Selvagens à Procura de Lei: A Nova Cara do Rock Nacional

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Foto: Dário Matos

Sergio Pantolfi

O Selvagens à Procura de Lei é uma banda relativamente nova, formada em 2009 na cidade de Fortaleza. Os cearenses Gabriel Aragão (vocais e guitarra), Rafael Martins (vocais e guitarra), Nicholas Magalhães (bateria e vocais) e Caio Evangelista (baixo) despontaram para o Brasil e veem dando uma nova cara para o rock nacional.

Em 2011 lançaram o primeiro álbum intitulado “Aprendendo a Mentir”, em 2013, divulgaram o segundo disco, homônimo, onde apresentaram ”Brasileiro”, uma de suas canções de maior repercussão. No dia 1º de março de 2016, a banda apresentou seu mais recente trabalho, o álbum “Praieiro”.

Em entrevista ao blog Persona, Gabriel Aragão conta mais sobre a banda.

 

Para começar, por que Selvagens à Procura de Lei?

Sempre curti o nome Selvagens, porque, pra mim, remetia à uma frase do Tempo Perdido, da Legião Urbana, e ao terceiro disco dos Paralamas do Sucesso. O nosso “sobrenome” veio de uma aula de Sociologia, na faculdade de Direito, quando o professor falou mais ou menos a frase “nós todos aqui somos animais em busca de ordem, de leis”. Eu costumava trocar várias ideias sobre rock com esse professor, que também tocava. Daí veio o “clic” pro nome da banda, que na época era apenas um projeto na minha mente.

E pra quem não os conhece, quem são os Selvagens à Procura de Lei?

Somos todos selvagens à procura de lei. Bem como é o significado do nome: é algo maior do que a própria banda. Mas enquanto grupo, somos 4 irmãos com habilidades diferentes mas com a mesma importância. Selvagens é um trabalho em esquipe na música. É a força do grupo, e não a força de um indivíduo. Também somos uma banda de rock, e o rock é o grito do povo colocado pra fora pela garganta do artista. Ser do rock é libertador.

No começo da carreira de vocês, as pessoas comparavam o aprendendo a mentir com o primeiro disco do Arctic Monkeys. Concordam com essa comparação? Quais artistas a banda costuma ouvir?

No começo da banda, ouvia muita coisa do universo indie, mas não apenas dos anos 2000, como Television, John Frusciante ou Blur. Claro que ouvimos o primeiro disco do Arctic Monkeys. Quem não ouviu naquela época? Assim como o primeiro do Strokes ou do Franz Ferdinand e por aí vai… Vejo o Aprendendo a Mentir como um bom disco da sua época, mas não acho nada parecido com o primeiro dos AM. Talvez a gente tivesse as mesmas influências, talvez algumas músicas tenham realmente uma influência direta deles, como “Casona” ou “Esperando Pelo 051”, mas enquanto disco, são duas obras bem diferente. Aprendendo a Mentir tem um lado Beatles que o primeiro dos AM não tem, por exemplo. Também, no nosso primeiro disco, já começávamos a puxar pra música brasileira/cearense, embora não fosse tão perceptível como os trabalhos mais recentes, mas algo já estava presente ali.

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Foto: Dário Matos

Vocês costumam usar muito da regionalidade nordestina em suas canções, principalmente de Fortaleza. Como foi para a banda, se mudar para São Paulo? Vocês costumam voltar ao Ceará?

Voltamos sempre para Fortaleza. Agora, na Tour Praieiro, estamos investindo mais no interior do Ceará. Fizemos um show recentemente em Quixadá. Queremos explorar mais as cidades do nosso Estado com esse disco. A mudança para São Paulo foi algo natural, não do dia pra noite. Já fazíamos várias investidas da terra da garoa desde o lançamento do Aprendendo a Mentir, no começo de 2011. A mudança de fato só ocorreu no meio de 2013, com o lançamento do segundo álbum pela Universal Music. São Paulo é uma cidade incrível e que mexeu e mexe muito com a gente. Conhecemos vários profissionais, de todas as áreas, amadurecemos bastante, como músicos e como pessoas. Sou muito grato à São Paulo. Como dizemos, é a nossa segunda casa.    

Em 2014 vocês se apresentaram no Lollapalooza. Pode se dizer que foi um grande momento para a banda?

Tocar no Lolla em 2014 foi muito especial. Foi um show divisor de águas pra gente. Nos preparamos bastante para “entregar” uma apresentação diferenciada dos Selvagens. Lançamos “Bem-Vindo Ao Brasil” naquele dia, pra quem estava ali. Subimos no palco mascarados de políticos, num protesto irreverente e bem humorado. Desde então, nosso show se tornou algo maior do que simplesmente tocar um repertório. Levamos o que aprendemos naquele dia até hoje, na Tour Praieiro. Admiro muito as escolhas de bandas do Lolla. Eles fazem algo que nenhum outro festival do país faz. O Lolla abre portas para o novo. Espero que os Selvagens possam voltar em breve e mostrar a nova cara da banda para o novo Lolla que surgirá.  

 

Seus fãs são conhecidos como “Mucambada” em alusão a musica Mucambo Cafundó. Para a produção do Praieiro,a banda anunciou uma campanha de financiamento coletivo. Comente a relação de vocês com o publico.

Nossa relação com o público sempre foi de proximidade. Nos primeiros shows da banda, costumávamos  distribuir nosso primeiro EP de graça pra galera. Aquilo foi a semente dessa relação. Como disse, somos todos Selvagens à Procura de Lei. O público entende isso. Eles não são apenas mais um público. Eles são a Mucambada. É especial. É íntimo. O Praieiro é marcante porque é um disco nosso para eles. Nós fizemos as músicas, A Mucambada investiu e compartilhou o projeto. É uma relação muito tocante. A faixa etária é ampla. Vemos crianças cantando em nossos shows, cada vez mais. Pais que cresceram ouvindo o rock brazuca dos anos 80… Adolescentes colegiais… Além da galera da faculdade que cola nos shows desde o início. Mas quando você percebe que tem crianças no seu show cantando tudo, é uma sensação tão forte que não dá nem pra descrever. Você sabe que está no caminho certo.

Vocês estão em turnê com um disco novo, o “Praieiro”, com uma pegada bem diferente dos dois primeiros. De que forma surgiu inspiração para a produção do álbum?

O que nos inspira é sair da zona de conforto. Pra gente, cada disco precisa ter a sua cara, o seu começo-meio-fim, contar a sua história. Como se fosse um livro de uma saga. O segundo disco da gente, de 2013, fala muito sobre transição, sobre o processo doloroso que é crescer, entre o juventude e a vida adulta que se aproxima. Nosso terceiro disco já parte do “se jogar”, que é bem o espírito descrito em Tarde Livre, o primeiro single. Além disso, buscamos turbinas referências que já tínhamos, mas quem ainda não se mostravam nas nossas músicas. Trabalhamos muito os ritmos dessa vez… Dance, xote, reggae, funk… Tudo isso, mas com os Selvagens executando. Selvagens sempre vai carregar o espírito do rock, mas como o próprio rock é algo totalmente libertário, não nos prendemos a nenhum estilo e fazemos o que queremos fazer no momento. Cada disco dos Selvagens será único. Não acreditamos em repetir fórmulas.

Sobre a turnê, o que esperam? Pensam em levar o selvagens para fora do Brasil?  

Sempre! Mas tomamos uma decisão lá atrás de chegar no máximo de cidades do nosso Brasil, antes de colocar o pé pra fora. Temos tantos fãs espalhados pelo país que ainda não viram um show dos Selvagens que tomamos isso como missão para a Tour Praieiro. Até porque, como disse, Praieiro é um disco dos Selvagens para a Mucambada, e eles merecem isso. Temos fã clube em Porto Alegre e Manaus, por exemplo, embora ainda não tenhamos tocado por lá. Então, chegou a hora de tornar isso realidade. Os shows da Tour Praieiro estão sendo incríveis. É uma ótima oportunidade de conhecer os Selvagens à Procura de Lei. Estamos com um repertório rico. É uma fase muito gratificante pra gente. Estamos nos programando para levar o som dos Selvagens para fora do Brasil. Quem sabe esse ano ainda role algo na América Latina. Quem sabe ano que vem a gente se mande pro SXSW. Está nos planos. O futuro dirá.

 

Falando especificamente de ”Tarde Livre” o single lançado em novembro do ano passado, que também está presente no “Praieiro”, fez bastante sucesso e tocou em varias plataformas pelo pais. Vocês estão felizes com a repercussão da música? Como foram recebidas as críticas tanto negativas e positivas pela banda?

Estamos muito satisfeitos, sim, mas acredito que o potencial da música é muito maior do que o que está aí. Tarde Livre é um resumo do que sentíamos na mudança pra São Paulo e é uma força sinistra tocar ela ao vivo. O público se emociona, a gente se emociona. Acho que a grande mídia que move o país ainda não entendeu a força da nova geração da música brasileira. Mas não importa. Nós somos a geração da internet, sem barreiras ou limites. É questão de tempo até que a velha guarda entenda os novos artistas como um todo. Devagar a gente chega lá. Duvido de tudo que segue pelo que é mais fácil. Acredito em críticas construtivas, como uma que ouvimos na época do primeiro disco, que dizia que era um álbum datado. Levamos em consideração essa crítica enquanto escrevíamos o segundo disco. Críticas ao Praieiro do tipo “tá muito diferente dos discos anteriores” eu não consigo nem levar à sério, porque realmente era essa a nossa intenção, assim como espero que o próximo álbum não tenha nada a ver como o que fizemos até aqui. O Praieiro é um disco que, pela primeira vez, todos compõe, tem músicas minhas, do Rafa, do Caio e do Nicholas. Talvez, porque nos discos anteriores, as músicas eram minhas e do Rafa, cause uma certa diferença nas letras, por exemplo. Mas acho que é um disco rico justamente por isso. E isso é super válido. Tudo tem que ter um começo. Tenho certeza que no próximo álbum estaremos todos muito mais afiados como compositores. Mal posso esperar.

A quarta faixa do álbum,”Felina” tem uma pegada meio reggae, meio surf rock, algo difícil de ser encontrado nos outros discos. Comentem essa experiencia de vocês, inovarem e fugirem um pouco do rock.

Não dá pra fugir do rock quando se trata dos Selvagens à Procura de Lei. Por mais reggae, dance ou funk que a gente possa fazer, nossa raiz é do rock. Felina é uma música bem resolvida, um reggae nordestino malandro. A letra foi inspirada em Alceu Valença. É tudo muito malandro nessa música… É um rock-raggae gaiato que faz todo mundo dançar no primeiro acorde. Quando chega o momento dela no show, dá sentir a energia de todo mundo ficando suave e bem humorada. É mais ou menos isso que queríamos causar no público com o Praieiro. Acho que a música brasileira estava muito séria até então, numa onda muito intelectualzóide, com letras difíceis que não tocavam o coração de ninguém. Algo que não representava o povo brasileiro em toda a sua dimensão, mas apenas uns poucos bajuladores. Fico muito feliz de fazer a galera dançar no show dos Selvagens, com Felina e outras músicas do Praieiro. Era isso que tínhamos em mente.  

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Foto: Dário Matos

Para terminar, como vocês se sentem sendo a cara do novo rock nacional? Quais os planos para o futuro da banda?  Onde vocês almejam chegar?Algum recado para os fãs?

Tenho muito orgulho de poder levar essa bandeira adiante. Fico emocionado toda vez que leio a história do rock nacional. No momento estou lendo a biografia do Dado Villa-Lobos, “Memórias de Um Legionário”. Aquela geração foi de uma força de vontade impressionante. Sem eles, não estaríamos fazendo o que fazemos. Cada objetivo que conquistamos traça a estrada para o próximo. Queremos sempre aquilo que ainda não realizamos, com muita humildade e muito trabalho. É preciso aprender com os erros pra chegar além. Agora, com três discos lançamos e 6 anos de banda, temos uma experiência boa a nosso favor. Estamos com um baita repertório. Sinto que está cada vez mais perto de captar um registro ao vivo dos Selvagens à Procura de Lei. No último show em Fortaleza, no Maloca do Dragão do Mar, tocamos para mais de 6mil pessoas. Uma energia absurda. Precisamos registrar esse momento da banda, para então, colocarmos os pés pra fora do Brasil, levando esse som brasileiro da nova geração, com esse sotaque nordestino, com muito amor e dedicação, pra além de nós mesmos.

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