Racionais Mc’s: 30 anos contrariando as estatísticas

racionais mc'sGabriel Grunewald

“O Racionais é foda. Foda nada. Falei o óbvio, sou semianalfabeto, parceiro.” (Mano Brown)

São Paulo, dia 7 de junho de 2017, uma da manhã. Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e Kl Jay enchem, com milhares de pessoas, a casa de shows Audio Club, na Barra Funda, para sua festa de 30 anos. O público se emociona a cada batida. Quando os clássicos tocam, a pista canta junto cada verso. A produção é impecável: quatro DJs, projeção em 3D, dançarino e grupo de apoio.

Quando o show termina, jovens de partes privilegiadas da cidade, vestindo roupas importadas, saem pela mesma porta em que moradores de zonas periféricas, uniformizados de 1DASUL (marca do Capão Redondo, apoiada pelo Racionais Mcs e o escritor Ferréz), também cruzam para irem para suas casas.

Em suas três décadas de existência, entre 1000 trutas e 1000 tretas, o grupo de Rap paulistano se destaca por conseguir, como nenhum outro, fazer as classes média, intelectual e artística ouvirem e respeitarem a voz da periferia. Pedro Paulo, Edivaldo Pereira, Paulo Eduardo e Kleber Geraldo contrariaram muitas estatísticas para sobreviverem ao holocausto urbano e estarem em cima daquele palco.

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O Começo
O Clube da Cidade era uma boate localizada no Centro de São Paulo e frequentada pelo pessoal do Hip Hop, nos dias em que rolava a festa “Clube do Rap”. Nela, tocavam as novidades e alguns grupos se apresentavam. Certa noite, Pedro Paulo e seu amigo do bairro do Capão Redondo, Paulo Eduardo, viram a apresentação da dupla do rapper Edi Rock e seu DJ Kl Jay.

Em entrevista concedida ao Red Bull Basement (e usada para a construção da matéria), Mano Brown conta que foi a apresentação terminar, ele correu para abraçar o tímido DJ da Vila Mazzei. “Mano, eles já tinham equipamento. Nóis quatro somos negros. Já falávamos disso em nossas letras. A primeira ideia do Racionais era falar de raça negra”, disse Brown.

Naturalmente, aqueles “rapazes comuns” de áreas diferentes, passaram a estreitar relações. Pedro Paulo começou a trabalhar com Kleber Geraldo no Centro de São Paulo. Edivaldo Pereira e Paulo Eduardo também estavam sempre por lá, pelas festas e nos encontros na São Bento. Dessa maneira, a junção transformou-se em composições para coletâneas incentivadas pelo selo Zimbábue e, mais tarde, viriao primeiro album dos rapazes.

Holocausto Urbano (1990 – “O sonho era gravar” (Kl Jay)
“Quando a noite cai e o dia escurece, só quem é de lá sabe o que acontece”. Assim começa a primeira música lançada pelo grupo. E não podia ser diferente de alguém que veio de onde eles vieram. No início da década de 90, a desigualdade era ainda maior, a inflação galopava, a violência em bairros periféricos tinha índices muito maiores e era natural que aqueles quatro jovens engajados politicamente falassem sobre aqueles “Tempos Difíceis”.

“A gente deixava o Edi Rock na casa dele, no fundão da Jova Rural, ele punha um plástico no pé e subia o morro no escuro”, contou Mano Brown sobre a complicada rotina daquele ano. De 1990 a 1993, o Racionais não viu a cor do dinheiro. Em shows com cachê baixo, juntando moedas para o grupo conseguir ter gasolina e ligando de orelhão para contratantes, as coisas só mudaram mesmo quando veio o segundo disco.

Raio-X Do Brasil (1993 – Fodidamente voltando)
A música que pôs o quarteto no mapa foi “Homem na Estrada”. Com sample do instrumental de “Ela Partiu”, de Tim Maia (do disco Racional, que deu nome ao grupo), a composição estourou e tocou nas maiores rádios do Brasil. Para os músicos, que já admitiam pensar em escolher outros caminhos, o single veio como uma tábua de salvação (ou de esmeralda) e comprovou que o grupo não era formado por “negros limitados”.

“Quando nóis viu dinheiro mesmo foi Homem na Estrada. Nóis antes dividia com 20, 30 manos. Quem tivesse. Nós víamos e falamos: parceiro vou te dar R$ 3 mil. Sem pensar”, relatou Brown sobre como foi quando os garotos pobres começaram a realmente ganhar dinheiro.

Com outras músicas como “Fim de Semana no Parque”, “Júri Racional” e “Mano na Porta do Bar”, o Racionais tornou-se a trilha sonora das periferias. Pelos bares e carros das quebradas, ecoavam essas canções – mas essa produção ainda nem chegava perto de ser aceita pela classe média e elite intelectual brasileira. Isso tudo muda, entretanto, com o próximo lançamento.

Sobrevivendo no Inferno (1997 – Depois de Cristo…)
Se o “Holocausto Urbano” foi o troféu para os adolescentes que tinham como sonho lançar um disco, o terceiro álbum foi a consagração de uma vida inteira de sobrevivência. Com letras lapidadas pelos MCs e a possibilidade de samplear com maior liberdade devido às novas tecnologias, aquele lançamento foi um marco tanto na vida do grupo quanto na cultura nacional.

Religião, música brasileira, violência, crime, cadeia, morte, droga, noite e mulheres: esses eram os principais temas abordados pelo Racionais e outros grupos de Rap. Porém, até aquele momento a sociedade nunca tinha sido exposta de maneira tão profunda ao assunto, a ponto de obrigá-la a abrir os olhos para o que ocorria e o que estava sendo relatado pela periferia.

“O Brasil tem épocas de cegueira. Tinham coisas muito óbvias que ninguém via, mas a periferia vivia. Tava dentro do jogo, mas não sabia no que envolvia ela. Quando começamos a falar nessas coisas, muito inspirado no Malcom X, Martin, Mandela: Nossa, o Racionais é foda. Foda nada. Falei o óbvio, sou semianalfabeto, parceiro”, revelou Brown.

Além desse disco ter feito com que o país fosse obrigado a ver e ouvir o que eles tinham para falar em letras cortantes como “Diário de Um Detento”, “Fórmula Mágica da Paz” e “Capítulo 4. Versículo 3”, essa época também foi a mais conturbada de toda a carreira do grupo.

Por ser um material que dialoga com religião, tem a capa preta, flerta com a umbanda, ostenta foto de integrantes com crucifixos e bíblia na mão, comenta de morte e tem batidas mais secas, o que era cantado nas letras começou a se tornar realidade.

“Vivê aquilo é muito diferente de cantar aquilo e as coisas começaram a vir. Começô a morrê gente no show do Racionais. Na porta da festa. Com camiseta do Racionais”, confidenciou Brown. “A gente andava armado. Passamos perigo de vida. Fomo roubado. Encontramos os caras. Troca de tiros. Um cara baleado de manhã no PS. A polícia falou que tinha sido nóis. Aí o cara morreu, pô minha vida passô inteira naquela noite”, complementa o líder do grupo.

Na mesma medida em que o sucesso era gigantesco, os problemas começaram a se tornar intransponíveis: os integrantes não podiam nem rir que fãs questionavam-os, eram obrigados a andar armados e até troca de tiros com a polícia eram tão constantes que nenhuma empresa de locação de ônibus assinava contrato com eles. Tudo aquilo precisava parar ou, certamente, a vida deles acabaria antes da hora.

Nada Como Um Dia Após o Outro Dia (2002 – Que céu azul loco)
Depois de uma situação que parecia um “Beco Sem Saída”, o grupo diminuiu as atividades e cada um dos integrantes foi se refugiar em seus bairros com amigos e família. “Foram dois anos para limpar. Nóis saímos de uma capa preta para um disco azul clarinho. ‘Nada como um dia’ é um disco mais real, mais musical e mais leve”, explicam DJ e líder do grupo sobre o primeiro álbum duplo do Racionais.

“Da Ponte Pra Cá”, “A Vida é Desafio”, “Negro Drama” e “Vida Loka Pt. 1 e 2”, são, certamente, as músicas mais famosas e decoradas do grupo. Com elas, Mano Brown e seus amigos entraram pelo rádio, o “tomaram” e, quem ainda se negava a aceitar a qualidade e importância do grupo, mais uma vez, nem viu. O disco é uma produção que interpretava a vida de maneira mais positiva e convidava o público a brindar esse exemplo de vitórias, trajetos e glórias.

Tido como o mais popular dos lançamentos do quarteto, ele os alçou para a grande mídia. O Racionais quebrou o silêncio e foi nos grandes meios de comunicação. Nesse momento ele se abriu a outras oportunidades, ambientes e pessoas para se tornar o maior grupo de Rap do Brasil.

Cores e Valores (2014 – Pretos Zicas)
Depois do mais longo hiato de toda a trajetória do grupo, o Racionais voltou mais musical do que nunca – e não por acaso. “A gente pensa em música primeiramente. Em primeiro lugar a música”, falou Edi Rock. O último material do Racionais é o mais leve e trata de temas como mulheres, festas e o lado mais leve de vida sem esquecer de suas “Cores e Valores”.

Com uma produção calcada em sons feitos para curtir em festas e bailes, o disco representa o momento atual do quarteto. “Eu tô me sentindo um pouco artista agora, mas não era assim. A gente é esculpido a machado”, disse Brown.

Dessa maneira, sem esquecer de onde vieram, cada integrante seguiu os caminhos que escolheram. Mano Brown e Edi Rock, por exemplo, continuam compondo e fazendo parcerias. Ano passado, o líder até lançou um álbum cheio de ritmo para dançar e para quem ouça “Sinta-se Bem”.

Kl Jay continua tocando em diversos locais pelo país e Ice Blue segue em seus projetos pessoais fora dos holofotes pois, como o próprio Brown diz: “ele é um cara mil grau”.

Entrevista complementar

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