Irônico e autoconsciente: como Pânico mudou para sempre o gênero do terror

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Lucas Lombardi, estudante de Jornalismo da Unesp Bauru

“Nunca pergunte ‘quem está aí?’, você não assiste a filmes de terror? É uma sentença de morte.”, diz o assassino do outro lado da linha telefônica. Se você já assistiu a um slasher movie, o clássico filme de assassino, tem ideia dos clichês e elementos que vivem se repetindo. É sempre um maníaco mascarado perseguindo uma adolescente, que se esconde dentro da casa ao invés de sair e correr pela porta da frente, evitando o perseguidor. Esse tipo de filme teve seu auge de popularidade nos anos 80, gerando alto lucro para os estúdios, que faziam sequências e mais sequências, todo o ano.

Com tantos filmes similares sendo produzidos, no início dos anos 90, o gênero entrou em decadência, tendo em vista que os últimos filmes das grandes séries clássicas do terror, como Sexta-Feira 13, O Massacre da Serra Elétrica e Halloween, tiveram péssima recepção, tanto de público, quanto de crítica. O público estava cansado, e os estúdios precisavam de novos ícones do terror, novas franquias para poder explorar, mas nada lançado na época conseguia obter o mesmo nível de sucesso da década anterior. Foi aí que Pânico, filme dirigido por um dos grandes mestres do cinema de terror, Wes Craven, também diretor da série A Hora do Pesadelo, entrou em cena no final de 1996.

O filme se inicia com a personagem Casey Becker (interpretada por Drew Barrymore) atendendo um telefonema de um desconhecido, que a princípio se mostra amigável, querendo apenas dialogar, mas logo demonstra sua verdadeira intenção, dizendo que iria estripá-la como um peixe. O assassino, Ghostface, dublado por Roger L. Jackson – que realmente conversava com o elenco em cena através de um telefone – funciona muito bem no contexto do filme, com uma voz a princípio calma, porém aterrorizante. Essa cena inicial, que já se destacara na época, hoje é icônica. A morte da personagem de Drew Barrymore foi uma surpresa, visto que se tratava da atriz mais popular do elenco, tendo sua imagem utilizada em uma posição de destaque nos pôsteres do filme.

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A verdadeira protagonista do filme trata-se na verdade de Sidney Prescott (Neve Campbell), que tem de lidar com as mortes que andam acontecendo, tendo em vista o aniversário do assassinato da própria mãe, que aconteceu exatamente um ano antes dos eventos do filme, e pode ter uma ligação com o novo assassino, cuja identidade é um mistério. Além de um clímax memorável, onde é revelada a identidade do assassino, o que realmente faz de Pânico um filme inovador é a forma como trata suas personagens, que estão cientes de estarem em um filme de terror e sabem o que fazer e não fazer em determinadas situações. O alívio cômico fica por conta de Randy (Jamie Kennedy), que constantemente discute clichês, aponta possíveis suspeitos e estabelece regras para sobreviver a filmes de terror: “Nunca em nenhuma circunstância diga ‘já volto’, porque nunca voltará.”, estabelece, sendo desafiado com um ‘já volto’ de Stu, personagem interpretado por Matthew Lillard (o Salsicha, de Scooby Doo), outro destaque do filme.

Não é necessário dizer que o filme foi um tremendo sucesso, que não só revitalizou o gênero slasher, como popularizou filmes autoconscientes, quase paródias, como os mais recentes Por Trás da Máscara (2006) e O Segredo da Cabana (2012). Ghostface, com sua máscara inspirada pela série de pinturas O Grito, do norueguês Edvard Munch, se tornou um ícone cultural, sendo uma das fantasias de Halloween mais populares nos anos 90 e início dos anos 2000, continuando popular até hoje. Ainda que não comprovado, muitos atribuem ao filme a façanha de triplicar o uso de aparelhos identificadores de chamada nos EUA, confirmando o ditado popular de que é melhor prevenir, do que remediar, afinal, nunca se sabe quando se pode receber uma ligação do Ghostface.

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Até a morte precoce de Drew Berrymore retoma outro clássico do suspense: Psicose

A série possui ainda três sequências, que zombam dos clichês de sequências, trilogias e remakes, respectivamente, além de um reboot em forma de série de televisão que recentemente foi renovada para sua terceira temporada na MTV. Apesar de não terem sido tão bem recebidas quanto o filme original, as continuações de Pânico se mantém divertidas e relevantes. Não se pode deixar de mencionar ainda o filme Todo Mundo Em Pânico (2000), comédia derivada de Pânico, que levou o aspecto satírico ao extremo e obteve sucesso com o público jovem na época em que foi lançado, aumentando ainda mais a popularidade da série.

Em meio a todo esse sucesso, também houve controvérsias. Há pelo menos três crimes de assassinato registrados ao redor do mundo que se acredita terem sido inspirados pelo filme, todos envolvendo jovens que admitiram serem fãs do filme, ou foram flagrados com máscaras semelhantes. Em 1999, depois do massacre de Columbine, nos Estados Unidos, onde dois jovens armados atacaram a escola onde estudavam, deixando 13 mortos e vários feridos, levou o governo do país a analisar a consequência da violência nos filmes, usando a cena inicial de Pânico como um exemplo de mídia negativa que pode influenciar crianças e adolescentes. É interessante notar que, o tema de violência no cinema é abordado diretamente no filme em si, sendo mencionado pelo personagem Billy Loomis (interpretado por Skeet Ulrich) que afirma não acreditar que filmes criam assassinos.

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Wes Craven, em sua participação no filme Pânico, vestido como Freddy Krueger, personagem de sua criação

É inegável a influência que Pânico teve sobre uma geração que cresceu com os clichês dos anos 80, aplicados de forma debochada dentro da estrutura do filme. Craven, sobretudo, conseguiu renovar todo um gênero decadente, trazendo uma nova forma irônica de fazer terror, que foi copiada e reproduzida nos filmes subsequentes da década de 90, como Prova Final (1998), Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (1997) e Lenda Urbana (1998). Infelizmente Craven faleceu em 2015, mas, representado na cultura pop por Freddy Krueger e Ghostface,  deixou seu legado para o cinema do terror, mostrando ser capaz de adaptar perfeitamente o terror clássico para um contexto moderno, o que muitos remakes e reboots atuais falham em conseguir, desgastando ainda mais o gênero, que desesperadamente carece de um novo mestre.

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