">referência na arte</span></a><span style="font-weight: 400;"> de expor a máfia nas telonas.</span></p>
<p><span id="more-28849"></span></p>
<h5><b>Impossível não amar!</b></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Utilizada como referência artística em diversos âmbitos da </span><a href="https://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica/article/view/21504/11875"><span style="font-weight: 400;">cultura </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, está para nascer um filme que tenha tanto reconhecimento do grande público. Se você mora no Brasil e nunca viu pelo menos uma pizzaria, barbearia, tabacaria ou qualquer outro estabelecimento com o nome inspirado nesse clássico das telonas, você vive no país errado. Diante disso, não confie em nenhuma classificação que coloque </span><i><span style="font-weight: 400;">O Poderoso Chefão </span></i><span style="font-weight: 400;">abaixo do ‘top 3’ de ‘Melhores Filmes de Todos os Tempos’. Digo isso por três óbvias razões: enredo, produção audiovisual e construção cênica. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A começar pelo enredo, que por si só já é irrecusável, as propostas de cena e as planificações de filmagem fazem da trama única e enigmática. O fervor dramático é mesclado com cores quentes e trilhas sonoras épicas. As </span><a href="https://viagemeturismo.abril.com.br/coluna/piacere-italia/cenarios-de-o-poderoso-chefao-nos-arredores-de-taormina/"><span style="font-weight: 400;">composições de cenário</span></a><span style="font-weight: 400;"> revivem os tempos do pós-Guerra e trazem consigo o ‘sonho americano’ de todo imigrante que busca crescer na América. Mas para que tudo isso fosse possível, era necessário escalar um elenco de peso que fizesse jus aos retratos que ali foram propostos.</span></p>
<figure id="attachment_28851" aria-describedby="caption-attachment-28851" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28851 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Coppola.jpg" alt="Cena do filme O Poderoso Chefão - Um retrato de três figuras marcantes deste filme. À esquerda temos Francis Ford Coppola, diretor e co-roteirista de The Godfather. Ao centro, Richard Conte (intérprete de Emilio Barzini) e por fim, o grande Marlon Brando (Don Vito Corleone). Nesse retrato, Coppola está direcionando seu braço em contato com Brando enquanto seus olhos estão atentos para um ângulo horizontal. Conte observa ao centro, enquanto Brando tem sua atenção voltada para Coppola, esperando uma reação do diretor." width="1024" height="683" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Coppola.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Coppola-800x534.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Coppola-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28851" class="wp-caption-text">Uma das maiores virtudes de O Poderoso Chefão é conseguir passar ricas emoções sobre o tema da convivência familiar (Foto: Paramount Pictures)</figcaption></figure>
<h5><b>O fardo de ter um elenco dos sonhos </b></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Figurinha carimbada de </span><i><span style="font-weight: 400;">Hollywood</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://cm-ob.pt/story-rise"><span style="font-weight: 400;">Marlon Brando</span></a><span style="font-weight: 400;"> foi escalado para atuar no filme que seria o mais emblemático de sua carreira. Àquela altura de sua fama, o ator estava sendo ‘jogado a escanteio’ para outros projetos, sem o merecido respaldo da crítica. Além disso, somente através de </span><i><span style="font-weight: 400;">O</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">Poderoso Chefão </span></i><span style="font-weight: 400;">que Brando conseguiu desvincular qualquer rumor que o colocasse como um profissional limitado, que ainda gozava de um brilho ultrapassado nos tempos de sua adolescência. Don Vito, assim como Rocky (Sylvester Stallone), é um dos poucos </span><a href="https://www.revistabula.com/37897-os-100-personagens-mais-marcantes-da-historia-do-cinema-2/"><span style="font-weight: 400;">personagens do Cinema</span></a><span style="font-weight: 400;"> em que encontramos assimilação imediata com seu intérprete. Não tem como enxergar em Marlon Brando outro personagem senão Don Vito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Porém, se engana quem pensa que o ator topou de imediato protagonizar o papel de Vito Corleone. A convite de Coppola, o profissional teve árduas discussões com o jovem diretor até acertar os acordos comerciais da produção. Ao que tudo indica, Marlon teve que abdicar de cerca de </span><a href="https://operamundi.uol.com.br/hoje-na-historia/10756/hoje-na-historia-1973-marlon-brando-se-recusa-a-receber-oscar-por-o-poderoso-chefao#:~:text=Francis%20Ford%20Coppola%2C%20o%20jovem,havia%20exigido%20uma%20d%C3%A9cada%20antes"><span style="font-weight: 400;">250 mil dólares</span></a><span style="font-weight: 400;"> de seu cachê pessoal. Enquanto o </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-a-insana-vida-sexual-de-marlon-brando.phtml?fbclid=IwAR1oXV67KdwH7dxoCwSypmGMCKFAptE79bsvMJ22WAqE0ccAAK1OuHRbeH8"><span style="font-weight: 400;">garanhão</span></a><span style="font-weight: 400;"> dos anos 1950 era veterano de sucesso, Al Pacino, por outro lado, ainda estava longe de ser uma estrela </span><i><span style="font-weight: 400;">hollywoodiana</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De origem pobre e envolvido em diversos problemas de relacionamento, </span><a href="https://www.terra.com.br/diversao/tv/al-pacino-revela-a-complexidade-de-seus-personagens,c6c52d9aa7cd3b0ce61aabb9eab0eb32sxsfz8zp.html"><span style="font-weight: 400;">Al Pacino</span></a><span style="font-weight: 400;"> fugiu de casa aos 19 anos para bancar a escolha pela atuação. Sim, é como se o ator tivesse sido predestinado a seguir carreira artística, afinal sobrava talento. Após ganhar o prêmio </span><a href="https://www.obieawards.com/events/1960s/year-68/"><i><span style="font-weight: 400;">Obie Award</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Melhor Ator</span></a><span style="font-weight: 400;"> pela peça </span><i><span style="font-weight: 400;">The Indian Wants the Bronx, </span></i><span style="font-weight: 400;">os holofotes vieram para que, em 1971, surgisse o convite para atuar pela primeira vez no Cinema em </span><i><span style="font-weight: 400;">O Poderoso Chefão </span></i><span style="font-weight: 400;">como Michael Corleone, também a pedido de Coppola.</span></p>
<figure id="attachment_28853" aria-describedby="caption-attachment-28853" style="width: 1050px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28853" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Michael.png" alt="Cena do filme O Poderoso Chefão - Um retrato de Al Pacino ajustando seu figurino e se preparando para a cena dentro do restaurante Louis, localizado no Bronx (NY). A imagem está centrada em Al Pacino, que está de terno, sentado à mesa redonda do restaurante. Em pé aparece um senhor que possivelmente é um assessor técnico de gravação do filme. O senhor em pé está ajustando a gola de Al Pacino. Ele é um senhor branco, de estatura média, calvo, que aparenta ter entre 45 a 50 anos de idade. Enquanto que Al Pacino é um homem branco, de cabelo escovado e liso preto. Ao fundo da imagem percebemos que há pessoas (figurantes) sendo atendidas(os) por um garçom do restaurante." width="1050" height="699" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Michael.png 1050w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Michael-800x533.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Michael-1024x682.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Michael-768x511.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28853" class="wp-caption-text">O desacreditado Pacino teve que mostrar o melhor de Michael Corleone na gloriosa cena do restaurante Louis, indiscutivelmente uma das melhores do filme (Foto: Paramount Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Já imaginou arriscar um papel tão importante nas mãos de um pupilo estreante? E não é que deu certo? É claro que ter o experiente Marlon Brando na equipe também ajudou, mas a atuação de Al Pacino deu de dez à zero em qualquer suspeita sobre suas qualidades cênicas. Em uma entrevista durante o </span><a href="https://www.thedigitalfix.com/the-godfather/al-pacino-almost-fired-but-one-scene-saved-him"><span style="font-weight: 400;">Tribeca Film Festival</span></a><span style="font-weight: 400;">, Robert De Niro confirmou que estava sendo sondado para o papel de Michael, no entanto, confirmou que não haveria ator melhor para executá-lo senão Pacino. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas </span><a href="https://comozed.com/onde-foi-filmada-a-cena-do-batismo-em-o-poderoso-chef%C3%A3o"><span style="font-weight: 400;">cenas do hospital e do batizado</span></a><span style="font-weight: 400;"> de seu enteado, Michael Francis Rizzi (filho de Connie), percebe-se a absurda transformação de Michael de um personagem tímido e confuso, no início, para alguém frio, calculista e inabalável. Num ritmo frenético, a trama expõe como o destino está ligado às escolhas da vida que, apesar de serem imprevisíveis, podem ser irreversíveis. Da mesma forma, pode-se concluir que a caracterização de Al Pacino como um dos protagonistas da família Corleone também reflete na trajetória de um profissional misterioso, porém preparado para executar um personagem desafiador, assim como a carreira e vida pessoal do intérprete.</span></p>
<figure id="attachment_28852" aria-describedby="caption-attachment-28852" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28852" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Michael-Corleone.png" alt="Cena do filme O Poderoso Chefão - A cena ‘em close’ do ator Al Pacino, um homem branco que aparenta ter 30 anos de idade, centralizado em primeiro plano. Ele tem cabelo escovado e liso para trás. Seus olhos são pretos e sua expressão facial é séria. Seu personagem, Michael Corleone, usa um terno cinza escuro e uma gravata zebra (listrada em preto e branco). Atrás de Michael é possivél enxergar um coral infantil de crianças brancas e sérias olhando na mesma direção que Michael (possivelmente para o padre que coordena o batismo)." width="512" height="288" /><figcaption id="caption-attachment-28852" class="wp-caption-text">Na icônica cena do batismo, a frieza do olhar de Michael Corleone esbanja excentricidade na talentosa atuação de Al Pacino (Foto: Paramount Pictures)</figcaption></figure>
<h5><b>Uma história impecável</b></h5>
<p><a href="https://www.estilogangster.com.br/conheca-as-5-familias-mafiosas-de-nova-york/"><span style="font-weight: 400;">Cinco famílias mafiosas</span></a><span style="font-weight: 400;"> detinham o domínio político, militar e econômico na cidade de Nova York dos anos 1950. Porém, apenas uma conseguira conciliar ambição, poder e respeito em suas atitudes: os Corleone. Liderado por seu patriarca siciliano, Don Vito, um homem que administrava seus negócios segundo seus próprios valores éticos e morais, o clã era sinônimo de prestígio e popularidade nas comunidades nova-iorquinas. Construir um império baseado na confiança de terceiros não foi tarefa fácil, mas derrubá-lo através do asssassinato de seu líder seria impensável, devido à rede de alianças firmada entre as cinco famílias &#8211; Corleone, Tattaglia, Barzini, Cuneo e Stracci &#8211; e o governo </span><i><span style="font-weight: 400;">yankee </span></i><span style="font-weight: 400;">que os sustentava.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar dessa política clientelista, a regra número um dos Corleone é zelar pelos seus e manter os casais sempre unidos. Como toda estrutura patriarcal, sobretudo daquela época, o legado é passado para o primogênito que, inevitavelmente, será o futuro Don Corleone. Só que nem sempre o mais velho é o mais preparado. Este é o caso de Sonny (</span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2022/07/07/james-caan-ator-de-o-poderoso-chefao-morre-aos-82-anos.ghtml"><span style="font-weight: 400;">James Caan</span></a><span style="font-weight: 400;">), o filho mais intenso e explosivo dos quatro sucessores de Vito. Mulherengo, esquentado e super emocional, Sonny age por impulsos para defender a honra da família e, consequentemente, isso o leva a um destino desastroso, longe de assumir a liderança.</span></p>
<figure id="attachment_28854" aria-describedby="caption-attachment-28854" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28854" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Sonny.jpg" alt="Cena do filme O Poderoso Chefão. Sonny (James Caan) aparece dando um tapa em Carlo Rizzi (Gianni Russo). Na imagem, Carlo se escora em uma parede na qual aparece a propaganda de um cigarro Camel, típico dos anos 1950. Ambos são homens brancos de cabelos ondulados e volumosos. Sonny está vestido com terno completamente azul, enquanto Carlo está com um sobretudo laranja manchado de sangue." width="2048" height="1460" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Sonny.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Sonny-800x570.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Sonny-1024x730.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Sonny-768x548.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Sonny-1536x1095.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Sonny-1200x855.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28854" class="wp-caption-text">Vai, confessa, você também torceu para o Sonny dar um ‘corretivo’ em Carlo nessa cena (Foto: Paramount Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É curioso notar como Vito coordena seus negócios através de um código de conduta que tenta desvincular suas atividades ilícitas ao crime. A palavra ‘máfia’ sequer é mencionada pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">capo</span></i><span style="font-weight: 400;"> (em italiano, o termo é designado para se referir ao cabeça, líder, chefe). Na visão dele, cassinos e apostas são vícios ligados ao prazer, mas que não são destrutivos como as drogas. Essa recusa em se envolver no narcotráfico, junto aos Tattaglia e Barzini na clássica reunião com </span><a href="https://godfather.fandom.com/wiki/Virgil_Sollozzo"><span style="font-weight: 400;">Sollozzo</span></a><span style="font-weight: 400;">, foi justamente o que desencadeou a guerra entre as cinco famílias.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O conflito tem início com um ataque brutal a Vito Corleone, que sofre um atentado à bala e permanece fragilizado no hospital. A partir desse momento, entra em cena o caçula, Michael, um militar aspirante que não possui ligação com os </span><a href="https://melhoreseunegocio.blogspot.com/2016/06/o-poderoso-chefao-10-ensinamentos-para.html"><span style="font-weight: 400;">negócios da família</span></a><span style="font-weight: 400;">. As reviravoltas acontecem e, no final, somos surpreendidos com a rendição dos tiranos e a ascensão de uma nova era. Qual caminho é viável para se manter no poder? A linha tênue entre justiça e vingança realmente existe? Indagações profundas que são lançadas ao espectador que, possivelmente, esteja chocado com as escolhas do sucessor de Don Vito.</span></p>
<figure id="attachment_28856" aria-describedby="caption-attachment-28856" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28856" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Don-Vito.png" alt="Cena do filme O Poderoso Chefão - Vito aparece sentado em seu escritório recebendo conselhos de seu filho, advogado e consierge Tom Hagen em primeiro plano. Don Corleone é um senhor de idade, branco e italiano, na casa de seus 70 anos e usa um smoking que carrega uma pequena rosa em seu bolso direito do blazer. Apesar de estar de lado para a câmera, Hagen é um homem branco, calvo que aparece se curvando para cochichar no ouvido de Don Vito, no lado esquerdo da imagem." width="1200" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Don-Vito.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Don-Vito-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Don-Vito-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Don-Vito-768x432.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28856" class="wp-caption-text">O homem das ofertas irrecusáveis também precisa escutar conselhos de seu concierge (Foto: Paramount Pictures)</figcaption></figure>
<h5><b>Qualquer semelhança não é mera coincidência</b></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Enaltecer </span><i><span style="font-weight: 400;">O Poderoso Chefão </span></i><span style="font-weight: 400;">hoje em dia</span> <span style="font-weight: 400;">é moleza perante a difícil coragem que Allan Rudy e Coppola tiveram, ainda nos anos 1960, em insistir numa obra polêmica, autêntica, irreverente e perigosa como o </span><a href="https://stringfixer.com/pt/The_Godfather_(novel)"><span style="font-weight: 400;">livro homônimo</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Mario Puzo, que deu origem ao enredo. Isso porque, na conjuntura de sua época, seria bem mais convincente investir em ficções que não tivessem vínculo com facções da vida real. Naquele tempo, a </span><i><span style="font-weight: 400;">Paramount Pictures</span></i><span style="font-weight: 400;">, gigantesca produtora </span><i><span style="font-weight: 400;">hollywoodiana</span></i><span style="font-weight: 400;">, já angariava milhões de dólares com </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-por-um-punhado-de-dolares/"><span style="font-weight: 400;">roteiros clichês de </span><i><span style="font-weight: 400;">western</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e não pretendia se arriscar em conflitar com a grande massa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fato é que, para a nossa sorte, existia em paralelo o interesse de dois gênios escritores e roteiristas, Rudy e Puzo, em retratar no Cinema aquilo que era um tabu na sociedade: os mafiosos. Apesar de serem excelentes escritores, ambos jamais haviam trabalhado à frente de um </span><a href="https://www.bol.uol.com.br/fotos/2017/03/15/45-curiosidades-de-o-poderoso-chefao-classico-do-cinema-que-faz-45-anos.htm?mode=list&amp;foto=5"><span style="font-weight: 400;">projeto tão gigantesco</span></a><span style="font-weight: 400;">, sobretudo, sequer haviam escrito e produzido para </span><i><span style="font-weight: 400;">Hollywood</span></i><span style="font-weight: 400;">. Porém, era inegável o empenho e força de vontade em levar para a Sétima Arte uma história que se aproximasse mais do povo.</span></p>
<figure id="attachment_28857" aria-describedby="caption-attachment-28857" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28857" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/The-Offer.jpg" alt="Cena do filme O Poderoso Chefão. Os atores Patrick Gallo e Dan Fogler estão juntos interpretando, respectivamente, Mário Puzzo e Francis Ford Coppola. Esta imagem retrata a cena na qual ambas as personagens do seriado ‘The Offer’ aparecem sentadas em um sofá discutindo o planejamento do filme The Godfather. Puzzo é um senhor gordo italiano, na casa de seus 50 anos de idade, e está fumando um charuto. Coppola também é gordo,branco e, diferente de Puzzo, possui uma barba densa e preta. Ambos usam óculos e têm cabelo comprido liso." width="1200" height="628" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/The-Offer.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/The-Offer-800x419.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/The-Offer-1024x536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/The-Offer-768x402.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28857" class="wp-caption-text">A série <a href="https://personaunesp.com.br/the-offer-critica/">The Offer</a>, original do Paramount+, resgata as memórias dos bastidores do filme e todos os obstáculos que foram travados para que The Godfather pudesse entrar em cartaz (Foto: Paramount+)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O jeito de agir, se comportar e relacionar, e muitos outros </span><a href="https://theseventies.berkeley.edu/godfather/2018/06/06/a-family-in-celebration-and-in-transition-the-godfathers-opening-wedding-scene/"><span style="font-weight: 400;">elementos sociais</span></a><span style="font-weight: 400;"> presentes na família de Don Vito Corleone assustavam e incomodavam os verdadeiros chefões do crime organizado. O compromisso com a verossimilhança era tanto que o filme sofreu ameaças e boicotes por parte das comunidades italianas. Nem isso impediu o triunfo do clássico </span><i><span style="font-weight: 400;">O Poderoso Chefão</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há boatos de que a mera apresentação do romance escrito por Mario Puzo também desagradou a classe artística. Em especial, músicos ítalo-americanos que se apresentavam em restaurantes e cassinos badalados dos anos 1960. Sim, ele mesmo: </span><a href="https://www.revistabula.com/1600-o-drama-de-frank-sinatra-nas-maos-de-don-corleone/"><span style="font-weight: 400;">Frank Sinatra</span></a><span style="font-weight: 400;">. Segundo relatos de Puzo, Sinatra teria ido contra o livro por pensar que o personagem Johnny Fontane era inspirado em sua autobiografia. Além de temer que as pessoas o associassem ao cantor decadente da obra, o astro do </span><i><span style="font-weight: 400;">jazz </span></i><span style="font-weight: 400;">argumentava que </span><i><span style="font-weight: 400;">O Poderoso Chefão </span></i><span style="font-weight: 400;">prejudicava a imagem da comunidade italiana.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes de produzir um filme, no momento de seleção de elenco, é natural que se escolha atores que melhor se encaixem no perfil estereotipado do roteiro de gravação. Mas e quando, sem querer, se descobre que a vida pessoal dos atores casa perfeitamente com o propósito das personagens? Foi o que aconteceu com o ator </span><a href="https://cinemaclassico.com/listas/curiosidades-al-pacino/"><span style="font-weight: 400;">Alfredo James Pacino</span></a><span style="font-weight: 400;">, também conhecido como Al Pacino. Nascido e criado no Bronx, Pacino era neto de imigrantes italianos, naturais de Corleone, província siciliana que também é retratada no filme de Coppola.</span></p>
<figure id="attachment_28855" aria-describedby="caption-attachment-28855" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28855" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/J.-Fontane.png" alt="Cena do filme O Poderoso Chefão - Vito aparece dando conselhos a Johnny Fontane em primeiro plano e Sonny aparece ofuscado atrás de seu pai em segundo plano. Johnny é um rapaz branco, com cabelo escovado para trás, típico dos cantores dos anos 1950. Fontane está de costas para a foto. Vito está com a testa franzida e aparece com uma expressão facial de preocupação. Don Corleone e seu filho Sonny estão vestidos de smoking para o casamento de Connie. Vito carrega uma rosa no paletó." width="512" height="288" /><figcaption id="caption-attachment-28855" class="wp-caption-text">Johnny Fontane é um ator que se vê em decadência pela desmotivação do ramo artístico e uma crise de autoestima, e adivinhem a quem ele recorre (Foto: Paramount Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Além dos elementos técnicos essenciais de filmagem, outra característica marcante se dá pela quebra de clichês presentes nas obras contemporâneas ao seu lançamento. </span><a href="https://ofilmaco.com.br/tres-homens-em-conflito-sabe-dosar-os-cliches-do-genero-western-com-momentos-epicos/"><span style="font-weight: 400;">Clint Eastwood</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/colunas/roberto-sadovski/2020/06/12/e-o-vento-levou-apagar-filmes-da-historia-nao-vai-apagar-o-racismo.htm"><span style="font-weight: 400;">Clark Gable</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2020-10-31/sean-connery-o-ator-que-se-consagrou-como-james-bond-mas-nao-ficou-refem-do-personagem.html"><span style="font-weight: 400;">Sean Connery</span></a><span style="font-weight: 400;"> são fantásticos, mas alimentavam fantasias previsíveis. Assassinar o protagonista e frustrar a jornada desses heróis estava fora de cogitação. Para falar a verdade, até hoje é raro encontrar narrativas que saibam romper com as expectativas do público positivamente, quem dirá permanecer durante meio século como modelo de dramaturgia.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em meio a isso tudo, está mais do que provado ser impossível não amar este icônico trabalho que, não à toa, foi indicado e ganhou </span><a href="https://www.imdb.com/list/ls002206094/"><span style="font-weight: 400;">diversos prêmios</span></a><span style="font-weight: 400;"> da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. </span><i><span style="font-weight: 400;">O Poderoso Chefão </span></i><span style="font-weight: 400;">coleciona, ao todo, 17 prêmios, das 25 vezes em que foi indicado. Talvez o descrédito do público que queria boicotá-lo tenha sido o combustível necessário para fazer do filme o melhor de todos os tempos. Depois de receber, merecidamente, o </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">de Melhor Filme em 1972, o seu nobre reconhecimento mundial o fez pioneiro na arte de encenar a máfia nas telonas.</span></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/o-poderoso-chefao-50-anos/">Família, sangue, vingança e meio século de tradição reunidos em O Poderoso Chefão</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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		<title>50 anos de Blue e o seu legado definitivo pela Música</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Aug 2021 15:13:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Carlos Botelho “50 anos depois e as pessoas finalmente o  entenderam. Isso me deixa muito feliz”. Assim agradece Joni Mitchell, atualmente uma simpática senhorinha de tranças, em um vídeo publicado em sua conta oficial do Twitter, sobre o aniversário de meio século de seu disco Blue. É de se estranhar, em um primeiro momento, que &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/blue-joni-mitchell-50-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "50 anos de Blue e o seu legado definitivo pela Música"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_22357" aria-describedby="caption-attachment-22357" style="width: 1500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22357" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/cover.jpg" alt="Capa com filtro azulado na qual a cantora está cantando com os olhos fechados. Joni, uma mulher branca, na época tinha aparência jovem e cabelos loiros." width="1500" height="1500" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/cover.jpg 1500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/cover-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/cover-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/cover-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/cover-768x768.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/cover-1200x1200.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22357" class="wp-caption-text">Lançado em 1971, Blue representou a consolidação de Joni Mitchell como uma das gigantes de seu tempo (Foto: Warner Music)</figcaption></figure>
<p><b>Carlos Botelho</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">50 anos depois e as pessoas finalmente o  entenderam. Isso me deixa muito feliz</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Assim agradece Joni Mitchell, atualmente uma simpática senhorinha de tranças, em um </span><a href="https://twitter.com/jonimitchell/status/1407715820625534981?s=20"><span style="font-weight: 400;">vídeo</span></a><span style="font-weight: 400;"> publicado em sua conta oficial do </span><i><span style="font-weight: 400;">Twitter</span></i><span style="font-weight: 400;">, sobre o aniversário de meio século de seu disco </span><i><span style="font-weight: 400;">Blue</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span> <span style="font-weight: 400;">É de se estranhar, em um primeiro momento, que a dona de um dos álbuns mais influentes da história dê essa declaração, porém faz mais sentido se pensarmos que artistas femininas como </span><a href="https://www.browndailyherald.com/2019/11/14/fka-twigs-second-album-ties-personal-suffering-religion/"><span style="font-weight: 400;">FKA twigs</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.buzzfeed.com/elliewoodward/how-taylor-swift-played-the-victim-and-made-her-entire-caree"><span style="font-weight: 400;">Taylor Swift</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/sour-olivia-rodrigo-critica/"><span style="font-weight: 400;">Olivia Rodrigo</span></a><span style="font-weight: 400;"> têm recepções controversas até hoje por suas canções em tom confessional.</span></p>
<p><span id="more-22356"></span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Blue</span></i><span style="font-weight: 400;"> começou a ganhar forma em um momento delicado da carreira da cantora. Joni viajou para a ilha de Creta, na Grécia, onde passou um período escondida de seus demônios pessoais e fantasmas do passado em uma </span><a href="https://www.messynessychic.com/2015/04/21/the-hippie-caves-of-matala-that-housed-joni-mitchell/"><span style="font-weight: 400;">caverna</span></a><span style="font-weight: 400;">. Este momento ficou eternizado na canção </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=r6NZ_2TuLf8"><i><span style="font-weight: 400;">All I Want</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">na qual o verso “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu estou em uma estrada solitária e eu viajo, viajo, viajo</span></i><span style="font-weight: 400;">” demonstra a angústia que motivou seu período de exílio. Parece simbólico e clichê, mas morando em uma caverna, Mitchell morou em sua própria filosofia. </span></p>
<figure id="attachment_22358" aria-describedby="caption-attachment-22358" style="width: 1180px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22358" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/methode_times_prod_web_bin_a157eea2-d51c-11eb-b50d-ece47261907f.jpg" alt="Foto em preto e branco de Joni Mitchell olhando para cima com cabelos soltos." width="1180" height="663" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/methode_times_prod_web_bin_a157eea2-d51c-11eb-b50d-ece47261907f.jpg 1180w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/methode_times_prod_web_bin_a157eea2-d51c-11eb-b50d-ece47261907f-800x449.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/methode_times_prod_web_bin_a157eea2-d51c-11eb-b50d-ece47261907f-1024x575.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/methode_times_prod_web_bin_a157eea2-d51c-11eb-b50d-ece47261907f-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22358" class="wp-caption-text">Joni Mitchell viveu na pele toda a misoginia da crítica musical na década de 70 (Foto: Jack Robinson)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Diferente de seus três primeiros álbuns, Joni se permitiu ser roteirista e também atriz principal de sua obra. Suas angústias ganharam o papel de atrizes coadjuvantes, que revelaram detalhes da vida pessoal da cantora que escandalizaram a ainda-mais-misógina-que-hoje indústria musical da época. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Little Green</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">Mitchell lamenta a saudade da </span><a href="https://www.cheatsheet.com/entertainment/joni-mitchell-waited-30-years-daughter-adoption.html/"><span style="font-weight: 400;">filha</span></a><span style="font-weight: 400;">, que não pudera criar antes de se tornar uma cantora de sucesso. Já em </span><i><span style="font-weight: 400;">Rive</span></i><span style="font-weight: 400;">r, ela reconhece os defeitos que a tornam uma pessoa difícil de amar. No decorrer de apenas dez faixas, a cantora consegue elencar abertamente todas as dores que a formaram, enquanto mulher e artista. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um exemplo deste diálogo aberto com as feridas da alma é a</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=w5782PQO5is"><span style="font-weight: 400;"> faixa-título</span></a><span style="font-weight: 400;"> do disco. A cor azul é associada na língua inglesa com tristeza e melancolia e Joni canta sobre como tais sentimentos são inevitáveis. A canção ainda reflete o aspecto desolador dos comportamentos geracionais do início da década de 70, fortemente influenciados pela cultura </span><i><span style="font-weight: 400;">hippie </span></i><span style="font-weight: 400;">e o escapismo do</span> <span style="font-weight: 400;">consumo de drogas e o questionamento de valores cristãos tradicionais da época. </span><i><span style="font-weight: 400;">Blue </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma canção atemporal e que através de uma bela melodia de piano encara de peito aberto a vida com a depressão. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Joni Mitchell - River (Official Audio)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/F8MqF7xEGhs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">A música mais conhecida do álbum é certamente </span><i><span style="font-weight: 400;">A Case Of You</span></i><span style="font-weight: 400;">. Nela Mitchell relata um amor tão intrínseco a sua existência, que mesmo questionando sua toxicidade ela não encontra meios de se desvencilhar. A canção usa o vinho em seus aspectos sacros e adictivos como figura de linguagem para esse sentimento arrebatador por outra pessoa. Joni afirma que o ato de amar é o toque de uma alma na outra e que ela jamais irá se inebriar com esse sentimento.  A música se tornou um clássico absoluto e ganhou diversos </span><i><span style="font-weight: 400;">covers </span></i><span style="font-weight: 400;">ao longo de seus 50 anos de existência, dentre eles os de artistas como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9lJ0f75oSL4"><span style="font-weight: 400;">Prince</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=TZQ9OgbepXI"><span style="font-weight: 400;">Tori Amos</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=IG2E3qyFqsw"><span style="font-weight: 400;">James Blake</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tanta complexidade temática foi embalada pelos acordes suspensos do habitual violão de Joni, juntamente a poderosas melodias de piano. Seus vocais nunca estiveram tão cristalinos e acrobáticos. Joni conseguiu traduzir musicalmente sua jornada da alma de forma acessível, e a beleza dessa simplicidade aparente é a chave do sucesso para esse álbum, que reverbera até hoje de maneira tão atual. Assim como seu nome indica, </span><i><span style="font-weight: 400;">Blue</span></i><span style="font-weight: 400;"> é elementar e formador.</span></p>
<figure id="attachment_22359" aria-describedby="caption-attachment-22359" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22359" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/joni.webp" alt="Foto em preto e branco de Joni sentada no chão com um violão no colo. Ela está de cabelo solto e vestido." width="840" height="597" /><figcaption id="caption-attachment-22359" class="wp-caption-text">Joni Mitchell sempre foi uma grande fã e estudiosa de Bob Dylan e da música folk em geral (Foto: Jack Robinson/Hulton Archive)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Todavia, a coragem da artista de fazer de sua arte um diário aberto de sua vida não foi bem recebida pela mídia especializada do início da década de 70. O </span><a href="https://www.theguardian.com/music/from-the-archive-blog/2021/jun/21/joni-mitchell-blue-reviewed-archive-1971"><i><span style="font-weight: 400;">The Guardian</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, por exemplo, classificou o disco como menos inventivo que os anteriores, devido ao tom confessional, e questionou sua representatividade para outras mulheres. Enquanto isso, a mesma </span><a href="https://www.refinery29.com/en-us/2015/04/84872/joni-mitchell-fighting-misogyny"><i><span style="font-weight: 400;">Rolling Stone</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> que considera </span><i><span style="font-weight: 400;">Blue </span></i><span style="font-weight: 400;">o terceiro melhor álbum de todos os tempos, fez um editorial em 1971 desvalorizando a arte de Joni e a rebaixando como musa e namorada de outros artistas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O tempo sobrepôs qualquer crítica carregada de misoginia da época e, cinquenta anos depois, o registro continua mais vivo que nunca. </span><i><span style="font-weight: 400;">Blue </span></i><span style="font-weight: 400;">está presente na vulnerabilidade de </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-norman-fucking-rockwell/"><i><span style="font-weight: 400;">Norman Fucking Rockwell!</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de Lana Del Rey; nas confissões destemidas do </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-lorde-melodrama/"><i><span style="font-weight: 400;">Melodrama </span></i></a><span style="font-weight: 400;">da Lorde; nas composições catárticas do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vtQC8ILxHCs"><i><span style="font-weight: 400;">Red</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de Taylor Swift, dentre tantas outras artistas que abertamente se inspiram nele. Joni pode não ter achado as respostas para as suas angústias naquela caverna da Grécia, mas o legado que deixou para artistas femininas, e para a música em geral, ainda elucida muitas outras questões. </span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: Blue" width="100%" height="380" allowtransparency="true" frameborder="0" allow="encrypted-media" src="https://open.spotify.com/embed/album/1vz94WpXDVYIEGja8cjFNa"></iframe></p>
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		<title>50 anos de Construção: Deus lhe pague, Chico Buarque</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Jun 2021 05:22:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Caroline Campos  O roteiro das aulas sobre a ditadura militar, traçado nas salas de Ensino Médio e cursinhos ao longo do país, é padronizado: em algum momento, quando introduzido os malabarismos para escapar da censura e as músicas de protesto contra o regime, Chico Buarque de Hollanda será citado. Será, no mínimo, mencionado – pode &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/chico-buarque-construcao-50-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "50 anos de Construção: Deus lhe pague, Chico Buarque"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_21238" aria-describedby="caption-attachment-21238" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21238" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/chicobuarqueconstrucaolpcapa.jpg" alt="" width="1200" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/chicobuarqueconstrucaolpcapa.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/chicobuarqueconstrucaolpcapa-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/chicobuarqueconstrucaolpcapa-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/chicobuarqueconstrucaolpcapa-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/chicobuarqueconstrucaolpcapa-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21238" class="wp-caption-text">A foto de Chico foi tirada por Carlos Leonam e enquadrada na arte de Aldo Luz, que também assinou a capa de Krig-ha, Bandolo de Raul Seixas (Foto: Philips)</figcaption></figure>
<p><b>Caroline Campos</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> O roteiro das aulas sobre a </span><a href="https://carolacampos.medium.com/por-que-n%C3%A3o-devemos-comemorar-o-golpe-militar-de-64-cdf6adfc2c44"><span style="font-weight: 400;">ditadura militar</span></a><span style="font-weight: 400;">, traçado nas salas de Ensino Médio e cursinhos ao longo do país, é padronizado: em algum momento, quando introduzido os malabarismos para escapar da censura e as músicas de protesto contra o regime, </span><a href="https://universoretro.com.br/os-72-anos-de-chico-buarque-e-a-importancia-do-artista-para-a-musica-popular-brasileira/"><span style="font-weight: 400;">Chico Buarque de Hollanda</span></a><span style="font-weight: 400;"> será citado. Será, no mínimo, mencionado – pode anotar. Não é para menos, afinal, Chico integra a gama de </span><a href="https://personaunesp.com.br/falso-brilhante-45-anos/"><span style="font-weight: 400;">artistas brasileiros</span></a><span style="font-weight: 400;"> que sofreram com a repressão e a tesourada em suas composições para que se adequassem aos </span><i><span style="font-weight: 400;">bons princípios </span></i><span style="font-weight: 400;">dos governos militares. Mas o carioca tem um </span><i><span style="font-weight: 400;">quê</span></i><span style="font-weight: 400;"> especial.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Perseguido pelos milicos em meio aos devaneios do </span><i><span style="font-weight: 400;">“milagre econômico”</span></i><span style="font-weight: 400;"> da trupe de </span><a href="https://mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/generalemilio-garrastazu-medici.htm"><span style="font-weight: 400;">Médici</span></a><span style="font-weight: 400;">, a situação se tornou insustentável a ponto de, em 1969, </span><a href="https://m.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/06/1472740-no-aniversario-de-chico-buarque-conheca-70-curiosidades-sobre-ele.shtml"><span style="font-weight: 400;">Chico Buarque</span></a><span style="font-weight: 400;"> deixar o Brasil e se instalar na Itália, em um </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/banco-de-dados/2020/03/1970-depois-de-14-meses-exilado-o-cantor-chico-buarque-esta-de-volta-ao-brasil.shtml"><span style="font-weight: 400;">autoexílio</span></a><span style="font-weight: 400;"> que durou pouco mais de um ano. O resultado de toda essa história </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-56409701"><span style="font-weight: 400;">completa 50 anos em 2021</span></a><span style="font-weight: 400;">; quando o músico enfim retornou, no início da longa década de 70, trouxe com ele as letras daquele que se tornaria seu primeiro manifesto político. Nascia </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-21234"></span></p>
<figure id="attachment_21236" aria-describedby="caption-attachment-21236" style="width: 2400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21236" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt.jpg" alt="" width="2400" height="1600" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt.jpg 2400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt-2048x1365.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21236" class="wp-caption-text">Chico Buarque retornou ao Brasil dia 20 de março de 1970, com a esposa Marieta Severo e a filha Silvia (Foto: Folha de S. Paulo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançado em 1971, </span><a href="https://vavel.media/br/2018/01/15/musica/868095-5-motivos-para-voc-escutar-o-album-construcao-de-chico-buarque.html"><span style="font-weight: 400;">o oitavo disco</span></a><span style="font-weight: 400;"> de um dos maiores cancionistas da história da música brasileira foi também o segundo gravado pela </span><i><span style="font-weight: 400;">Philips</span></i><span style="font-weight: 400;">, que pouco antes havia lançado </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hpPmzIO7ehI"><i><span style="font-weight: 400;">Chico Buarque de Hollanda nº 4</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. O sucesso de </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2021/01/10/album-que-alicercou-obra-de-chico-buarque-ha-50-anos-construcao-retem-a-contundencia-de-1971.ghtml"><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, no entanto,</span> <span style="font-weight: 400;">foi astronômico. A gravadora precisou terceirizar os concorrentes para dar conta da prensagem, resultado dos 140 mil discos vendidos só no primeiro mês. Aquele álbum de capa marrom e meia hora de duração bombou pelo país, levando o filho de </span><a href="http://desafios.ipea.gov.br/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=2252:catid=28&amp;Itemid=23"><span style="font-weight: 400;">Sérgio Buarque de Hollanda</span></a><span style="font-weight: 400;"> a reconfigurar a dinâmica do cenário político-cultural em um Brasil amordaçado pelo medo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Chico Buarque era </span><a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/diretorio-academico/a-censura-as-musicas-de-chico-buarque-na-ditadura-1964-1985/"><span style="font-weight: 400;">figurinha carimbada dos censores</span></a><span style="font-weight: 400;"> que rondavam o país do AI-5. Como a inteligência não era uma característica das patentes militares, as letras irônicas e provocativas do músico passavam despercebidas pelos oficiais, que não demoravam muito a perceber a burrada e voltar atrás nas decisões. </span><a href="http://www.chicobuarque.com.br/sanatorio/julinho.htm"><span style="font-weight: 400;">Julinho da Adelaide</span></a><span style="font-weight: 400;">, inclusive, nasceu nesse período como uma nova tentativa do carioca de driblar seus algozes. O carimbo de </span><i><span style="font-weight: 400;">vetado</span></i><span style="font-weight: 400;"> já era até familiar ao cantor. Foi assim com </span><a href="https://curitibadegraca.com.br/apesar-de-voce-chico-buarque/#:~:text=Chico%20Buarque%20comp%C3%B4s%20%E2%80%9CApesar%20de,falasse%20de%20um%20relacionamento%20amoroso&amp;text=%E2%80%9CApesar%20de%20voc%C3%AA%E2%80%9D%20foi%20composta,no%20auge%20da%20ditadura%20militar.&amp;text=Ela%20faz%20parte%20do%20disco,Buarque%E2%80%9D%2C%20lan%C3%A7ado%20em%201978."><i><span style="font-weight: 400;">Apesar de você</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, foi assim com </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-clube-da-esquina/"><i><span style="font-weight: 400;">Cálice</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e, claro, foi assim com </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentre suas dez faixas, o </span><a href="https://www.musicontherun.net/2016/06/discos-para-historia-construcao-chico-buarque-1971.html"><span style="font-weight: 400;">LP</span></a><span style="font-weight: 400;"> é marcado por um samba melancólico, tensionado pela própria realidade. Chico agoniza em suas melodias, construindo um paradoxo suave-agressivo para escancarar sua indignação em um disco indigesto, de um homem que enfrentou diretamente as consequências do</span><i><span style="font-weight: 400;"> ame-o ou deixe-o</span></i><span style="font-weight: 400;"> e ainda regurgitava em cima das lembranças do exílio. </span><a href="http://www.aescotilha.com.br/musica/vitrola/chico-buarque-talento-censura-e-os-45-anos-de-construcao/"><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i><span style="font-weight: 400;"> elevou os parâmetros</span></a><span style="font-weight: 400;">, aumentou as apostas, e, com seu pulso político firme, vibrante e vivo, uniu uma estética artística especialmente coesa e centrada ao grito de guerra entalado na garganta da Liberdade.</span></p>
<figure id="attachment_21237" aria-describedby="caption-attachment-21237" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-21237 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/117600243-265b43fb-11b0-4f6a-bb11-a11608050ce4-851x1024.jpg" alt="" width="840" height="1011" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/117600243-265b43fb-11b0-4f6a-bb11-a11608050ce4-851x1024.jpg 851w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/117600243-265b43fb-11b0-4f6a-bb11-a11608050ce4-665x800.jpg 665w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/117600243-265b43fb-11b0-4f6a-bb11-a11608050ce4-768x924.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/117600243-265b43fb-11b0-4f6a-bb11-a11608050ce4.jpg 984w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21237" class="wp-caption-text">Cordão foi uma das centenas de músicas de Chico Buarque vetadas pelos censores (Foto: Arquivo Nacional)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Composto ao lado de </span><a href="http://culturabrasil.cmais.com.br/playlists/as-raras-parcerias-de-vinicius#:~:text=Outro%20nome%20da%20MPB%20que,Valsinha%22%20e%20%22Desalento%22.&amp;text=O%20encontro%20para%20Vinicius%20nunca%20passava%20em%20branco."><span style="font-weight: 400;">Vinícius de Moraes</span></a><span style="font-weight: 400;">, Tom Jobim e Toquinho, </span><a href="http://sitenocenaculo.com.br/construcao-de-chico-buarque-completa-50-anos-ainda-atual-contra-o-arbitrio/"><span style="font-weight: 400;">o álbum</span></a><span style="font-weight: 400;"> também contou com a direção musical de </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2021/03/24/chico-buarque-exalta-o-talento-de-magro-em-tributo-ao-arranjador-do-mpb4.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Magro</span></a><span style="font-weight: 400;">, do quarteto </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3ALZNNUQdYM"><span style="font-weight: 400;">MPB4</span></a><span style="font-weight: 400;">, e arranjos do maestro tropicalista </span><a href="https://www.nexojornal.com.br/podcast/2018/06/08/Qual-a-import%C3%A2ncia-de-Rog%C3%A9rio-Duprat-o-maestro-arranjador-da-Tropic%C3%A1lia"><span style="font-weight: 400;">Rogério Duprat</span></a><span style="font-weight: 400;">. Chico estava, sem dúvidas, bem acompanhado. Assim, é </span><i><span style="font-weight: 400;">Deus Lhe Pague</span></i><span style="font-weight: 400;"> que abre o disco, com uma sonoridade quase sombria e um vocal sóbrio e ecoado. A canção funciona como um sátira, alegorizando um agradecimento aos generais </span><i><span style="font-weight: 400;">por me deixar respirar, por me deixar existir</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de separadas por duas outras músicas, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=rxiafycMSTY&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=1"><i><span style="font-weight: 400;">Deus Lhe Pague</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wBfVsucRe1w&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=4"><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> são irmãs de luta e sangue. Ambas foram orquestradas por Duprat, que dá a suas óperas tons crescentes conforme os versos vão ficando cada vez mais fechados, claustrofóbicos. </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i><span style="font-weight: 400;">, a faixa que deu título ao álbum, é inigualável – em 2009, a canção estampou o </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/edicao/37/noticia-3939/"><span style="font-weight: 400;">primeiro lugar da lista de melhores músicas brasileiras</span></a><span style="font-weight: 400;"> da revista </span><i><span style="font-weight: 400;">Rolling Stone</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ela se costura à primeira em seus versos finais, que reprisa as sentenças acusatórias depois de uma narrativa extremamente bem delineada entre as composições nacionais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi nos mais de </span><a href="https://comunicacaoescrita.com/analise-construcao-chico-buarque/"><span style="font-weight: 400;">seis minutos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> que Chico Buarque contou a história de um dos milhares de trabalhadores urbanos da década de 70. O suposto milagre econômico durante o período propulsionou o setor da construção civil, mobilizando um batalhão de operários-máquinas para erguer prédios nas grandes cidades. A vida descartável desses homens foi o motor da </span><a href="http://artecult.com/musica-poesia-construcao/"><span style="font-weight: 400;">composição buarqueana</span></a><span style="font-weight: 400;">, que conta com versos alexandrinos, de 12 sílabas, todos terminados em palavras proparoxítonas, que rimam apenas em decorrência da sílaba tônica.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Construção | Chico Buarque (Vídeo Oficial)" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/suia_i5dEZc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Além da métrica incomparável da faixa, </span><a href="https://canalcienciascriminais.jusbrasil.com.br/artigos/637733133/construcao-chico-buarque-e-a-desconstrucao-do-ser"><span style="font-weight: 400;">Chico cria um jogo de palavras</span></a><span style="font-weight: 400;"> que trocam de lugar e vão se encaixando em novas posições, enquanto o cantor repete, três vezes, a mesma história sem estampar, propositalmente, sensibilidade pelo fato –</span><i><span style="font-weight: 400;"> morreu na contramão atrapalhando o</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">tráfego, o</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">público, o</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">sábado</span></i><span style="font-weight: 400;">. Sua vida é insignificante, sua morte é indigna de atenção. </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção </span></i><span style="font-weight: 400;">dói, assusta e revolta; não é à toa que a música é </span><a href="https://www.ufrgs.br/jornal/tijolos-de-um-pais-em-construcao-em-chico-buarque/"><span style="font-weight: 400;">estudada para vestibulares</span></a><span style="font-weight: 400;">, analisada por pesquisadores e ouvida sagradamente pelos apaixonados pelo Buarque-filho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O disco chegou </span><i><span style="font-weight: 400;">quase </span></i><span style="font-weight: 400;">integralmente às lojas. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=6OoyRyePx6o&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=7"><i><span style="font-weight: 400;">Samba de Orly</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que foi escrita com Toquinho e Vinícius de Moraes, precisou passar por adaptações para conseguir a aprovação dos censores. </span><i><span style="font-weight: 400;">Pela omissão, um tanto forçada</span></i><span style="font-weight: 400;"> se tornou </span><i><span style="font-weight: 400;">pela duração, dessa temporada</span></i><span style="font-weight: 400;">, que é especificamente o verso que Vinícius contribuiu à faixa. Mesmo sendo o samba mais animado de </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i><span style="font-weight: 400;">, a vividez dos instrumentos disfarça o fato de ter sido feito ainda na Itália, como se o carioca exilado enviasse suas lembranças à Cidade Maravilhosa, cheio de saudade de casa. </span></p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=XjWSYQwR-4I&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=3"><i><span style="font-weight: 400;">Desalento</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, por sua vez, foi órfã de outro trabalho. No começo de 1970, Chico lançou um compacto com duas músicas, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LZJ6QGSpVSk"><i><span style="font-weight: 400;">Apesar de você</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Desalento</span></i><span style="font-weight: 400;">. Comicamente, o registro foi liberado pela censura, que não sacou a acidez impenetrável da primeira canção. Quando os militares voltaram atrás, apenas a parceira ganhou passe livre para integrar o disco posterior. Assim como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=SyDrAH5jrqw&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=6"><i><span style="font-weight: 400;">Olha Maria (Amparo)</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que tem piano de </span><a href="https://cultura.uol.com.br/radio/programas/tom-jobim/2021/02/19/21_as-parcerias-de-tom-jobim-com-vinicius-de-moraes-e-chico-buarque.html"><span style="font-weight: 400;">Tom Jobim</span></a><span style="font-weight: 400;"> e parceria com Moraes, </span><i><span style="font-weight: 400;">Desalento</span></i><span style="font-weight: 400;"> não possui nenhuma roupagem política bem definida, mas a atmosfera desiludida e abatida de ambas as faixas refletiam muito do sentimento geral da população brasileira.</span></p>
<figure id="attachment_21235" aria-describedby="caption-attachment-21235" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21235" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/MPB-4-2.jpg" alt="" width="1600" height="1040" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/MPB-4-2.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/MPB-4-2-800x520.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/MPB-4-2-1024x666.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/MPB-4-2-768x499.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/MPB-4-2-1536x998.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/MPB-4-2-1200x780.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21235" class="wp-caption-text">Chico era quase o quinto membro do grupo MPB4, tanto que <span style="font-weight: 400;">s vozes do conjunto aparecem nas músicas Deus lhe Pague, Desalento, Construção, Samba de Orly e Minha História </span>(Foto: <a href="https://acervofolha.blogfolha.uol.com.br/2017/10/21/ha-50-anos-festival-da-tv-record-reuniu-roberto-carlos-gil-caetano-e-chico-e-deu-novo-rumo-a-mpb/">Folha de S. Paulo</a>)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se de um lado Chico constrói músicas explicitamente críticas e do outro ele cria melodias românticas mais suaves, o que há no meio? A resposta é </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=cPxuSErXvsQ&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=5"><i><span style="font-weight: 400;">Cordão</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a quinta entre as dez canções do LP. Sutil e amena à primeira vista, é repetindo a afirmação de </span><i><span style="font-weight: 400;">que ninguém vai me acorrentar enquanto eu puder cantar</span></i><span style="font-weight: 400;"> que Chico ganhou mais um carimbo de </span><i><span style="font-weight: 400;">vetado</span></i><span style="font-weight: 400;"> do governo. </span><i><span style="font-weight: 400;">Nas grades do coração </span></i><span style="font-weight: 400;">teve que se transformar em </span><i><span style="font-weight: 400;">as portas do coração</span></i><span style="font-weight: 400;">, e </span><i><span style="font-weight: 400;">Cordão </span></i><span style="font-weight: 400;">foi considerada um protesto contra a ordem vigente, mesmo com suas múltiplas interpretações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Independente das músicas serem analisadas em grupo ou individualmente, não se pode separá-las da obra como um todo. Cada escolha musical e narrativa de </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção </span></i><span style="font-weight: 400;">equivale a um alicerce que mantém o disco de pé meio século após seu lançamento. A coerência estética e temática de Chico Buarque é como uma criatura ainda viva, se alimentando dos rumos do país que a criou, ora debochando, ora estrebuchando.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A própria </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=dHYOVuq_Fco&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=2"><i><span style="font-weight: 400;">Cotidiano</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que viria a se tornar um dos maiores clássicos da discografia de Buarque, é desenvolvida com ironia repetitiva para relatar a rotina entediada da vida de um casal comum. Brincando com construções iniciadas por </span><i><span style="font-weight: 400;">todo dia</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Cotidiano </span></i><span style="font-weight: 400;">serve para cansar – cansar o cantor, o ouvinte e os personagens. E, claro, isso é o que torna a música ainda mais atraente, principalmente quando contraposta com o romantismo breve e idealizado de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=RhLJFYwutUs&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=8"><i><span style="font-weight: 400;">Valsinha</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Re: CHICO BUARQUE toquinho samba de orly" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/68m7W9cVup4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=gZEivZvGohs&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=9"><i><span style="font-weight: 400;">Minha História</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, versão de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=bL3b2qLrRdw"><i><span style="font-weight: 400;">Gesù Bambino</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, dos italianos Lucio Dalla e Paola Pallottino, abre os caminhos para a finalização de </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i><span style="font-weight: 400;">, mas por se tratar de uma letra que referenciava Jesus em meio a </span><i><span style="font-weight: 400;">ladrões e amantes</span></i><span style="font-weight: 400;"> – afinal, segundo a Bíblia, Jesus andou entre soldados e governantes, não é? –, o nome de </span><i><span style="font-weight: 400;">Menino Jesus </span></i><span style="font-weight: 400;">foi barrado. Depois de tanta dureza, não é de se surpreender que Chico opte por finalizar seu disco com um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=TdtLk3005BM&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=10"><i><span style="font-weight: 400;">Acalanto</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, feito para sua filha Helena, na época com um ano. Mesmo com o tom lúdico e sereno, o recado do compositor está claro: </span><i><span style="font-weight: 400;">não vale a pena despertar</span></i><span style="font-weight: 400;">. Não nesse mundo, não nesse país.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há muito ainda o que se discutir sobre </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2018/05/01/construcao-album-que-expos-evolucao-poetica-de-chico-e-relancado-em-lp.ghtml"><span style="font-weight: 400;">50 anos depois</span></a><span style="font-weight: 400;">, em um Brasil que teima em eleger generais, que sustenta um genocida responsável por quase 500 mil mortes, não é à toa que </span><a href="http://www.chicobuarque.com.br/texto/entrevistas/entre_realidade.htm"><span style="font-weight: 400;">Chico</span></a><span style="font-weight: 400;"> esteja guardado a sete chaves dentro de sua casa. O registro buarqueano pertence, mais do que nunca, à atualidade. O Brasil ainda está em construção, e seus tijolos, infelizmente, são erguidos com o sangue do próprio povo. Mas amanhã vai ser outro dia.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: Construção" width="100%" height="380" allowtransparency="true" frameborder="0" allow="encrypted-media" src="https://open.spotify.com/embed/album/7yrRo2o4XzDfv3mNnkPRE5"></iframe></p>
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		<title>Uma celebração dos 50 anos de Gillian Flynn e de suas mulheres perturbadoras</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Feb 2021 03:38:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Carol Dalla Vecchia e Layla de Oliveira  “Eu estou falando de mulheres violentas, perversas. Mulheres sinistras. Não me diga que você não conhece algumas”. Com dificuldades de se enturmar por conta de sua timidez, a jovem Gillian Flynn encontrou uma fuga na leitura e na escrita, o que a levou a cursar Jornalismo na Universidade &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/gillian-flynn-50-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Uma celebração dos 50 anos de Gillian Flynn e de suas mulheres perturbadoras"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_18596" aria-describedby="caption-attachment-18596" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18596" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-1-2.jpg" alt="Foto em preto e branco da autora Gillian Flynn. Ela é uma mulher de 50 anos branca com cabelos castanhos na altura do ombro, usando um longo vestido branco sem mangas. Gillian Flynn está sentada em uma poltrona de vime, com as mãos entrelaçadas e algumas plantas no fundo. Olha diretamente para a câmera, e está sorrindo sem mostrar os dentes." width="1600" height="903" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-1-2.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-1-2-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-1-2-1024x578.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-1-2-768x433.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-1-2-1536x867.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-1-2-1200x677.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-18596" class="wp-caption-text">&#8220;É uma fascinação minha: assassinato, traição, vingança, engano, loucura — todas as minhas coisas favoritas” (Foto: M. Spencer Green)</figcaption></figure>
<p><b>Carol Dalla Vecchia e Layla de Oliveira </b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu estou falando de mulheres violentas, perversas. Mulheres sinistras. Não me diga que você não conhece algumas”. </span></i><span style="font-weight: 400;">Com dificuldades de se enturmar por conta de sua timidez, a jovem </span><a href="https://www.gillian-flynn.com/"><span style="font-weight: 400;">Gillian Flynn</span></a><span style="font-weight: 400;"> encontrou uma fuga na leitura e na escrita, o que a levou a cursar Jornalismo na Universidade do Kansas (KU). Uma vez formada, ela planejava se tornar repórter policial, no entanto, percebeu que era desajeitada para o ramo criminal por querer que toda história tivesse um começo, meio e fim. Assim, começou a trabalhar na </span><a href="https://ew.com/author/gillian-flynn/"><i><span style="font-weight: 400;">Entertainment Weekly</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, escrevendo críticas de cinema e TV por dez anos.</span></p>
<p><span id="more-18595"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dedicar-se à avaliação de obras ficcionais trouxe duas percepções para Flynn. A primeira é que mesmo sendo revigorante trabalhar com histórias novas todas as semanas, isso não supriu sua necessidade de</span><i><span style="font-weight: 400;"> “construir um mundo e viver nele por um tempo&#8221;.</span></i><span style="font-weight: 400;"> A segunda é que ao analisar tantos materiais, ela percebeu que eram </span><a href="https://time.com/5050757/gillian-flynn-on-women-speaking-out-sexual-harassment/"><span style="font-weight: 400;">todas narrativas sobre homens</span></a><span style="font-weight: 400;">, e que uma forma de mudar esse quadro era escrevendo seus próprios romances. Segundo ela, todos retratavam </span><i><span style="font-weight: 400;">“homens brutais, presos em ciclos de agressão. Eu queria escrever sobre a violência de mulheres. Então eu fiz”.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Hoje, 24 de fevereiro, Gillian Flynn está completando 50 anos e duvidamos muito que exista arrependimento em relação às mudanças que fez em sua carreira: seus </span><a href="https://www.intrinseca.com.br/autor/147/"><span style="font-weight: 400;">livros</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/as-viuvas"><span style="font-weight: 400;">produtos audiovisuais</span></a><span style="font-weight: 400;"> conquistaram milhões de fãs ao redor do mundo. Um feito que merece ser comemorado nesse dia especial, nem que seja com texto para homenagear sua trajetória literária e justificar nossa reverência à autora. </span></p>
<figure id="attachment_18597" aria-describedby="caption-attachment-18597" style="width: 720px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18597" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-2-2.jpg" alt="Foto da autora Gillian Flynn, uma mulher de 50 anos branca com cabelos castanhos na altura do ombro. A autora está com os cabelos cobertos de neve, usando óculos com armação marrom, fones de ouvido brancos, casaco preto e cachecol cinza. Ela está fazendo biquinho, ao lado de uma caveira de brinquedo, também coberta pela neve. Há algumas plantas no fundo." width="720" height="536" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-2-2.jpg 720w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-2-2-300x223.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-18597" class="wp-caption-text">Gillian Flynn consegue conciliar seu senso de humor com seu tom crítico e revolucionário (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Observar que apenas a brutalidade masculina era representada na ficção levou Flynn a refletir sobre sua própria formação como mulher. Em 2015, ela escreveu sobre o assunto para o </span><i><span style="font-weight: 400;">blog </span></i><span style="font-weight: 400;">da livraria </span><a href="https://www.powells.com/blog"><i><span style="font-weight: 400;">Powell’s Books</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, contando que desde cedo ela </span><a href="https://medium.com/@Powells/i-was-not-a-nice-little-girl-c2df01e0ae1"><i><span style="font-weight: 400;">“não era uma menininha legal”</span></i></a><span style="font-weight: 400;">; não porque era uma criança malévola, mas porque ela sempre se comportou de um modo que não é associado à feminilidade. De acordo com a própria autora, a mídia não relaciona às mulheres os discursos de hostilidade, sexualidade ou poder.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em seu texto para a </span><i><span style="font-weight: 400;">Powell&#8217;s,</span></i><span style="font-weight: 400;"> Gillian Flynn deixa claro que as falhas na representação de mulheres em âmbitos brutais gera uma divergência entre o que está explícito sobre a feminilidade e o que é subjetivo. </span><i><span style="font-weight: 400;">“A violência feminina é um tipo específico de ferocidade. É invasivo [&#8230;] Uma coisa muito mais temível de assistir do que dois caras se espancando”,</span></i><span style="font-weight: 400;"> reflete a autora, destacando que mulheres aprendem a se conter, e aparentar ternura, mesmo que seu íntimo seja cruel.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Flynn expõe essa maldade. Quando ela pensa nas mulheres de seus livros, ela pensa em uma foto de </span><a href="http://www.fredericksommer.org/"><span style="font-weight: 400;">Frederick Sommer</span></a><span style="font-weight: 400;"> chamada </span><i><span style="font-weight: 400;">Livia</span></i><span style="font-weight: 400;">: é o retrato de uma menina que tem </span><i><span style="font-weight: 400;">“todos os apetrechos da inocência”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mas quando a autora observa o que está intrínseco em seu rosto, ela percebe a travessura, a perversidade. Essa garotinha lembra a Gillian Flynn de que </span><i><span style="font-weight: 400;">“meninas </span></i><i><span style="font-weight: 400;">— </span></i><i><span style="font-weight: 400;">e mulheres </span></i><i><span style="font-weight: 400;">—</span></i><i><span style="font-weight: 400;"> podem ser más”</span></i><span style="font-weight: 400;">. A capacidade de ver além do superficial é o que torna o trabalho de Flynn </span><a href="https://www.cbsnews.com/news/a-talk-with-gone-girl-author-gillian-flynn/"><span style="font-weight: 400;">interessante</span></a><span style="font-weight: 400;">: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Mulheres têm muitos problemas com agressão e raiva [&#8230;] elas expressam de maneira diferente dos homens. E eu [Flynn] senti que isso era algo que simplesmente parecia não ser falado”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ela falou, e por isso suas obras se tornaram uma revolução.</span></p>
<figure id="attachment_18598" aria-describedby="caption-attachment-18598" style="width: 1755px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18598" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-3-1.jpg" alt="Foto em preto de branco do fotógrafo Frederick Sommer, intitulada Livia. A imagem apresenta uma menina branca, loira e de olhos claros, e possui no máximo sete anos. Seu cabelo está dividido em duas tranças, ela usa um vestido branco com orlas de renda, as mãos juntas em cima da barriga. Ela está encostada em uma parede de madeira descascada, e olha diretamente para a câmera." width="1755" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-3-1.jpg 1755w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-3-1-300x246.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-3-1-1024x840.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-3-1-768x630.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-3-1-1536x1260.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-3-1-1200x985.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-18598" class="wp-caption-text"><i><span style="font-weight: 400;">“</span></i>Tranças loiras, vestido com orlas de renda. Mas seus olhos são surpreendentemente inteligentes, seus lábios teimosos, todo o seu rosto malicioso” (Foto: Frederick Sommer)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para tentar representar a verdade da violência feminina, ela se aventurou em seu primeiro romance, </span><a href="https://www.intrinseca.com.br/livro/461/"><i><span style="font-weight: 400;">Objetos Cortantes</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> (Sharp Objects)</span></i><span style="font-weight: 400;">, que foi publicado em 2006. Dentro dessa narrativa, Gillian Flynn explora uma família de mulheres nocivas, que dominam a sociedade de uma pequena cidade interiorana com sua soberania e falta de autocontrole. A criação de um cenário tão sórdido, comandado por figuras femininas, pode causar inquietação em pessoas desacostumadas a esse quadro. Entretanto, a autora explica que o</span><i><span style="font-weight: 400;"> “poder pode ser sangrento, seja um patriarcado ou um matriarcado. Só parece diferente. Mas isso não significa que será mais bonito só porque as mulheres estão no comando”.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama acompanha Camille Preaker, uma jornalista recém saída de uma clínica de </span><a href="https://www.vulture.com/2018/08/sharp-objects-all-the-hidden-words-you-missed.html"><span style="font-weight: 400;">tratamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> psiquiátrico, que volta para sua pequena cidade natal, Wind Gap, a fim de fazer a cobertura de crimes envolvendo duas meninas da região. Ao chegar lá, Camille encontra uma resistência forte da população em divulgar as atrocidades, por conta da brutalidade dos atos: ambas foram estranguladas, tiveram seus dentes arrancados e seus corpos foram abandonados sem nenhum apreço. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A personificação dessa resistência foi encontrada na própria mãe de Camille, Adora Crellin, uma figura muito influente dentro da sociedade local pelo mérito político-econômico de seus antepassados. Por sua posição social, aparência e modos impecáveis que encantam todos os </span><i><span style="font-weight: 400;">windgapianos,</span></i><span style="font-weight: 400;"> suas condutas são apresentadas como um modelo de decência a serem reproduzidos por todos os outros habitantes. Menos por Camille, que nunca se submeteu às exigências e desejos de sua mãe e por isso, sempre foi </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-sharp-objects-objetos-cortantes-de-gillian-flynn/#:~:text=O%20livro%20tem%20um%20forte,da%20m%C3%A3e%2C%20a%20pr%C3%B3pria%20cidade.&amp;text=Diferente%20dos%20comuns%20romances%20policiais,conflituosas%20em%20um%20ambiente%20soturno."><span style="font-weight: 400;">desmerecida</span></a><span style="font-weight: 400;">; ao contrário de sua irmã mais nova, Marian, que foi a preferida de Adora até morrer tragicamente aos 8 anos.</span></p>
<figure id="attachment_18599" aria-describedby="caption-attachment-18599" style="width: 612px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18599" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-4-2.jpg" alt="Imagem do livro de estreia da autora, intitulado Objetos Cortantes. O livro possui uma capa preta, com riscos brancos espaçados simulando cortes, e os nomes tanto do livro quanto da autora estão coloridos em azul. O livro está em cima de uma mesa coberta por páginas, e ao seu lado estão duas facas pretas, três pinhas e duas velas brancas. Existem alguns potes com folhas secas ao redor." width="612" height="640" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-4-2.jpg 612w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-4-2-287x300.jpg 287w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-18599" class="wp-caption-text">“Quando a família é sua pior parte” (Foto: Leyanne)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de oito anos longe da família, Camille encontra uma situação diferente da que deixou para trás: quando partiu, todos viviam o intenso luto de Marian, agora, a irmã foi substituída por Amma. Essa irmã desconhecida pela protagonista vive uma vida dupla: quando está dentro de casa é uma jovem adolescente que se comporta de acordo com os moldes de Adora, mas longe da visão dos pais vive como uma rebelde malvada e exigente sobre seus caprichos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Camille conhece os dois lados de Amma e elas constroem um laço de </span><a href="https://valkirias.com.br/objetos-cortantes-e-a-forma-peculiar-de-gillian-flynn-contar-historias/"><span style="font-weight: 400;">identificação</span></a><span style="font-weight: 400;"> muito forte. A irmã mais nova se inspira nas convicções fortes da irmã mais velha, enquanto a primogênita vê a representação de sua própria juventude inconsequente na caçula. Mas além de visitar suas memórias, instalar-se por um tempo na casa da família Crellin faz com que Camille descubra segredos macabros envolvendo seu passado, e até mesmo o presente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O propósito de Gillian Flynn de revelar a barbaridade feminina é evidenciado na jornalista, pois ela é a única que consegue enxergar a malignidade de Adora, e uma das únicas pessoas que tem consciência da verdadeira personalidade de Amma enquanto ela está fora de casa. Preaker legitima a capacidade de mulheres fazerem coisas erradas </span><a href="https://www.vanityfair.com/hollywood/2018/06/gillian-flynn-isnt-going-to-write-the-kind-of-women-you-want"><span style="font-weight: 400;">por conta própria</span></a><span style="font-weight: 400;">, sem a influência de fatores externos, o que faz dela uma alegoria das convicções da autora.</span></p>
<figure id="attachment_18600" aria-describedby="caption-attachment-18600" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-18600" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-5-1.jpg" alt="Ilustração de Objetos Cortantes. No desenho, estão representadas Amma, branca, loira e de olhos verdes e Camille, branca, ruiva, de olhos azuis e ligeiramente mais alta que Amma. Ambas estão vestindo vestidos brancos e longos, que possuem manchas de sangue na bainha. Elas estão dentro de uma casa de bonecas, com paredes azuis escuras, e duas mãos gigantes se aproximam: as de Adora, que possui metade do rosto coberto pela casa de bonecas. Tudo o que se pode ver dela são as mãos, próximas de Amma e Camille, e um sorriso malicioso tingido de vermelho." width="650" height="910" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-5-1.jpg 500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-5-1-214x300.jpg 214w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-18600" class="wp-caption-text">“Problemas sempre começam muito antes de você realmente, realmente vê-los” (Foto: Tia Gilles)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Pensar que </span><i><span style="font-weight: 400;">Objetos Cortantes</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi o livro de estreia da autora causa muito fascínio pela maestria de sua escrita e de seu desenvolvimento de personagens e enredo. O </span><i><span style="font-weight: 400;">thriller</span></i><span style="font-weight: 400;"> psicológico é gerado no leitor com capítulos angustiantes e uma reviravolta literalmente nas últimas páginas; torna-se improvável que uma pessoa acabe de ler o livro e não passe um tempo refletindo sobre a história. Ademais, a genialidade dessa trama foi adaptada para outras plataformas, sendo traduzida como uma </span><a href="https://www.hbo.com/sharp-objects"><span style="font-weight: 400;">minissérie</span></a><span style="font-weight: 400;"> pela </span><i><span style="font-weight: 400;">HBO</span></i><span style="font-weight: 400;"> em 2018. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Camille Preaker ganhou vida através da talentosa </span><a href="https://personaunesp.com.br/animais-noturnos/"><span style="font-weight: 400;">Amy Adams</span></a><span style="font-weight: 400;">, que conseguiu </span><a href="https://personaunesp.com.br/sharp-objects-critica/"><span style="font-weight: 400;">expressar visualmente</span></a><span style="font-weight: 400;"> tudo aquilo que era íntimo da personagem e conseguiu comover o espectador. Mesmo que Preaker não seja uma “boa menina”, Adams nos leva a sentir empatia por sua alma torturada. Já Adora, o retrato sulista da fragilidade, foi vivida por Patricia Clarkson, enquanto o mérito de manifestar tanto a pureza quanto a indisciplina de Amma é todo de Eliza Scanlen. Ambas as atrizes nos surpreenderam durante o decorrer da série, oscilando entre momentos de mínima simpatia e desprezo total. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Gillian Flynn foi a produtora executiva e roteirista de três episódios do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3C6YVcwtSLY"><span style="font-weight: 400;">seriado</span></a><span style="font-weight: 400;">, o que garantiu uma admiração ainda maior por parte dos fãs e do público geral pelas suas habilidades de contar histórias. O resultado rendeu indicações a grandes prêmios como o </span><i><span style="font-weight: 400;">Emmy</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/news/patricia-clarkson-wins-golden-globe-best-supporting-actress-sharp-objects-1173793"><i><span style="font-weight: 400;">Globo de Ouro</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, tanto para ela quanto para as atrizes envolvidas no projeto. </span></p>
<figure id="attachment_18601" aria-describedby="caption-attachment-18601" style="width: 1080px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18601" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-6.jpg" alt="Foto promocional da série da HBO, adaptação de Objetos Cortantes. A foto possui um filtro amarelado quase sujo. Amy Adams, que interpreta Camille, é uma mulher ruiva, de olhos claros, e está usando uma maquiagem escura nos olhos e roupa preta. Está encostada na parede, coberta por um papel verde estampado por flores. À sua frente está Adora, interpretada por Patricia Clarkson, na esquerda, cobrindo o lado correspondente do corpo de Amy. Ela é uma mulher branca e loira, e está vestida de branco, de costas para a câmera, mas olha diretamente para Eliza Scanlen a sua direita, uma jovem branca e com os cabelos loiros presos parcialmente em um laço branco. Eliza interpreta Amma, e está de costas, cabeça baixa na direção de Amy." width="1080" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-6.jpg 1080w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-6-300x300.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-6-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-6-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-6-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-18601" class="wp-caption-text">Foto promocional da série de Objetos Cortantes, com as três protagonistas em foco (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Três anos depois de ter explorado o caos familiar de </span><i><span style="font-weight: 400;">Objetos Cortantes</span></i><span style="font-weight: 400;">, Gillian Flynn decidiu explorar uma mente fragmentada e as brechas que podem ser criadas após um trauma. Assim, em 2009 foi publicado </span><a href="https://www.intrinseca.com.br/livro/581/"><i><span style="font-weight: 400;">Lugares Escuros</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> (Dark Places)</span></i><span style="font-weight: 400;">, um romance que caminha entre os horríveis acontecimentos envolvendo a família Day. Em janeiro de 1985, Patty Day e duas de suas filhas, Michelle e Debby, foram assassinadas durante a noite, dentro de sua casa de fazenda.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A caçula da família, Libby, tinha apenas sete anos e conseguiu fugir do massacre. Quando a encontraram na manhã seguinte, ela testemunhou sobre o que tinha ocorrido e seu depoimento apontou seu irmão mais velho, Ben, como o culpado pelo crime. Assim, a mídia foi à loucura com o desenrolar das acusações: os holofotes mostravam Ben como um jovem de quinze anos problemático e adorador de Satanás, e Libby como uma pequena vitoriosa que precisava de ajuda para superar seu trauma. Desse modo, milhares de pessoas se comoveram e enviaram doações em dinheiro para a menina.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro alterna pontos de vista entre capítulos que se passam no dia dos assassinatos e </span><a href="https://www.estantedelivros.com/2014/03/lugares-escuros.html"><span style="font-weight: 400;">vinte e quatro anos depois</span></a><span style="font-weight: 400;">. No tempo presente, Libby é uma adulta emocionalmente instável e esse dinheiro das doações que a sustentou por tantos anos, está acabando. Como não se sente capaz de arranjar um trabalho, ela recorre à proposta de um grupo de fanáticos por soluções de crimes reais. Convencidos de que Ben é </span><a href="http://www.casosacasoselivros.com/2015/08/lugares-escuros-gillian-flynn.html"><span style="font-weight: 400;">inocente</span></a><span style="font-weight: 400;">, eles pagam Libby para que ela vá atrás de pontas soltas dessa história, revivendo suas memórias e contatando os membros ainda vivos de sua família. </span></p>
<figure id="attachment_18602" aria-describedby="caption-attachment-18602" style="width: 620px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18602" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-7.jpg" alt="Foto do e-book de Lugares Escuros. Dentro de um iPad branco, a capa do livro é preta com ramos de trigo brancos, e possui o nome do livro e da autora escritos em verde. Está posicionado em cima de um edredom branco, junto de um óculos de armação preta, uma vela branca e, mais ao canto, um caderno." width="620" height="620" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-7.jpg 620w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-7-300x300.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-7-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-18602" class="wp-caption-text">“Classifiquei essas lembranças como se fossem um lugar particularmente perigoso: um lugar escuro” (Foto: Carla Paredes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto em </span><i><span style="font-weight: 400;">Objetos Cortantes</span></i><span style="font-weight: 400;"> Flynn tem como temática o uso da delicadeza para amenizar a selvageria, aqui ela é escancarada. O uso do presente misturado com </span><i><span style="font-weight: 400;">flashbacks</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Patty e Ben no dia fatídico dos assassinatos exemplifica o grotesco e o desespero da impassibilidade e da raiva. Além dos recursos de tempo, a autora também dá uma aula sobre </span><a href="https://www.domestika.org/pt/blog/3896-o-que-e-escrita-criativa"><span style="font-weight: 400;">escrita criativa</span></a><span style="font-weight: 400;">, colocando em prática o conceito conhecido como </span><a href="https://blog.reedsy.com/show-dont-tell/"><i><span style="font-weight: 400;">show, don’t tell</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (“</span><i><span style="font-weight: 400;">mostre, não fale”</span></i><span style="font-weight: 400;">).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao invés de simplesmente contar como são seus personagens, entregando sua personalidade logo de cara, Flynn mostra detalhes sórdidos das cenas. Criando ambientes assustadores, ela descreve ações que nos mostram mais sobre caráter dos envolvidos do que suas falas ou o discurso do narrador. Um claro exemplo dessa dinâmica é a cleptomania de Libby: em nenhum momento a autora relaciona essa palavra à protagonista, mas o leitor reconhece sua compulsão através de seus atos retratados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, </span><i><span style="font-weight: 400;">Lugares Escuros</span></i><span style="font-weight: 400;"> se torna vívido na mente do leitor e todas as características indelicadas e grosseiras, que pareciam suaves no primeiro romance da autora, ganham muita força com episódios que podem ser considerados nojentos por aqueles com estômago mais fraco. Gillian Flynn usa esse poder de impacto para despejar certas críticas principalmente à formação moral do ser humano. Todos os indivíduos mostrados na narrativa viveram circunstâncias de grande perturbação em sua infância que não foram lidadas da maneira correta.</span></p>
<figure id="attachment_18603" aria-describedby="caption-attachment-18603" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18603" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-8.jpg" alt="Foto tirada de cima do livro Lugares Escuros, aberto em duas páginas pretas. Na página da esquerda, está escrito o nome da autora Gillian Flynn, enquanto na folha da direita, está impresso o nome do livro, ambos em letras brancas. O livro está apoiado em uma mesa, estampada por capas de outros livros em preto e branco." width="1600" height="1066" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-8.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-8-300x200.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-8-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-8-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-8-1536x1023.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-8-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-18603" class="wp-caption-text">&#8220;Eu tenho a maldade dentro de mim, tão real quanto um órgão&#8221; (Foto: Ivi Campos)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A total negligência e o excesso de cuidado são dois opostos muito bem trabalhados. Além de mostrar crianças que estão passando por essas situações delicadas, a autora também apresenta as suas consequências na vida adulta. Ninguém é considerado uma pessoa “equilibrada” nesse livro, e muito se deve à criação que tiveram. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fora as críticas mais explícitas, Flynn deixa dicas sutis de sua opinião sobre assuntos como a </span><a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/tv-em-questao/as-raizes-da-espetacularizacao-da-noticia/"><span style="font-weight: 400;">espetacularização</span></a><span style="font-weight: 400;"> de crimes reais na mídia. A cobertura do massacre dos Day apontou Ben como culpado desde o começo, quando a única relação dele com o crime eram palavras satânicas pintadas nas paredes da casa e seu gosto por </span><i><span style="font-weight: 400;">heavy metal</span></i><span style="font-weight: 400;">. As questões mais minuciosas do caso eram ignoradas em troca de imagens da pequena Libby comemorando seu aniversário mesmo depois de tanta perturbação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa </span><a href="https://personaunesp.com.br/ted-bundy-filme-critica/"><span style="font-weight: 400;">banalização</span></a><span style="font-weight: 400;"> transforma o assassinato em um jogo. Quando Libby é procurada para falar sobre a suposta inocência de Ben, ela conhece vários grupos de pessoas que se reúnem para solucionar </span><a href="https://jovemnerd.com.br/direto-do-bunker/o-que-e-o-true-crime-e-como-ele-tem-aparecido-cada-vez-mais-na-cultura-pop/"><span style="font-weight: 400;">crimes reais</span></a><span style="font-weight: 400;"> como se fossem mais um episódio de </span><a href="https://mixdeseries.com.br/csi-uma-serie-de-investigacao-que-merece-ser-lembrada/"><i><span style="font-weight: 400;">C.S.I.</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e não um caso sério da polícia. Eles se denominam </span><i><span style="font-weight: 400;">Kill Club</span></i><span style="font-weight: 400;">, e alguns associados até fazem </span><i><span style="font-weight: 400;">cosplay</span></i><span style="font-weight: 400;"> dos assassinos e vítimas. </span></p>
<figure id="attachment_18604" aria-describedby="caption-attachment-18604" style="width: 450px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-18604" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-9.jpg" alt="Foto em preto e branco de Lizzie Borden, uma mulher branca com cabelos e olhos claros. Seus cabelos estão presos em um coque, e ela usa uma roupa branca rendada de gola alta. Seus olhos estão fixados em algum ponto fora do campo da foto, de forma incômoda." width="450" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-9.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-9-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 450px) 85vw, 450px" /><figcaption id="caption-attachment-18604" class="wp-caption-text">“Lizzie Borden pegou um machado, e deu quarenta golpes em sua mãe, quando viu o que havia feito, deu quarenta e um em seu pai” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma das críticas a esse assunto está muito bem escondida logo no </span><a href="https://www.shmoop.com/study-guides/literature/dark-places/analysis/epigraph"><span style="font-weight: 400;">epígrafe</span></a><span style="font-weight: 400;"> do livro: é uma cantiga de roda fictícia na qual as pessoas cantariam sobre o massacre dos Day como se fosse uma lenda folclórica e não uma verdade. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Os Day eram um clã que poderia viver à beça/Mas Ben Day perdeu a cabeça/O poder de Satanás o garoto queria/E matou a família em meio a uma gritaria./Da pequena Michelle torceu o pescocinho/Depois de Debby fez picadinho/A mãe, Patty, guardou para o final/E, sem piedade, em sua cabeça deu um tiro fatal./A bebê Libby conseguiu viva permanecer/Mas passar por aquilo de modo algum é viver.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos Estados Unidos já existem algumas canções assim, como é o caso de </span><i><span style="font-weight: 400;">“</span></i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Rj_BIsVQdqs"><i><span style="font-weight: 400;">Lizzie Borden took an axe</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">”</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma cântico tradicional que banalizou uma assassina que foi injustamente inocentada porque a </span><a href="https://www.history.com/this-day-in-history/lizzie-borden-took-an-axe#:~:text=Her%20story%20is%20still%20remembered,gave%20her%20father%20forty%2Done"><span style="font-weight: 400;">mídia</span></a><span style="font-weight: 400;"> retratou que </span><i><span style="font-weight: 400;">“uma jovem cristã de aparência dócil não seria capaz de cometer um crime tão horrendo”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Os jornais da realidade inocentaram Lizzie, e a televisão do universo ficcional de Flynn sentenciou Ben à prisão perpétua.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No ano de 2015, foi feita uma adaptação cinematográfica da obra estrelada por </span><a href="https://abcnews.go.com/GMA/video/charlize-theron-gillian-flynn-dark-places-32944044"><span style="font-weight: 400;">Charlize Theron</span></a><span style="font-weight: 400;"> no papel de Libby, e também contava com nomes como Christina Hendricks, Nicholas Hoult e Chloë Grace Moretz. Apesar do elenco bastante reconhecido e da história envolvente, isso </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/lugares-escuros-critica"><span style="font-weight: 400;">não foi o suficiente</span></a><span style="font-weight: 400;"> para cativar a audiência; talvez seja o pouco envolvimento de Flynn no filme, causando uma pobreza na transferência das plataformas, mas o fato é que o filme de </span><i><span style="font-weight: 400;">Lugares Escuros</span></i><span style="font-weight: 400;">, dirigido por </span><a href="http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-124392/"><span style="font-weight: 400;">Giles Paquet-Brenner</span></a><span style="font-weight: 400;">, não chega nem próximo do aprofundamento das temáticas apresentadas, deixando apenas um indício do que a narrativa realmente é. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" class="youtube-player" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/l6Wy_8Xkp9s?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent" allowfullscreen="true" style="border:0;" sandbox="allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox"></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2012, foi publicado o terceiro romance de Flynn, tornando-se um grande sucesso com a crítica e com o público, e é considerado seu </span><a href="https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/magnum-opus/"><i><span style="font-weight: 400;">Magnum Opus</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span><a href="https://www.intrinseca.com.br/livro/287/"><i><span style="font-weight: 400;">Garota Exemplar</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> (Gone Girl) </span></i><span style="font-weight: 400;">possui como plano de fundo o casal Amy e Nick Dunne, que moram às margens do Rio Mississipi, em North Carthage. No dia do aniversário de cinco anos do casamento, ao invés de Nick ser recebido em casa pela esposa, ele encontra uma cena terrível: porta escancarada, móveis virados, indícios de uma briga e nenhum sinal de Amy. Com a consequente ação da polícia, ele acaba se tornando o principal suspeito do crime, e seus comportamentos e falas singulares acabam o desfavorecendo mais ainda. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas será que Nick cometeria um assassinato? Tanto ele quanto a esposa escondem segredos, e isso é um fato incontestável; mas ao salientar o lado primoroso de Amy, e expor a postura de Nick de sempre esconder seus sentimentos negativos para agradar a todos, é difícil não escolher um lado, e o diário de Amy, com todas as suas anotações sobre o relacionamento, parecem justificar perfeitamente a preferência. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A investigação para encontrar Amy começa, e a comoção do público por ela é multiplicada pela sua fama: ela é a inspiração para a série de livros </span><i><span style="font-weight: 400;">Amy Exemplar</span></i><span style="font-weight: 400;">, escrita por seus pais para ajudar uma nação de progenitores desesperados em saber como educar seus filhos da melhor maneira possível. De maneira muito similar a </span><i><span style="font-weight: 400;">Lugares Escuros</span></i><span style="font-weight: 400;">, a infância é um ponto crucial da história; tanto Libby quanto Amy foram condicionadas a viver de certa maneira enquanto eram crianças, e usam essas circunstâncias para justificar seu comportamento quando mais velhas.</span></p>
<figure id="attachment_18605" aria-describedby="caption-attachment-18605" style="width: 850px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18605" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-10.jpg" alt="Foto do livro Garota Exemplar. O livro possui capa preta, fios emaranhados brancos, e o nome da autora e do livro estão escritos em rosa. Ele está em cima de um lençol branco." width="850" height="528" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-10.jpg 850w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-10-300x186.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-10-768x477.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-18605" class="wp-caption-text">“Há uma responsabilidade injusta que vem do fato de ser filha única — você cresce sabendo que não tem o direito de desapontar, não tem nem o direito de morrer. Não há um substituto por perto; é você” (Foto: Debb Cabral)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, elas divergem em como lidar com a pressão. Enquanto Libby foi profundamente marcada por seus traumas e roubada de uma experiência de vida normal, Amy nunca teve motivações para o descontrole: uma garota linda, rica, inteligente e fácil de se relacionar, possuindo admiradores e simpatizantes por todo lugar que passava. Ela é, inclusive, a mais diversa dentre as protagonistas de Gillian Flynn, pois é a única que apresenta uma história </span><a href="https://www.npr.org/2012/06/05/154288241/the-marriage-is-the-real-mystery-in-gone-girl"><span style="font-weight: 400;">dentro de um relacionamento</span></a><span style="font-weight: 400;">, em oposição às outras, que tinham problemas de conexão física e emocional.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas isso não torna o </span><a href="https://www.cbsnews.com/news/gone-girl-author-gillian-flynn-explores-the-dark-side-of-marriage/"><span style="font-weight: 400;">casamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> algo fácil. Apesar dos eventuais altos e baixos da relação, as adversidades encontradas por Nick e Amy são inimagináveis, e o desfecho dessa catástrofe é ainda mais inesperado. A disposição dos acontecimentos é gradual, possibilitando o desenvolvimento de emoções nos leitores, que têm a sensação de estarem descobrindo o enredo junto das personagens, como se fossem, eles mesmos, detetives solucionando o caso. Desse modo, criam-se também diversos </span><i><span style="font-weight: 400;">plot twists</span></i><span style="font-weight: 400;"> ao longo da história, causando inconformidade e interesse no público.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além do sucesso literário, em 2014 </span><a href="https://www.indiewire.com/2014/10/david-fincher-reveals-gone-girl-secrets-and-whose-side-hes-really-on-q-a-190680/"><span style="font-weight: 400;">David Fincher</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Gillian Flynn trabalharam juntos no longa-metragem, que levou a história de </span><i><span style="font-weight: 400;">Garota Exemplar </span></i><span style="font-weight: 400;">ao máximo. Nele, </span><a href="https://www.minhavisaodocinema.com.br/2015/02/oscar-2015-garota-exemplar-2014-de.html"><span style="font-weight: 400;">Rosamund Pike</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Ben Affleck interpretam o casal Dunne com tanta propriedade que é fácil acreditar que aquilo não passa de uma documentação do sumiço da bela Amy, enquanto o pobre Nick não sabe como agir diante da notoriedade do caso. O ajuste no </span><a href="https://youtu.be/CF3lFPW4E1o"><span style="font-weight: 400;">roteiro</span></a><span style="font-weight: 400;"> do filme foi genial, já que Flynn mantém a narrativa cativante do original em um </span><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Film_noir"><i><span style="font-weight: 400;">noir</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">moderno premiado, garantindo uma indicação na categoria de Melhor Atriz ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar.</span></i></p>
<figure id="attachment_18606" aria-describedby="caption-attachment-18606" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-18606" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/GIF-1-2.gif" alt="Gif de uma cena do filme Garota Exemplar. Nele, Amy é interpretada por Rosamund Pike, uma mulher branca e loira, que está deitada e olha para a câmera, como se alguém a chamasse. Há também uma mão fazendo carinho nos seus cabelos. " width="650" height="274" /><figcaption id="caption-attachment-18606" class="wp-caption-text">“Suponho que estas questões pairam sobre cada casamento: O que você está pensando? Como você se está sentindo? Quem é você? O que fizemos um ao outro? O que vamos fazer?” (GIF: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O mais recente trabalho literário de Flynn é o conto </span><a href="https://www.intrinseca.com.br/livro/648/"><i><span style="font-weight: 400;">O Adulto</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> (The Grownup)</span></i><span style="font-weight: 400;">, lançado em 2014 na antologia </span><a href="http://www.editoraarqueiro.com.br/livros/principe-de-westeros-e-outras-historias-o/"><i><span style="font-weight: 400;">Rogue</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de </span><a href="https://www.omelete.com.br/series-tv/hbo-roadmarks-george-r-r-martin-game-of-thrones"><span style="font-weight: 400;">George R. R. Martin</span></a><span style="font-weight: 400;">, e publicado independentemente no ano seguinte. Flynn utiliza os gêneros de terror psicológico e </span><i><span style="font-weight: 400;">thriller</span></i><span style="font-weight: 400;">, regulares em seus outros livros, juntamente com um nunca explorado por ela antes: </span><a href="https://www.nytimes.com/2016/05/22/books/review/emma-thompson-reads-the-turn-of-the-screw-by-henry-james.html"><span style="font-weight: 400;">histórias de fantasma.</span></a><span style="font-weight: 400;"> A narrativa acompanha uma jovem que utiliza a mentira para ganhar a vida, trabalhando como vidente e oferecendo serviços de leitura de aura para as suas clientes, geralmente compostas por donas de casa ricas e frustradas com suas vidas monótonas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma delas é Susan Burke, uma mulher recém-chegada na cidade que relata problemas em sua casa principalmente com seu enteado adolescente. A protagonista rapidamente identifica uma chance de aproveitar-se da ingenuidade de Susan, porém ela não esperava que ao visitar a </span><a href="https://valkirias.com.br/a-assombracao-da-casa-da-colina-o-terror-psicologico-de-shirley-jackson/"><span style="font-weight: 400;">mansão</span></a><span style="font-weight: 400;"> da família Burke, encontraria cenas bizarras e acontecimentos misteriosos, típicos das </span><a href="http://leitorcompulsivo.com.br/2019/11/06/resenha-a-volta-do-parafuso-henry-james/#:~:text=Com%20um%20enredo%20e%20narrativa,muito%20subentendido%20e%20nas%20entrelinhas."><span style="font-weight: 400;">histórias de que tanto gosta</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ela, então, se sente compelida a entender e desvendar os segredos que envolvem o local e a família, sem imaginar o que pode estar por trás de tantos eventos sinistros. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo uma obra de leitura rápida, Flynn deixou muitos fãs órfãos e com saudade de sua escrita. Mas isso não significa um desapontamento, até porque esta mulher é fisicamente e mentalmente incapaz de escrever algo mediano. Em menos de 100 páginas, a imersão causada pela história chega a tornar cada momento tenso palpável, a ponto de fazer o leitor questionar a lógica e as temáticas já utilizadas pela autora, que nunca havia trabalhado com o sobrenatural antes em seus escritos. </span></p>
<figure id="attachment_18607" aria-describedby="caption-attachment-18607" style="width: 1650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18607" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-11.jpg" alt="Imagem da capa original em inglês de O Adulto. No centro da imagem há a ilustração de um olho com a íris amarela, e uma pupila preta que possui o formato ambíguo de uma casa ou de uma caveira. No fundo, tem riscos radiais cinza, que parecem sair do centro do olho, em direção às extremidades da imagem. O nome do livro em inglês, The Grownup, está escrito em letras pretas com sombreamento amarelo, e está em cima da ilustração; o nome da autora segue a mesma formatação, porém posicionada em baixo." width="1650" height="1650" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-11.jpg 1650w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-11-300x300.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-11-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-11-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-11-768x768.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-11-1536x1536.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-11-1200x1200.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-18607" class="wp-caption-text">“Era uma simples transação comercial: você fazia com que uma pessoa se sentisse bem, e ela lhe dava dinheiro” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Vencedor de um </span><a href="http://www.theedgars.com"><i><span style="font-weight: 400;">Edgar Award</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o conto é a única obra não adaptada da autora, mas possui os direitos comprados pela </span><a href="https://deadline.com/2016/02/gillian-flynn-gone-girl-the-grownup-universal-mike-deluca-1201702017/"><i><span style="font-weight: 400;">Universal</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Aí entra a ambiguidade: querer muito ver essa história nas telas por sermos grandes fãs, ou manter a qualidade da história curta, que seria complicada de ser transformada em um filme. Mas desde que Gillian Flynn esteja envolvida, tudo o que ela faz será considerado uma obra-prima.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Faz quase sete anos que um novo livro não é lançado, e isso considerando a publicação de meras 65 páginas de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Adulto. </span></i><span style="font-weight: 400;">Mas as boas novas </span><a href="https://www.bustle.com/p/gone-girl-author-gillian-flynn-is-writing-a-new-book-heres-what-we-know-so-far-8369910"><span style="font-weight: 400;">estão chegando</span></a><span style="font-weight: 400;">, e de acordo com Gillian, seu novo romance chegará ainda em 2021, tratando-se de uma </span><a href="http://www.revistaestante.fnac.pt/hogarth-shakespeare/"><span style="font-weight: 400;">reescritura do clássico de Shakespeare</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Hamlet</span></i><span style="font-weight: 400;">. O contrato do projeto foi assinado em </span><a href="http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2014/05/autora-de-garota-exemplar-assina-contrato-para-reescrever-hamlet.html"><span style="font-weight: 400;">2014</span></a><span style="font-weight: 400;">, e no ano passado ela resolveu nos dar algumas migalhas, dizendo que Brett, seu marido, leu a primeira página, e </span><i><span style="font-weight: 400;">“é uma primeira página espetacular. Provavelmente a melhor que já escrevi”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto o </span><i><span style="font-weight: 400;">Hamlet </span></i><span style="font-weight: 400;">de Flynn não chega a nós, temos de nos contentar com suas quatro obras publicadas e os </span><a href="https://www.omelete.com.br/amazon-prime-video/criticas/utopia-1a-temporada-critica"><span style="font-weight: 400;">roteiros de séries</span></a><span style="font-weight: 400;"> e filmes. Mas isso não é de todo ruim, pois com um material de tanta qualidade e com temáticas tão inquietantes, a última coisa que você pode sentir com Gillian Flynn é tédio. Nesse caso, deixamos a nossa admiração para a aniversariante que conquistou um espaço no meio literário para que sua voz, e a de muitas outras mulheres que não foram meninas boazinhas, fossem ouvidas. Parabéns, Flynn, pela trajetória inspiradora e por revolucionar os discursos literários. Esperamos que os próximos cinquenta anos tragam ainda mais narrativas perturbadoras. E pare de jogar <em>Ms. Pac-Man</em> no </span><a href="https://www.gillian-flynn.com/aboutgillianflynn"><span style="font-weight: 400;">porão.</span></a></p>
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		<title>50 anos de Pearl: ainda não há nada como a pérola de Janis Joplin</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Jan 2021 11:44:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Caroline Campos Há séculos, cometas têm passado pela Terra. Seus suspiros de vida são breves, mas igualmente fortes. Tão fortes que ecoam gerações adiante mesmo após sua passagem. Janis Joplin, a selvagem primeira dama do rock n’ roll, foi um cometa &#8211; desses que desestabilizam e transformam os poucos sortudos que podem presenciá-los. Apesar do &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/pearl-janis-joplin-50-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "50 anos de Pearl: ainda não há nada como a pérola de Janis Joplin"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_17850" aria-describedby="caption-attachment-17850" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-17850 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/EHanbeJX0AADfZg.jpg" alt="Janis Joplin, uma mulher branca em torno dos seus 27 anos, está sentada em uma poltrona estampada. Ela está com as pernas cruzadas, o braço apoiado no encosto e dá uma gargalhada. Ela usa uma calça solta e vermelha, sapatos de bico fino vermelhos, uma blusa roxa de mangas compridas e plumas vermelhas no cabelo. O fundo é azul e há um copo com um líquido amarelado no chão." width="1200" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/EHanbeJX0AADfZg.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/EHanbeJX0AADfZg-300x300.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/EHanbeJX0AADfZg-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/EHanbeJX0AADfZg-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/EHanbeJX0AADfZg-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-17850" class="wp-caption-text">Seja no soul, no blues ou no rock: Pearl é sinônimo de genialidade (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><strong>Caroline Campos</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há séculos, cometas têm passado pela Terra. Seus suspiros de vida são breves, mas igualmente fortes. Tão fortes que ecoam gerações adiante mesmo após sua passagem. Janis Joplin, a selvagem </span><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2018/01/18/interna_diversao_arte,653946/janis-joplin-75-anos.shtml"><span style="font-weight: 400;">primeira dama do </span><i><span style="font-weight: 400;">rock n’ roll</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, foi um cometa &#8211; desses que desestabilizam e transformam os poucos sortudos que podem presenciá-los. Apesar do tempo da cantora nesse plano ter sido curto, é possível entrar em contato com um pedacinho de sua alma ao ouvir </span><i><span style="font-weight: 400;">Pearl</span></i><span style="font-weight: 400;">, sua obra-prima. O disco foi lançado em janeiro de 1971, três meses depois de Janis </span><a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2020-10-04/50-anos-sem-janis-joplin-a-cronica-de-um-grito-de-ajuda-que-ninguem-escutou.html"><span style="font-weight: 400;">ter sido encontrada morta</span></a><span style="font-weight: 400;"> em seu quarto de hotel. Passados 50 anos, a certeza ainda é uma: nunca existiu ninguém como Janis Joplin.</span></p>
<p><span id="more-17849"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A década de 70 foi pra lá de produtiva no mundo da música. Estrelas em ascensão, bandas se consolidando e o lançamento de álbuns e mais álbuns que hoje em dia são </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-night-at-the-opera-45-anos/"><span style="font-weight: 400;">peças raras</span></a><span style="font-weight: 400;"> para qualquer colecionador. Janis, que veio de uma família conservadora em uma cidadezinha do Texas, foi lançada em 1967 no </span><a href="http://blogs.jornaldaparaiba.com.br/silvioosias/2017/06/16/ha-50-anos-festival-de-monterey-projetou-hendrix-e-joplin/"><span style="font-weight: 400;">Festival </span><i><span style="font-weight: 400;">Pop</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Monterey</span></a><span style="font-weight: 400;">, ao lado da banda Big Brother and Holding Company. Curiosamente, o mesmo festival também lançou </span><a href="https://personaunesp.com.br/jimi-hendrix-are-you-experienced-50-anos/"><span style="font-weight: 400;">Jimi Hendrix</span></a><span style="font-weight: 400;">, que, por ironia do destino, compartilha outro número com a cantora: ambos morreram com 27 anos, inaugurando o chamado </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/juventude-fama-e-vicio-soma-problematica-do-famoso-clube-dos-27/"><i><span style="font-weight: 400;">Clube dos 27</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; a maldição que envolve diversos famosos que partiram nessa idade.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Janis Joplin - Ball &amp; Chain - Monterey Pop" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/X1zFnyEe3nE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de produzir dois discos com a banda, </span><a href="https://open.spotify.com/album/4W821NJLoB9uHHkAFNXXKu"><i><span style="font-weight: 400;">Big Brother and the Holding Company</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1967) e </span><a href="https://open.spotify.com/album/2rogKfOpmCFuqNhtGKf2dX"><i><span style="font-weight: 400;">Cheap Thrills</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1968), era hora de pensar solo. Assim, a cantora se aventurou com os The Kozmic Blues Band para lançar</span> <a href="https://open.spotify.com/album/5rFRfDq52l2l5RtS5kxA9A"><i><span style="font-weight: 400;">I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again Mama!</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, em 1969. Vocais potentes a parte, o registro não foi um grande sucesso, e Janis precisava mesmo era de uma banda que a entendesse. Foi aí que encontrou os canadenses da Full Tilt Boogie Band, responsáveis pelo instrumental de tirar o fôlego de </span><i><span style="font-weight: 400;">Pearl</span></i><span style="font-weight: 400;">, o segundo e último trabalho solo de Janis, e também o melhor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Das dez faixas explosivas presentes no disco, apenas uma não foi concluída: Janis faleceu antes de gravar os vocais de </span><a href="https://open.spotify.com/track/7BXhPS51RwipFlzDNlHVOg"><i><span style="font-weight: 400;">Buried Alive In The Blues</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Como os arranjos já haviam sido aprovados pela cantora, a banda optou por mantê-la no CD, do jeitinho que a texana iria querer. Não é para menos, pois só de ouvir a canção é possível perceber o nível de talento dos músicos que Joplin escolheu. O resto de </span><i><span style="font-weight: 400;">Pear</span></i><span style="font-weight: 400;">l parece um lamento melancólico guiado por Janis. Sua voz visceral está no auge da crueza, provando que a cantora era, acima de tudo, um fenômeno da natureza incapaz de ser controlado. </span></p>
<figure id="attachment_17852" aria-describedby="caption-attachment-17852" style="width: 591px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-17852 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/5214a31054824cd95fa51b0cd7ea41c8.png" alt="A imagem está em preto e branco. Nela, se encontram sete pessoas: seis homens e uma mulher. Estão todos sentados em cadeiras em um bar com copos na mão. A mulher está no centro da imagem, é branca e segura um copo no alto com um sorriso no rosto. Os homens estão ao seu redor e posam para a foto." width="591" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/5214a31054824cd95fa51b0cd7ea41c8.png 591w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/5214a31054824cd95fa51b0cd7ea41c8-300x228.png 300w" sizes="auto, (max-width: 591px) 85vw, 591px" /><figcaption id="caption-attachment-17852" class="wp-caption-text">Joplin e a Full Tilt Boogie, com John Till como guitarrista, Richard Bell no piano, Brad Campbell no baixo, Clark Pierson como baterista e Ken Pearson no órgão (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">E o melhor exemplo disso é </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=GxeN2H0vM0Q"><i><span style="font-weight: 400;">Cry Baby</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">cover </span></i><span style="font-weight: 400;">da música de Garnet Mimms, da banda de </span><i><span style="font-weight: 400;">blues </span></i><span style="font-weight: 400;">Garnet Mimms &amp; The Enchanters. A impressão que temos é que, a qualquer momento, os alto-falantes vão se rasgar tamanha a performance da cantora logo na segunda música de </span><i><span style="font-weight: 400;">Pearl</span></i><span style="font-weight: 400;">. O tom rouco e a queixa pelo desamor que vive dita todo o resto do disco também é explícito em </span><i><span style="font-weight: 400;">A Woman Left Lonely</span></i><span style="font-weight: 400;">, em que Janis canta em um paradoxo sensível-agressivo sobre solidão e carência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Janis Joplin também assina a composição de duas faixas: </span><i><span style="font-weight: 400;">Move Over</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://observador.pt/2015/07/10/mercedes-benz-melhor-acidente-janis-joplin/"><i><span style="font-weight: 400;">Mercedes-Benz</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, em parceria com Bob Neuwirth. A primeira, abre-alas do disco, tem guitarras marcantes que acompanham cada timbre da cantora em uma </span><i><span style="font-weight: 400;">vibe</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">rock ‘n roll</span></i><span style="font-weight: 400;">, que foi </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=YYWdiG1Bf0c"><span style="font-weight: 400;">apresentada</span></a><span style="font-weight: 400;"> no </span><i><span style="font-weight: 400;">The Dick Cavett Show</span></i><span style="font-weight: 400;"> após uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=irJ4QsacyyY"><span style="font-weight: 400;">entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;"> repleta do bom humor habitual da rainha de plumas na cabeça. </span><i><span style="font-weight: 400;">Ou aceite esse amor que eu ofereço ou me deixe em paz </span></i><span style="font-weight: 400;">&#8211;</span> <span style="font-weight: 400;">homens são homens independente da época em que se cante sobre eles. Já </span><i><span style="font-weight: 400;">Mercedes-Benz</span></i><span style="font-weight: 400;">, sua música mais conhecida, recebe uma versão à capela com nada além de batidas de pé acompanhando a rouquidão com que Janis a entoa.</span></p>
<figure id="attachment_17853" aria-describedby="caption-attachment-17853" style="width: 1567px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-17853 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/pearl_joplin_janis_1_lp_sony_eu.jpg1_.jpg" alt="Capa do disco Pearl. Janis Joplin está sentada em uma poltrona, com as pernas cruzadas e o braço apoiado no encosto. Ela usa calças largas vermelhas, uma blusa roxa de mangas compridas e plumas vermelhas nos cabelos castanhos. O fundo é azul e a palavra PEARL está centralizada na parte de cima, em letras beges. Em volta, há uma margem amarela com um fundo vinho." width="1567" height="1600" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/pearl_joplin_janis_1_lp_sony_eu.jpg1_.jpg 1567w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/pearl_joplin_janis_1_lp_sony_eu.jpg1_-294x300.jpg 294w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/pearl_joplin_janis_1_lp_sony_eu.jpg1_-1003x1024.jpg 1003w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/pearl_joplin_janis_1_lp_sony_eu.jpg1_-768x784.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/pearl_joplin_janis_1_lp_sony_eu.jpg1_-1504x1536.jpg 1504w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/pearl_joplin_janis_1_lp_sony_eu.jpg1_-1200x1225.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-17853" class="wp-caption-text">A conhecida capa de Pearl &#8211; Janis era fã assumida de lendas como Aretha Franklin e Bessie Smith, de quem reformou o túmulo (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na letra, Janis pede a Deus uma TV a cores, uma noite na cidade e uma </span><i><span style="font-weight: 400;">Mercedes</span></i><span style="font-weight: 400;">, diferente de seus amigos que possuíam </span><i><span style="font-weight: 400;">Porsches</span></i><span style="font-weight: 400;">. O engraçado é que, no final das contas, Janis se comprou um </span><i><span style="font-weight: 400;">Porsche </span></i><span style="font-weight: 400;">branco, o qual ela achava extremamente sem graça e pediu ao amigo que pintasse. O resultado, colorido, psicodélico e belíssimo, foi </span><a href="http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/12/porsche-psicodelico-de-janis-joplin-vendido-por-us-176-milhao.html"><span style="font-weight: 400;">vendido</span></a><span style="font-weight: 400;"> por mais de um milhão e meio de dólares em 2015 em um leilão que durou apenas 5 minutos. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Gostaria de fazer uma música com grande importância social e poética”. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro grande clássico da discografia da roqueira integra </span><i><span style="font-weight: 400;">Pearl</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; </span><a href="https://jc.ne10.uol.com.br/colunas/toques/2020/10/11981572-maior-sucesso-de-janis-joplin-foi-inspirado-por-uma-secretaria.html#:~:text=Me%20and%20Bobby%20Mcgee%20foi,m%C3%BAsica%20tem%20uma%20hist%C3%B3ria%20curiosa.&amp;text=Kris%20Kristofferson%20compunha%20para%20a,para%20responder%20a%20Fred%20Foster."><i><span style="font-weight: 400;">Me and Bobby McGee</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, escrita pelo cantor Kris Kristofferson, retoma as raízes </span><i><span style="font-weight: 400;">country</span></i><span style="font-weight: 400;"> de seu berço no Texas. A música é uma balada deliciosa sobre um casal viajante, marcada pelo amargor da separação e a tristeza da saudade. Ouvindo a letra, é impossível dissociar Janis da personagem que canta. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu trocaria todos os meus amanhãs por um único ontem, para estar abraçada com o corpo de Bobby perto do meu”. </span></i></p>
<figure id="attachment_17854" aria-describedby="caption-attachment-17854" style="width: 932px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-17854 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/1453218988132.jpg" alt="Janis Joplin usa calças roxas, blusa de mangas compridas preta e um grande chapéu branco na cabeça. Ela está em cima de seu porsche colorido, pintado das cores azul, vermelho, laranja, amarelo, verde e rosa em desenhos psicodélicos. De fundo, há uma grande construção atrás de um lago que dá na rua de asfalto." width="932" height="638" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/1453218988132.jpg 932w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/1453218988132-300x205.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/1453218988132-768x526.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-17854" class="wp-caption-text">O incrível veículo modelo 356C 1600 da cantora norte-americana se tornou o mais caro do mundo e estava estacionado na frente do hotel em que Janis foi encontrada morta (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Janis sofreu muito pelo seu estilo diferente dos texanos caretas ao seu redor, com o cabelo desgrenhado e as roupas largas e vibrantes. Mais uma mulher vítima dos padrões estéticos, chegou a ser classificada como “o homem mais feio do câmpus” na Universidade do Texas, que integrou por um breve período de tempo estudando arte. O que seus </span><i><span style="font-weight: 400;">bullies</span></i><span style="font-weight: 400;"> não esperavam era que sua vítima iria morrer com </span><a href="https://culturadoria.com.br/janis-joplin-biografia-definitiva-brasil/"><i><span style="font-weight: 400;">status </span></i><span style="font-weight: 400;">de lenda</span></a><span style="font-weight: 400;">, sendo apelidada de “pérola”, o mesmo nome de seu último álbum, enquanto eles foram esquecidos pela história. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No caminho em que as faixas vão passando, o amor é procurado, reafirmado, questionado e lamentado. Enquanto </span><i><span style="font-weight: 400;">My Baby </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma ode a confiança da paixão e </span><i><span style="font-weight: 400;">Half Moon </span></i><span style="font-weight: 400;">sobre o impacto que esse sentimento causa &#8211; </span><i><span style="font-weight: 400;">seu amor me dá vida </span></i><span style="font-weight: 400;">-, </span><i><span style="font-weight: 400;">Trust Me</span></i><span style="font-weight: 400;"> implora por tempo para amadurecer, pois todos nós sabemos que Joplin era um espírito sem amarras. Sossegar e se permitir um amor tranquilo não estava nos seus planos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de uma avalanche sentimental, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ju9yFA1S7K8"><i><span style="font-weight: 400;">Get It While You Can</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">finaliza não só o disco, mas a carreira musical da cantora. Coincidências à parte, </span><i><span style="font-weight: 400;">Pearl</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi produzido por Paul Rothchild, conhecido também pela produção de álbuns do The Doors, banda clássica do </span><i><span style="font-weight: 400;">rock </span></i><span style="font-weight: 400;">liderada por Jim Morrison (outra conhecida vítima da maldição dos 27).</span></p>
<figure id="attachment_17855" aria-describedby="caption-attachment-17855" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-17855 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/ksngcam.jpg" alt="A imagem está em preto e branco. Janis Joplin, uma mulher branca, está no centro, com os braços levantados e um cigarro em uma mão. Ela usa regata, plumas na cabeça e pulseiras e colares. Ao seu redor, muitas pessoas curtem o carnaval do Rio de Janeiro." width="800" height="599" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/ksngcam.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/ksngcam-300x225.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/01/ksngcam-768x575.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-17855" class="wp-caption-text">Janis gravou Happy Trails como presente de aniversário para John Lennon, que só recebeu a gravação depois da morte da cantora; na foto, Janis curtindo o carnaval no Rio (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sua vida cheia de altos e baixos não poderia deixar de envolver os vícios, já que foi a mistura de álcool e heroína que causou uma overdose fatal na cantora no dia 4 de outubro de 1970, em Los Angeles. Inclusive, foi depois do lendário </span><a href="https://entretenimento.uol.com.br/reportagens-especiais/os-50-anos-do-festival-woodstock-e-por-que-e-dificil-acontecer-de-novo/"><span style="font-weight: 400;">Festival de Woodstock</span></a><span style="font-weight: 400;">, em 1969, que Janis resolveu tentar sua própria forma de reabilitação e pousou em </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/02/ha-50-anos-janis-joplin-veio-rio-se-desintoxicar-mas-bebia-no-cafe-da-manha-no-almoco-e-na-janta.shtml"><span style="font-weight: 400;">terras brasileiras</span></a><span style="font-weight: 400;">. Fez </span><i><span style="font-weight: 400;">topless</span></i><span style="font-weight: 400;">, foi expulsa do</span><i><span style="font-weight: 400;"> Copacabana Palace </span></i><span style="font-weight: 400;">por nadar nua e os boatos ainda especulam um breve relacionamento da cantora com o roqueiro Serguei. O mais Janis Joplin possível. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> O que deixa </span><i><span style="font-weight: 400;">Pearl</span></i><span style="font-weight: 400;"> ácido e metálico é perceber a impressionante capacidade que foi interrompida. É lamentar tudo que a Rainha do </span><i><span style="font-weight: 400;">Rock</span></i><span style="font-weight: 400;"> poderia ter se tornado, vivido. O disco vendeu mais de 4 milhões de cópias exatamente ao mostrar uma Janis Joplin atormentada, desiludida, mas tão completa e incompleta quanto nunca. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Janis pode não ter se encaixado no Texas, mas o resto do mundo a acolheu por suas imperfeições, seu talento e sua personalidade arrebatadora. A cantora segue sendo inigualável com sua voz áspera e dedicada, e, mesmo tendo partido muito, muito cedo, ainda nos deixou um dos maiores álbuns da música. Cinquenta anos depois, a pérola reluz como nunca.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: Pearl (Legacy Edition)" width="300" height="380" allowtransparency="true" frameborder="0" allow="encrypted-media" src="https://open.spotify.com/embed/album/3j7nicLAWXM0Fb08q9XGyf"></iframe></p>
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