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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Freaks ensina: quem vê cara, não vê coração</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Mar 2022 16:12:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Gatti A padronização da beleza é um fenômeno muito comum e normalizado na sociedade. Ao longo das décadas, o rótulo daquilo que é bonito ou feio vai se alterando, mas sempre continua vigente para julgar quem vai aparecer diante das telas. Se esse cenário já é tão presente nos dias de hoje, imagine ir &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/freaks-90-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Freaks ensina: quem vê cara, não vê coração"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26291" aria-describedby="caption-attachment-26291" style="width: 1677px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-26291" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-3.jpg" alt="Cena em branco e preto do filme freaks apresenta um grupo de dez artistas de circo. Com exceção da mulher branca e loira, que usa um longo vestido branco e apresenta um olhar sério, todos os outros apresentam expressões de descontração." width="1677" height="1258" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-3.jpg 1677w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-3-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-3-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-3-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-3-1536x1152.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-3-1200x900.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26291" class="wp-caption-text">Ao longo de pouco mais de uma hora de filme, Freaks provoca angústia, revolta e empatia (Foto: Metro-Goldwyn-Mayer)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Gatti</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://claudia.abril.com.br/coluna/ana-claudia-paixao-hollywood-cinema-series/o-algoritmo-de-hollywood-fala-muito-sobre-padroes-inalterados/#:~:text=E%20o%20cen%C3%A1rio%20ainda%20%C3%A9,muda%20sua%20rela%C3%A7%C3%A3o%20com%20elas."><span style="font-weight: 400;">padronização da beleza</span></a><span style="font-weight: 400;"> é um fenômeno muito comum e normalizado na sociedade. Ao longo das décadas, o rótulo daquilo que é bonito ou feio vai se alterando, mas sempre continua vigente para julgar quem vai aparecer diante das telas. Se esse cenário já é tão presente nos dias de hoje, imagine ir ao cinema há 90 anos e, ao invés de ver pessoas como o rosto entupido de pó de arroz, se deparar com um grupo de artistas com deficiência. Esse é justamente o caso de </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;">, um clássico de Tod Browning, que estreou em 1932 com muita polêmica.</span></p>
<p><span id="more-26290"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os eventos conturbados por trás do filme se dão pelo fato da escolha do diretor em escalar </span><a href="https://revistatrip.uol.com.br/trip/precisamos-falar-sobre-capacitismo"><span style="font-weight: 400;">pessoas com deficiência</span></a><span style="font-weight: 400;"> para estrelarem em sua película. Se ainda no século 21, esse grupo social ainda é marginalizado, quase cem anos atrás as circunstâncias eram ainda mais tensas. </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi rejeitado pela sociedade e se tornou um fracasso de bilheteria, sendo reconhecido apenas durante a década de 1960 no movimento de contracultura dos </span><a href="https://www.pipoca3d.com.br/2019/03/o-que-sao-os-midnight-movies.html"><i><span style="font-weight: 400;">midnight movies</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Esse período serviu para reavivar a relevância da narrativa focada em um grupo de artistas de um circo dos horrores.</span></p>
<figure id="attachment_26292" aria-describedby="caption-attachment-26292" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-26292" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-2-3.jpg" alt="Cena em branco e preto do filme freaks exibe à esquerda um homem anão branco, de cabelos curtos e castanhos, vestindo uma camisa branca e uma calça, agachado embaixo de uma escada e olhando para a no meio da imagem mulher, que é branca, loira e veste um figurino circense preto com uma saia. Sua expressão corporal apresenta desdém ao anão e ao homem à direita, que é branco, de cabelos curtos e penteados e não tem pernas. Ele veste um terno preto e está olhando para a mulher. O fundo da foto exibe trailers de circo bem decorados." width="800" height="600" /><figcaption id="caption-attachment-26292" class="wp-caption-text">Cleo, uma das poucas personagens sem deficiência, trata seus colegas de trabalho com desdém e antipatia (Foto: Metro-Goldwyn-Mayer)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme apresenta </span><span style="font-weight: 400;">Cleópatra (Olga Baclanova), uma trapezista que mantém um relacionamento com Hércules (Henry Victor), um homem forte que ganha a vida exibindo os músculos no circo. No entanto, o casal descobre que Hans (</span><a href="https://vaudeville.sites.arizona.edu/node/10"><span style="font-weight: 400;">Harry Earles</span></a><span style="font-weight: 400;">), um dos anões do local, é herdeiro de uma grande fortuna. Nesse momento, a jovem mulher passa a seduzi-lo para roubar todas as suas posses. O plano ardiloso da dupla funciona de início, porém os outros artistas circenses passam a duvidar das intenções de Cleo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O roteiro audacioso de </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;"> teve como inspiração o conto</span> <a href="http://www.olgabaclanova.com/spurs.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Spurs</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, do escritor estadunidense Tod Robbins. A peça literária apresenta a mesma relação abusiva entre um anão e uma trapezista em um pequeno circo. Desse modo, </span><span style="font-weight: 400;">Willis Goldbeck, Leo Gordon e o próprio Tod Robbins beberam dessa fonte para dar vida ao texto do clássico do horror. Em ambos os casos, o mais inovador da trama é a forma inclusiva de tratar as pessoas com deficiência, deixando essa temática explícita em alguns diálogos presentes ao longo da narrativa.</span></p>
<figure id="attachment_26293" aria-describedby="caption-attachment-26293" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-26293" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-3-4.jpg" alt="Cena em branco e preto do filme freaks apresenta um homem branco, anão, de cabelos curtos, loiros e penteados, vestindo roupa social. Suas expressões são de tristeza. O fundo da imagem é escuro, dando destaque apenas para a lamparina na extrema direita da foto." width="800" height="599" /><figcaption id="caption-attachment-26293" class="wp-caption-text">“Não percebem que sou um homem com os mesmos sentimentos dos deles” (Foto: Metro-Goldwyn-Mayer)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;"> trouxe visibilidade aos atores do filme. Durante o processo de seleção do elenco, Browning, que optou por selecionar uma gama de pessoas ligadas diretamente aos espetáculos de circo, rodou os Estados Unidos junto com o diretor de elenco, Ben Piazza, à procura dos intérpretes ideais para a obra. A busca por feiras e circos rendeu frutos, como Schlitzie, um artista com microcefalia que trabalhou sua vida inteira no ramo do entretenimento, </span><span style="font-weight: 400;">Minnie Woolsey, que foi diagnosticada com </span><a href="https://www.portalsaofrancisco.com.br/saude/sindrome-de-seckel"><span style="font-weight: 400;">síndrome de Virchow-Seckel</span></a><span style="font-weight: 400;">, e </span><span style="font-weight: 400;">Prince Randian, que impressionava com a sua mobilidade mesmo tendo nascido sem os braços e as pernas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A representatividade desses artistas com deficiência em </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;"> os coloca em plano de igualdade aos demais atores do longa, principalmente ao mostrar que o verdadeiro monstro eram aqueles tomados pelo sentimento da ganância. Mas apesar da lição de moral, a situação dos atores e de outras PCD não era nada favorável. Muitos se exibiam nos chamados </span><a href="https://super.abril.com.br/coluna/turma-do-fundao/as-atracoes-humanas-do-8220-circo-dos-horrores-8221/"><i><span style="font-weight: 400;">freak shows</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que tinha como foco chocar a população com imagens consideradas anormais para o padrão da época. O formato bizarro de entretenimento era muito popular nos Estados Unidos e o </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/tradicional-circo-ringling-bros-fecha-apos-146-anos.ghtml"><i><span style="font-weight: 400;">Barnum &amp; Bailey’s</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, um circo dos horrores fundado por Phineas Barnum, chegou a apresentar milhares de personalidades. Dentre elas estavam as gêmeas siamesas Daisy e Violet, unidas pelo quadril e nádegas, que chegaram a estrelar no clássico de Browning.</span></p>
<figure id="attachment_26294" aria-describedby="caption-attachment-26294" style="width: 628px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26294" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-4-4.jpg" alt="Cena em branco e preto do filme freaks mostra um grupo de nove artistas de circo reunidos em volta de uma mesa bem comprida. Alguns dos personagens demonstram expressões de alegria e outros de tristeza. A mesa está coberta por uma toalha de piquenique e muita comida. A cerimônia se localiza em uma das tendas do circo." width="628" height="471" /><figcaption id="caption-attachment-26294" class="wp-caption-text">A festa de noivado de Cleo e Hans foi celebrada como um jantar entre as atrações do circo (Foto: Metro-Goldwyn-Mayer)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Partindo desse imaginário popular grotesco da forma com que as PCD eram vistas socialmente, </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;"> inicia com a reação do público após sair do espetáculo. O </span><a href="https://super.abril.com.br/coluna/turma-do-fundao/12-filmes-perturbadores-de-terror-psicologico/"><span style="font-weight: 400;">horror</span></a><span style="font-weight: 400;"> provocado pela película apela para a imaginação do telespectador, a quem é transmitida uma angústia sobre algo que ainda não foi exibido. Em antítese ao clima provocado de início, a primeira aparição das atrações do circo os exibe como indivíduos carinhosos, meigos e que apresentam comportamentos infantis, o que atenua ainda mais a crítica sobre quem é a aberração da história.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, o rico debate presente no longa não foi altamente explorado da forma que devia. A curta duração do filme, que não chega nem a 70 minutos, faz com que alguns diálogos não sejam muito aprofundados. O motivo para isso se deu pelo fato de os produtores estarem receosos pela reação do público diante da ousadia da trama. Mas ainda assim, o roteiro inovador serviu de grande inspiração para diversas obras.</span></p>
<figure id="attachment_26295" aria-describedby="caption-attachment-26295" style="width: 632px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26295" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-5-1.jpg" alt="Cena em branco e preto do filme freaks exibe à esquerda um homem negro e careca sem braços e pernas, vestindo uma roupa adaptada para o seu corpo em cima de uma mesa. À direita está um homem branco, de cabelos curtos e castanhos, vestindo uma camisa branca, um cinto preto e uma calça cinza. Os dois estão conversando em um dos ambientes do circo." width="632" height="474" /><figcaption id="caption-attachment-26295" class="wp-caption-text">Prince Randian, que interpretou o Torso Vivo em Freaks, chegou a fazer shows exibindo suas habilidades de se movimentar sem os braços e as pernas (Foto: Metro-Goldwyn-Mayer)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A escritora Katherine Dunn foi inspirada pelo filme para escrever o livro </span><a href="https://www.momentumsaga.com/2018/11/resenha-geek-love-de-katherine-dunn.html"><i><span style="font-weight: 400;">Amor de Monstro</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de 1989. A peça literária narra a vida da família Binewski, que ingerem substâncias tóxicas para darem a luz a crianças fora do padrão esperado e, assim, constroem seu </span><i><span style="font-weight: 400;">freak show</span></i><span style="font-weight: 400;"> itinerante. Além dessa, </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Simpsons</span></i><span style="font-weight: 400;"> já produziram um episódio inspirado pelo filme. O especial</span><i><span style="font-weight: 400;"> A Casa da Árvore dos Horrores XXIV</span></i><span style="font-weight: 400;"> trouxe a história </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks No Geeks</span></i><span style="font-weight: 400;"> que apresenta o mesmo roteiro do longa de Browning, porém adaptado com a caracterização dos personagens da série.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Igualmente a essas obras, </span><a href="https://personaunesp.com.br/ahs-1984-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">American Horror Story</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> também se influenciou por </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;"> e acabou dedicando uma história da antologia exclusiva ao ambiente circense. A quarta temporada da série, intitulada de </span><i><span style="font-weight: 400;">Freak Show</span></i><span style="font-weight: 400;">, trouxe todo essa atmosfera tensa desses espetáculos sórdidos, com personagens que remetem diretamente às personalidades do longa, como Pepper (</span><span style="font-weight: 400;">Naomi Grossman</span><span style="font-weight: 400;">) e as gêmeas Bette e Dot Tattler (Sarah Paulson). Além disso, o </span><i><span style="font-weight: 400;">showrunner</span></i><span style="font-weight: 400;">, Ryan Murphy, ainda exaltou a película ao referenciar o desfecho de Cleópatra aos gritos de “um de nós”, entoado por seus colegas de trabalho.</span></p>
<figure id="attachment_26296" aria-describedby="caption-attachment-26296" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26296" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-6.jpg" alt="Cena em branco e preto do filme freaks mostra uma mulher branca e loira totalmente desfigurada. Ela veste um terno preto e uma gravata borboleta, que cobre parte do seu corpo repleto de penas. O cenário apresenta uma lona de circo ao fundo e um piso de areia." width="800" height="600" /><figcaption id="caption-attachment-26296" class="wp-caption-text">“Um de nós” (Foto: Metro-Goldwyn-Mayer)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Com esse final surpreendente da personagem em </span><i><span style="font-weight: 400;">Freaks</span></i><span style="font-weight: 400;">, o diretor completa sua crítica, questionando a moral e os padrões sociais. A conclusão marcante da obra contribuiu para a consagração da película como um filme </span><i><span style="font-weight: 400;">cult</span></i><span style="font-weight: 400;"> nas salas de cinema dos </span><i><span style="font-weight: 400;">midnight movies.</span></i><span style="font-weight: 400;"> 90 anos após seu lançamento, fica bem claro que a fama do terror dos anos 1930 veio de sua capacidade de dar visibilidade a artistas de circo marginalizados e, ainda, apresentá-los como forma de crítica social.</span></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/freaks-90-anos/">Freaks ensina: quem vê cara, não vê coração</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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