Liniker: remontar vai além da maquiagem

Abaixa que é tiro: Liniker (ao centro) e sua trupe
Abaixa que é tiro: Liniker (ao centro) e sua trupe

Nilo Vieira

Liniker é uma figura interessante no Brasil contemporâneo: nasceu homem, mas se veste com roupas femininas, passa batom e pede para ser chamada no feminino. Tem vozeirão de artista maduro, mas seu carisma é tão espontâneo quanto o de uma criança. Seu sucesso com a esquerda, especialmente a universitária, foi instantâneo e compreensível – assuntos como empoderamento, tanto negro como LGBT, e quebra de estereótipos de gênero já são praticamente inerentes à suas falas, bem como a praticamente qualquer texto sobre sua curta carreira.

Liniker canta, acompanhado pela banda Os Caramelows, e acaba de colocar no mercado o primeiro disco de estúdio, Remonta, de forma totalmente independente (o álbum foi financiado por uma campanha bem sucedida no Catarse, site de crowdfunding). O trabalho conta com 13 faixas, sendo 3 as já conhecidas do público “Zero”, “Caeu” e “Louise du Brésil”, integrantes do ep Cru. As imperdoáveis comparações e hipérboles não tardaram a rondar os veículos alternativos do país: “uma mistura de Tim Maia e Ney Matogrosso”, “Liniker inova cenário da MPB”, “conheça a música tombadora (sic) brasileira, liderada por Liniker”, dentre outras manchetes, suscitam a questão: a imagem basta para sustentar a música?

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Básico até demais: a capa do álbum

O ouvinte mais exigente não encontrará novidade alguma em Remonta. O álbum segue à risca a receita estabelecida pelos panteões do soul há quatro décadas atrás, e parece muito bem resolvido assim. Malabarismos vocais são onipresentes e exagerados, os metais aparecem sempre na hora certa, a percussão é marcante, o baixo é cheio de groove. De modo geral, a produção diminuiu bastante a organicidade do repertório (as guitarras estão altas demais e incomodam, bem como os vocais permanecem muito na frente no mix mesmo em trechos quietos), que também poderia ser mais enxuto – a reclamação dos fãs com as novas versões para as canções do ep já é recorrente internet afora.

A possível exceção às regras cravadas por nomes como Tim Maia e Curtis Mayfield fica por conta de “Sem Nome, Mas Com Endereço”, cuja suavidade nos arranjos remete ao som intimista do contemporâneo Marcelo Jeneci. Uma única faixa, em quase cinquenta minutos de música. É muito pouco, e se torna ainda mais inofensivo ao notar que o novo álbum da rapper Tássia Reis (colaboradora de Remonta), lançado também esse mês, consegue ser mais impactante e variado em apenas meia hora de duração.

No quesito lírico, o amor impera como assunto central, seja em declarações apaixonadas, odes ao amor próprio ou desabafos de coração partido. Novamente, nenhuma ideia fora da caixinha, tanto para o nicho do soul quanto fora dele: o tema é tratado com a mesma universalidade de nomes como Marvin Gaye e Stevie Wonder, mas sem a mesma personalidade forte que lhes deu fama e credibilidade.

Sim, trata-se de uma estreia e é perfeitamente normal que a real identidade sonora do grupo ainda se mostre embrionária e pouco arrojada. No entanto, não sana a indagação quanto ao embate entre o que a figura de Liniker representa e o que sua música diz, bem como só torna os louros prematuros dados pela imprensa como questionáveis; figuras como a MC Carol e o MC Bin Laden tiveram primeiro de receber atenção estrangeira para depois serem sequer considerados como artistas relevantes no país.

Você já ouviu algo parecido com essa música?

O que diabos tem uma coisa a ver com a outra? O MC Bin Laden construiu sua persona com plena noção do quanto o aspecto visual é relevante, ao passo em que a MC Carol sempre buscou usar de seu trabalho artístico como maneira de empoderamento. Fizeram isso antes de Liniker, e sem deixar de criar sons realmente inovadores e irreverentes. Todavia, o máximo de atenção recebida por esses se deu na forma de memes ou, pior ainda, do gosto irônico (responsável por declarações horrendas, nocivas como “é muito engraçado, mas não tem qualidade alguma” e “até parece que alguém realmente gosta dessas músicas de maneira séria”).

Outro ótimo exemplo é o último álbum de Elza Soares que, mesmo no alto de seus 80 anos, se recusou a permanecer confortável e entregou não somente um dos melhores registros de sua carreira, mas um dos discos mais representativos e contemporâneos da atualidade brasileira – inventivo, enfiando o dedo na ferida com críticas sociais. Em A Mulher do Fim do Mundo, o samba passa por uma repaginada e ganha ares dissonantes, modernos. O mesmo pode se afirmar em relação aos MCs supracitados e o funk carioca (ou mesmo o trap rap dos EUA, que recebe nova roupagem aqui), e só confirma o quanto a capacidade brasileira de captar estilos e reinventá-los não acabou na tropicália.

O ponto aqui não é afirmar que, para ser relevante, é obrigatório inovar, nem mesmo diminuir as conquistas de Liniker em um país preconceituoso em todos os âmbitos e que pouco valoriza seus artistas. No entanto, afirmar que existe alguma inovação artística em Remonta não só é inverídico, como de maneira alguma irá sanar as dívidas históricas que ativistas políticos tanto problematizam. Da mesma forma, questionar artistas de som absolutamente genérico que ganham alta rotação midiática no mainstream é algo que também se faz necessário: música não deveria ser algo sobre rostinhos bonitos – quantos galãs feios do sertanejo universitário mais teremos de engolir e ainda ver captando dinheiro público?

Os padrões nauseantes da indústria cultural precisam ser destruídos, e isso não acontecerá com adaptações aos seus moldes; Liniker pode servir de exemplo para inspiração social, mas não se encaixa como pilar de pioneirismo ou vanguarda artística. A comparação é injusta, mas cabe para dimensionar as coisas: assim como Prince jamais seria ícone sem sua estética andrógina e glamourosa, também não teria a mesma consagração se fosse apenas um músico meramente repetindo conceitos de décadas passadas. Desse modo, a figura Liniker, que aborda assuntos tabu em uma sociedade tão conservadora, é de real importância. Quanto a sua música, ainda tenho lá minhas dúvidas.

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