A Qualquer Custo e o faroeste moderno

hell_or_high_water

Sergio Pantolfi

A Qualquer Custo (Hell or High Water) traz a ideia de justiça com as próprias mãos, valores familiares, nacionalismo, a questão da família tradicional americana e questões socioculturais: esses aspectos resumem bem o que o diretor David Mackenzie quer passar.

Toby (Chris Pine) e Tanner Howard (Ben Foster) são irmãos que decidem assaltar agencias bancárias e assim obter dinheiro para o pagamento da fazenda deixada pela mãe, já falecida – a diferença é que só roubam agências do banco que está cobrando a hipoteca. No meio do caminho, porém, eles precisam lidar com Marcus Hamilton (Jeff Bridges), um delegado veterano que está prestes a se aposentar.

Sotaque caipira, paisagens desérticas, calor escaldante, vegetação quase rala: Texas, Estados Unidos. Com um roteiro direto, o filme reconstitui a cara do que é considerado o neo-western no cinema, ou traduzindo, filmes de faroeste repaginados para a atualidade. Aí reside o grande mérito da obra, pois se desprende daquele clichê da narrativa que se baseia apenas em perseguições. Há um sentimentalismo muito grande em cada personagem, abordando personalidades tão distintas de maneira completa através das falas e expressões dos atores.

Apesar dos diálogos serem interessantes, o adendo negativo fica por conta de o longa contar com algumas vagarosas (até demais) cenas de conversas, principalmente em estradas (road scenes), que podem levar o espectador a um cochilo inesperado antes de uma hora de filme; mas nada que influencie demais no saldo final.

hell_or_high_water_robbery_scene

A abordagem acerca do faroeste é bem diferente dos padrões do gênero. Cavalos são substituídos por caminhonetes, pistolas por fuzis e duelos frente a frente são transformados em tiroteios no meio da estrada, onde a busca pelo dinheiro e o senso de justiça falam ainda mais alto. O filme também trata da questão do regionalismo, principalmente no Texas, onde é comum a população andar armada e ser adversa a imigrantes, principalmente mexicanos.

Retomando questão do diálogo, é importante salientar que esse é o ponto chave  para a construção dos personagens. Como por exemplo, em uma cena no quarto de hotel, Marcus está com seu parceiro de origem indígena, que assiste a um sermão de um pastor na TV. Em seguida, Marcus começa a soltar ironias e piadas desdenhando da opção religiosa de seu parceiro, que retruca ‘‘Você não é religioso?’’, e recebe a resposta ‘‘Sou, mas não sou idiota’’. Nas conversas entre os irmãos, é possível perceber o jeito de cada um, acerca do modo em que contam suas memórias e da forma de agir um com o outro.

Em relação à fotografia, a obra traz as paisagens áridas e quentes, geralmente consideradas ‘‘feias’’, retratadas de forma bela e simples, tais como um por do sol, um nascer do sol ou uma noite estrelada. Em todas essas cenas, há a companhia de música country para trazer, mais uma vez, a regionalidade do estado texano e seu povo.

Vale reservar um parágrafo para Jeff Bridges. O ator se encaixa perfeitamente no papel de xerife durão, e chega forte na briga do Oscar de melhor ator coadjuvante. A construção do personagem é envolta no estereotipo do policial texano, sotaque engraçado, cumpridor de leis, armamentista e que valoriza os valores da família tradicional americana.

Hell-Or-High-Water-II

Todos esses aspectos em conjunto, fazem com que A Qualquer Custo seja admirado pela coragem do seu diretor, em fugir do padrão conhecido de faroeste, por saber lidar com personagens diferentes que acabam convergindo no clímax do filme e, além disso, abordar questões raciais, regionais e culturais. Vale ressaltar também a critica feita acerca da crise imobiliária que aflige os Estados Unidos, do papel de vilão que os bancos tomaram na história americana e do desemprego. É essa a sua originalidade e é isso que o torna atrativo.

A qualquer custo estreou no Brasil no dia 5 de janeiro, e foi indicado a quatro Oscars: melhor filme, melhor ator coadjuvante, melhor edição e melhor roteiro original.

1 pensamento em “A Qualquer Custo e o faroeste moderno”

Deixe uma resposta